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Arquivos de Epstein colocam Peter Mandelson no centro de crise britânica

Peter Mandelson, ex-embaixador britânico nos EUA, se torna alvo de investigação por má conduta em cargo público após novos arquivos ligados a Jeffrey Epstein virem à tona em fevereiro de 2026. Documentos, e-mails e fotos sugerem vazamento de informações políticas sensíveis em 2009, na esteira da crise financeira de 2008.

Documentos, fotos e um passado que volta a assombrar

A Polícia do Reino Unido cumpre mandados de busca em dois endereços ligados a Mandelson, em Wiltshire e em Camden, em Londres, na sexta-feira, 6 de fevereiro. Os agentes agem três dias depois da abertura formal de uma investigação por suspeita de má conduta em cargo público, motivada por denúncias que incluem uma comunicação oficial do próprio governo.

No centro da apuração estão os chamados arquivos Epstein, um conjunto de documentos, e-mails e imagens associados ao financista americano morto em 2019. Entre os papéis aparecem trocas de mensagens de 2009 em que Mandelson, então secretário de Negócios no governo trabalhista de Gordon Brown, parece antecipar a Jeffrey Epstein medidas econômicas em discussão no gabinete, em resposta à crise financeira deflagrada em 2008.

Em uma dessas mensagens, Mandelson sinaliza a Epstein detalhes de propostas em estudo para salvar bancos e sustentar o crédito, num momento em que o sistema financeiro britânico ainda tenta se reerguer após o colapso de 2008. Em outra frente, o político indica que a União Europeia prepara um pacote de resgate de € 500 bilhões para proteger o euro, informação que, se confirmada, circula antes de qualquer anúncio público.

Os arquivos trazem ainda uma fotografia em que um homem que parece ser Mandelson aparece de cueca, ao lado de uma mulher com o rosto borrado. Não há data, local ou legenda que expliquem a cena. À BBC, Mandelson diz que “não consegue identificar o local ou a mulher e não consegue imaginar quais eram as circunstâncias”. O material se soma a registros que já expõem encontros sociais e proximidade entre ele e Epstein.

O ex-embaixador, figura central do chamado “Novo Trabalhismo” e uma das vozes mais influentes da política britânica nas últimas três décadas, evita responder a pedidos de comentário desde que os mandados são cumpridos. Ele se demite do Partido Trabalhista no domingo, 1º de fevereiro, e abandona a cadeira na Câmara dos Lordes dois dias depois, em 3 de fevereiro, num gesto lido como tentativa de conter danos ao governo Keir Starmer.

A vida pessoal também entra involuntariamente no noticiário. Casado com o brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, Mandelson sempre cultiva a imagem de cosmopolita com trânsito em capitais políticas e financeiras. As revelações atuais pressionam esse capital simbólico e ecoam em Brasília, Washington, Bruxelas e nas principais praças financeiras.

Pressão sobre Starmer, instituições e a família real

As revelações chegam em um momento delicado: o Reino Unido se aproxima das eleições de 2026, com a economia ainda sentindo efeitos de uma década de austeridade, do Brexit e da inflação recente. O caso rapidamente deixa de ser apenas sobre a conduta de um político veterano e passa a testar a credibilidade das instituições britânicas.

O primeiro-ministro Keir Starmer é alvo imediato. Em 2024, ele escolhe Mandelson para a embaixada em Washington, uma das posições mais estratégicas da diplomacia britânica. Críticos afirmam que o premiê ignora alertas sobre a proximidade entre o ex-embaixador e Epstein. Agora, diante dos novos documentos, Starmer admite ter sido enganado. Em declaração pública, diz lamentar ter acreditado nas “mentiras” de Mandelson antes de enviá-lo para os EUA.

A oposição explora o episódio para questionar o julgamento do premiê e seu compromisso com a transparência. Dentro do próprio Partido Trabalhista, vozes que veem Mandelson como símbolo da velha elite política cobram distância e renovação. A crise reforça a percepção de que a linha entre poder político, influência financeira e redes privadas de amizade segue turva em Westminster.

Os arquivos Epstein não atingem apenas Mandelson. Nomes da família real britânica e de outras casas reais europeias aparecem nas planilhas, agendas e registros de viagem. O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, já afastado de funções oficiais após acordos judiciais ligados a Epstein, volta ao centro das atenções. Starmer o exorta a prestar depoimento ao Congresso dos EUA, gesto que sinaliza disposição de cooperar com investigações internacionais.

Menções à ex-esposa de Andrew, Sarah Ferguson, e à família real da Noruega ampliam a sensação de que o escândalo ultrapassa fronteiras nacionais e obriga monarquias europeias a reverem laços com figuras controversas. A associação entre membros da realeza e Epstein reabre debates sobre privilégios, imunidades de fato e a capacidade de instituições centenárias se adaptarem a critérios modernos de prestação de contas.

No plano econômico, a suspeita de que informações sobre um resgate de € 500 bilhões circulam em círculos privados anos atrás acende um alerta. Investidores com acesso antecipado a esse tipo de dado podem lucrar em operações bilionárias, distorcendo mercados e aprofundando desigualdades. Especialistas em governança veem no caso um exemplo extremo de como informações de Estado podem ser convertidas em ativo privado.

Investigações, possíveis processos e o que está em jogo

A investigação aberta na terça-feira, 3 de fevereiro, avalia se Mandelson viola o dever de sigilo e comete má conduta em cargo público ao compartilhar informações politicamente sensíveis com Epstein. A polícia recolhe computadores, celulares, anotações e cópias de e-mails nas propriedades vasculhadas em Wiltshire e Camden. O material deve alimentar uma análise minuciosa de fluxos de mensagem, datas e cruzamento com decisões econômicas adotadas entre 2008 e 2010.

Promotores consideram, em cenário extremo, apresentar acusações criminais relacionadas ao uso indevido de informação privilegiada. Uma eventual denúncia pode arrastar para o inquérito assessores, intermediários e outros políticos que frequentam o mesmo círculo social. Escritórios de advocacia em Londres já relatam aumento na busca por orientação de ex-colaboradores e figuras que aparecem nos arquivos, temerosos de serem chamados a depor.

O caso alimenta discussões sobre regras de nomeação para cargos de alto escalão, especialmente embaixadas e postos econômicos. Parlamentares de diferentes partidos falam em reformar os mecanismos de sabatina e exigir divulgação mais ampla de eventuais conflitos de interesse, inclusive relações com grandes doadores e figuras de reputação controversa. Organizações de transparência defendem a criação de um registro público de encontros entre autoridades e lobistas, acessível em tempo real.

A repercussão internacional também pesa. Parceiros europeus e os EUA acompanham de perto as apurações, em parte por temer que novos documentos revelem conversas sensíveis de negociações passadas. Qualquer indicação de que decisões sobre o resgate do euro ou medidas pós-crise de 2008 foram discutidas em canais privados com Epstein tende a reabrir feridas entre governos e instituições multilaterais.

A confiança da população britânica nas instituições entra novamente em teste, menos de uma década após o referendo do Brexit e os escândalos de festas em Downing Street durante a pandemia de Covid-19. Pesquisas iniciais já indicam aumento na percepção de que a elite política opera por regras próprias, distante do escrutínio aplicado ao cidadão comum.

As próximas semanas vão mostrar se o escândalo fica restrito à biografia de um ex-embaixador ou se se transforma em gatilho para reformas estruturais. A resposta da polícia, dos tribunais e do governo Starmer dirá se o Reino Unido está disposto a enfrentar de forma transparente o legado tóxico deixado por Jeffrey Epstein na política global.

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