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Argentina lembra golpe de 1976 e transforma estádios em tribunas da memória

A Argentina para neste 24 de março de 2026 para lembrar os 50 anos do golpe militar de 1976. Ruas, escolas e, sobretudo, estádios se convertem em espaços de memória pelas cerca de 30 mil vítimas da última ditadura. Clubes como Boca Juniors, River Plate e Racing usam sua força popular para reafirmar, diante de milhões de torcedores, o compromisso com democracia, direitos humanos e o lema que atravessa gerações: “Nunca Mais”.

Memória ocupa as ruas e as arquibancadas

A Plaza de Mayo, no centro de Buenos Aires, volta a ser o coração do Dia Nacional da Memória pela Verdade e pela Justiça, feriado criado por lei em 2002. Mães e Avós da Praça de Maio caminham lado a lado com jovens que nasceram décadas depois do fim da ditadura, em 1983, mas carregam cartazes com fotos de desaparecidos e a contagem que se repete como mantra: 30 mil ausentes. As mesmas imagens, hoje, aparecem em bandeirões, faixas de torcidas e telões de estádios.

O Boca Juniors abre a sequência de manifestações ao publicar, nas primeiras horas do dia, uma mensagem direta em suas redes: “ratifica seu compromisso por manter viva a memória dos 30.000 desaparecidos”. O clube fala em golpe “cívico-militar” e encerra com a hashtag #NuncaMás, acompanhada de um vídeo que intercala lances de ídolos com fotos em preto e branco de torcedores mortos ou desaparecidos. O alcance passa rapidamente de centenas de milhares de visualizações.

O River Plate responde no mesmo tom, também em espanhol simples, para não deixar dúvidas sobre o recado político: “A 50 anos do início da última ditadura militar, River não esquece e reafirma seu compromisso histórico por Memória, Verdade e Justiça”. A postagem termina com a frase que costura toda a jornada: “Em homenagem aos 30 mil desaparecidos. Nunca Mais”. Racing prefere mostrar o vazio. Em um vídeo curto, o clube exibe buracos nas arquibancadas e enumera sócios e torcedores que não voltam mais ao estádio. “As feridas que nenhum meio século cura”, resume o texto.

As mensagens ecoam em um país que ainda julga crimes da ditadura ocorrida entre 1976 e 1983, comandada no início pelo general Jorge Rafael Videla. Condenado a prisão perpétua por crimes contra a humanidade, Videla se torna símbolo do chamado terrorismo de Estado que praticou detenções ilegais, torturas, sequestros de bebês e fez desaparecer cerca de 30 mil pessoas, segundo entidades de direitos humanos. As imagens dele, sorridente ao lado de João Havelange na Copa de 1978, reaparecem nesta data em documentários e reportagens que circulam nas redes.

Futebol assume papel político explícito

O 24 de março deixa de ser apenas uma data de protestos na praça central para se espalhar por um território que atravessa classes sociais: o futebol. Clubes que, durante a ditadura, em muitos casos se calaram ou até serviram de cenário para propaganda oficial, hoje se colocam ao lado dos movimentos de direitos humanos. A frase “Memória, Verdade e Justiça” aparece em escudos estilizados, camisas comemorativas e faixas nas arquibancadas.

Torcedores que chegam aos estádios encontram intervenções visuais e ações educativas. Em algumas canchas, alto-falantes narram, antes do apito inicial, episódios de perseguição a atletas, dirigentes e sócios. Em outros pontos do país, dirigentes recebem familiares de desaparecidos em camarotes e transformam espaços de museu em exposições temporárias. O recado é esculpido em linguagem de arquibancada: política e futebol se misturam, e isso não é acidente, é decisão.

Nas escolas públicas e particulares, professores dedicam o dia a atividades sobre a ditadura, com depoimentos de sobreviventes, análise de documentos e trechos de filmes. O documentário “Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor”, do jornalista brasileiro Lucio de Castro, volta a circular em salas de aula e em redes sociais. O episódio sobre a Argentina revisita o Mundial de 1978 e mostra como o regime usou o título em casa para construir uma imagem de normalidade, enquanto centros clandestinos de detenção funcionavam a poucos quilômetros dos estádios.

A lembrança desse contraste alimenta o sentido do presente. Se, em 1978, a seleção em campo oferecia à ditadura a chance de projetar força e orgulho nacional, em 2026 os clubes tentam fazer o movimento inverso: usar o futebol para denunciar o passado e proteger a democracia. O slogan “Nunca Mais” deixa de ser apenas uma frase de relatórios oficiais e ganha o corpo de cantos de torcidas, camisetas de organizadas e campanhas de marketing.

Memória como disputa de futuro

O cinquentenário do golpe não se limita a homenagens. As marchas na Plaza de Mayo e em diversas cidades argentinas expõem também disputas de memória. Setores minoritários relativizam o número de desaparecidos ou defendem a tese de uma “guerra suja” com dois lados equivalentes. Movimentos de direitos humanos reagem e insistem em uma linha clara: houve terrorismo de Estado e responsabilidade institucional, não um conflito entre iguais.

Nesse cenário, o posicionamento público de clubes como Boca, River e Racing pesa mais do que um simples gesto simbólico. Essas instituições somam milhões de torcedores, ocupam horários nobres de TV e mobilizam patrocínios milionários. Quando adotam a linguagem dos direitos humanos, ajudam a levar o debate para além dos círculos militantes. Crianças que vestem a camisa do clube passam a perguntar quem são os rostos nas bandeiras, por que um buraco na arquibancada pode representar a ausência definitiva de um torcedor.

O efeito se estende para fora da Argentina. As imagens de marchas, faixas e campanhas chegam a outros países do Cone Sul que viveram ditaduras militares, como Brasil, Chile e Uruguai. A série de episódios de “Memórias do Chumbo” sobre essas nações volta a ganhar cliques e citações em reportagens. Pesquisadores falam em fortalecimento do chamado “turismo de memória”, que leva visitantes a antigos centros de detenção, museus e espaços dedicados a contar a história da repressão.

Os próximos anos devem manter a agenda cheia. Processos judiciais por crimes cometidos entre 1976 e 1983 seguem em andamento. Organizações de direitos humanos cobram do Estado políticas estáveis para educação em memória, enquanto clubes discutem transformar iniciativas pontuais em programas permanentes, com centros de documentação e projetos com categorias de base. A pergunta que atravessa esta terça-feira de homenagens e hashtags permanece sem resposta definitiva: quanto de memória é suficiente para impedir que um novo golpe encontre, outra vez, estádios cheios e silêncio nas arquibancadas?

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