Argentina relembra 1976: o golpe que transformou o país em um campo de sombras
Cinco décadas após o golpe militar de 24 de março de 1976, sobreviventes e familiares de vítimas voltam a expor, com detalhes, o mecanismo de terror que redesenha a memória argentina. Os relatos de sequestros, torturas e desaparecimentos mostram como aquele dia ainda divide vidas entre um antes e um depois.
O dia em que a rotina virou silêncio
Aurora Álvarez acorda naquela manhã em Buenos Aires com o toque do telefone fixo. Do outro lado da linha, uma colega do curso diz apenas quatro palavras: “Enfim estamos no governo”. A jovem trabalha no Ministério da Defesa e tem informação privilegiada. Aurora responde um seco “Ah, bom” e desliga. Não ouviu rádio durante a madrugada, não leu os jornais que ainda circulam sem notícia do levante. “O golpe aconteceu por volta das 3h20. Assim é que funcionavam as comunicações”, lembra hoje.
Ela é freira, orientadora em uma escola secundária, e sente algo fora do lugar, mas nada que indique o abismo que se abre. “Naquele 24 de março, a naturalidade com que nos relacionávamos se torna um pouco estranha, mas o primeiro momento não parece muito diferente da vida cotidiana”, conta. A inquietação cresce em casa quando a irmã mais nova, Teresa, militante peronista, insiste que precisa sair por segurança. Pouco depois, uma jovem do bairro desaparece, uma catequista aparece morta com o marido, uma vizinha some sem explicação. O medo entra pela porta da frente.
Em 17 de novembro de 1976, meses depois do golpe, Teresa volta para dormir uma noite no apartamento da família, na província de Buenos Aires. Uma força-tarefa irrompe no imóvel. Leva a jovem de 21 anos. A casa se parte em dois tempos. “Ali começou a divisão das nossas vidas: antes e depois do sequestro da minha irmã”, diz Aurora. O contraste não se limita à família Álvarez. O país inteiro entra em um regime de sombras que se propaga em silêncio, com vizinhos que fecham janelas e evitam perguntas, como se o medo fosse contagioso.
Plano de extermínio no coração da sociedade
A Junta Militar que derruba Isabel Perón em 1976 governa até 1983 com o que a Justiça argentina define, anos depois, como “plano sistemático de desaparecimento, tortura e extermínio”, no contexto de um genocídio. Organizações de direitos humanos estimam cerca de 30 mil desaparecidos em sete anos de regime. A Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas registra, em 1984, o perfil de quem some: 30,2% são operários, 21% estudantes, 17,9% trabalhadores de serviços, 10,7% profissionais liberais, 5,7% professores e 1,3% artistas.
Norma Morandini, jornalista de Córdoba, acredita no início que se trata de mais um golpe em uma longa série. “Ingenuamente, pensei que viria para pôr fim à violência e depois abrir caminho para eleições. Como estávamos enganados!”, afirma. A violência que ela vê crescer vem dos confrontos entre grupos armados peronistas, como os Montoneros, e milícias de extrema direita, como a Triple A, além de guerrilhas como o Exército Revolucionário do Povo. Mas o que se instala após 24 de março é diferente. Em setembro de 1977, um ano e meio depois do golpe, os dois irmãos mais novos de Norma são sequestrados em casa e desaparecem. “Ali começa nosso calvário”, resume.
A palavra “subversão”, usada pelo governo Isabel Perón em 1975 para justificar a entrada formal dos militares na repressão, rapidamente perde qualquer contorno jurídico. “Subversivos são sindicalistas, estudantes universitários, jovens, intelectuais, artistas”, explica a historiadora Gabriela Águila, autora de um estudo sobre a última ditadura. A repressão atinge grevistas em uma economia em crise, com inflação em níveis “astronômicos” e paralisações contra planos de ajuste salarial. Em 24 de março de 1976, centrais sindicais tentam convocar uma greve geral que nunca acontece. Na mesma data, o novo regime proíbe o direito de greve.
Iris Pereyra de Avellaneda sente o peso dessa engrenagem repressiva com brutal clareza. O marido, Floreal, é dirigente sindical e militante comunista, mas não integra a luta armada. Em abril de 1976, menos de um mês após o golpe, uma força-tarefa invade o terreno onde a família vive, em Munro. Floreal consegue fugir pelos telhados. Os militares levam Iris e o filho, também Floreal, o “Negrito”, de 15 anos. “Dos 27 companheiros que integravam a comissão interna da fábrica TENSA, 24 estão desaparecidos”, lembra hoje a sobrevivente, que preside entidades de direitos humanos. Mãe e filho são levados para a Delegacia e depois para o quartel de Campo de Mayo, onde funciona o centro clandestino conhecido como El Campito. Iris é torturada, sofre sessões de choques e espancamentos, ouve disparos de simulação de fuzilamento. Vê o filho pela última vez em uma cela.
Libertada apenas em junho de 1978, ela descobre que o corpo do menino aparece na costa uruguaia em 14 de maio, exatamente no dia em que ele completaria 16 anos. É uma das primeiras vítimas conhecidas dos “voos da morte”, em que presos são lançados ao mar, sedados ou já mortos, a partir de aviões ou helicópteros. Iris tenta repatriar o corpo. O cadáver desaparece de novo. “Meu filho desaparece duas vezes”, afirma.
Cárceres visíveis, centros clandestinos e juventude sob mira
A engrenagem da ditadura combina prisões legais, usadas como vitrine, e centros clandestinos, onde a lei não existe. Adriana Chein, militante do PRT/ERP, é presa em outubro de 1975. Fica desaparecida por 20 dias, sob tortura, até ter a situação “regularizada” e ser transferida para o presídio de Villa Devoto, em Buenos Aires. Em 24 de março de 1976, ela percebe o golpe quando vê, pelas grades, metralhadoras apontadas para o pavilhão. Nos anos seguintes, todas as presas políticas do país são concentradas ali. “Chamávamos Devoto de prisão vitrine. Quando vinham organismos internacionais, os militares mostravam que na Argentina não havia campos de concentração”, conta.
As grades não significam proteção. Guardas prometem que as detentas sairão “loucas ou mortas”. Há interrogatórios, regimes de conduta arbitrários, transferência de mulheres para pavilhões de “irrecuperáveis”. A mesma lógica, levada ao extremo, organiza o terror na Escola de Mecânica da Marinha, a Esma, um dos principais centros clandestinos do regime, controlado pelo almirante Emilio Massera. Ali, militantes como Cristina Aldini são submetidas a um perverso processo de “recuperação”. De tempos em tempos, os militares a levam para passar algumas horas na casa dos pais e depois a retiram de novo. “Era como caminhar na beira do precipício”, descreve. A família vira refém permanente.
Em 1979, ela consegue autorização para estudar no interior, mas segue vigiada. Já em democracia, em 1985, no momento em que o país julga as Juntas Militares, continua recebendo ameaças contra toda a família. A barbárie também atravessa a vida civil em detalhes inesperados. A irmã de Cristina, que vive com o parceiro, é obrigada pelos militares a se casar no cartório. “Genocidas que atropelaram todas as regras consideram errado que ela viva sem casar. Eles vão ao casamento. É enlouquecedor”, diz.
A juventude é alvo central. Dados do Registro Único de Vítimas do Terrorismo de Estado, de 2015, mostram que o grupo entre 20 e 24 anos concentra pelo menos 2.749 mortes e desaparecimentos. Outras 617 vítimas têm entre 13 e 19 anos. A estudante secundarista Emilce Moler tem 17 anos quando homens encapuzados invadem sua casa em La Plata na madrugada de 17 de setembro de 1976. Buscam “uma estudante de Belas Artes” e levam a adolescente de pijama. É o desfecho de um processo que começa ainda em democracia, quando colegas da União dos Estudantes do Ensino Médio já são encontrados mortos. O sequestro de Emilce e de outros nove estudantes naquele setembro entra na história como La Noche de los Lápices. Seis continuam desaparecidos.
Memória aberta e feridas que não se fecham
A redemocratização em 1983 abre espaço para um esforço sem precedentes de reconstrução da verdade. Em 1984, a Conadep recolhe cerca de 7 mil depoimentos e sistematiza a arquitetura do terror. No ano seguinte, o julgamento das Juntas condena os principais responsáveis, entre eles o general Jorge Rafael Videla. Novos processos, a partir dos anos 2000, ampliam o cerco judicial a ex-agentes da repressão. Ainda assim, milhares de famílias não sabem onde estão os corpos dos parentes ou em que condições eles morreram.
Aurora Álvarez passa duas décadas sem qualquer pista de Teresa. Em 1996, já na vida religiosa, encontra por acaso a amiga com quem a irmã havia se escondido após sair de casa. É Cristina Aldini. Pelo relato da ex-companheira de militância, descobre um pouco da trajetória política de Teresa, mas não o lugar de sua prisão ou a forma como foi morta. Adriana Chein segue procurando vestígios do companheiro desaparecido cinco dias depois do golpe. “Sabemos que os mataram, que os torturaram, que os fuzilaram. Queremos saber quando, como, onde”, afirma. Ela descreve a busca como um fio que nunca se rompe.
Norma Morandini leva anos para saber que Néstor e Cristina, os irmãos sequestrados, passaram pela Esma. “Se meus irmãos cometeram um delito, deveriam ter sido julgados. Eu estaria visitando-os na prisão, não falando numa tribuna”, diz. Para ela, a figura do desaparecido é o núcleo da crueldade do regime. “Alguém cuja morte não foi testemunhada, que não tem túmulo, não tem oração.” Ao completar 50 anos, o golpe de 1976 permanece menos como capítulo encerrado e mais como advertência viva. Marchas, atos públicos, audiências judiciais e projetos pedagógicos disputam a memória com discursos que tentam relativizar a ditadura.
Sobreviventes como Aurora, Norma, Cristina, Iris, Adriana e Emilce insistem em repetir datas, nomes e lugares, mesmo diante do cansaço. Acreditam que a única barreira concreta contra novos ciclos de violência é a construção de uma memória coletiva que não permita zonas de esquecimento. A cada 24 de março, a Argentina se pergunta até quando será preciso contar a mesma história para que o país, enfim, decida não repeti-la.
