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Argentina fecha ciclo pré-Copa sem enfrentar europeus desde 2022

A seleção argentina encerra em março de 2026 o ciclo de preparação para a Copa do Mundo sem ter enfrentado nenhuma seleção europeia desde a final de 2022, no Qatar. A atual campeã mundial acumula 37 partidas em quase três anos e três meses, com foco em rivais das Américas, da Ásia e da África.

Planejamento raro em meio à corrida para 2026

O time de Lionel Scaloni chega à reta final antes do Mundial da Fifa de 2026 mantendo uma escolha incomum no cenário sul-americano. Enquanto Brasil, Uruguai, Colômbia e outros vizinhos buscam amistosos contra potências europeias, a Argentina evita esse tipo de confronto desde a decisão contra a França, vencida nos pênaltis, em dezembro de 2022.

O plano se sustenta em números robustos. Desde o início de 2023, a equipe de Messi soma 35 partidas, com 27 vitórias, quatro empates e apenas quatro derrotas. O recorte inclui Eliminatórias, amistosos e a campanha invicta que termina com o título da Copa América de 2024. Uruguai, Paraguai, Colômbia e Equador são os únicos a derrotar os atuais campeões mundiais nesse período.

O ciclo completo contabiliza 37 jogos: 18 pelas Eliminatórias sul-americanas, seis na Copa América e 11 amistosos, além dos dois marcados para esta Data Fifa, contra Mauritânia, hoje, e Zâmbia, em 31 de março. O Equador aparece como adversário mais frequente, com quatro encontros. Chile, Peru, Colômbia e Venezuela cruzam o caminho em três oportunidades cada. Há ainda duelos contra Brasil, Uruguai, Bolívia, Canadá, seleções da América Central e equipes de Ásia e África.

A ausência de europeus não decorre de falta de convite. A única partida prevista nesse ciclo, a Finalíssima entre campeões da Copa América e da Eurocopa, contra a Espanha, é cancelada. O jogo seria disputado no Qatar na Data Fifa de março, mas os ataques iranianos no país árabe levam ao adiamento. A Federação Argentina recusa a alternativa de jogar em território espanhol, e o encontro nunca é remarcado.

O desenho desta preparação ecoa o ciclo anterior. Entre a Copa de 2018, na Rússia, e o Mundial do Qatar, a Argentina enfrenta apenas dois europeus: a Itália, justamente na Finalíssima, e a Estônia, em amistoso. O contraste com a agenda dos rivais sul-americanos salta aos olhos e reforça a ideia de um planejamento de longo prazo, construído em torno de um grupo estável e da liderança técnica de Messi.

Vantagem em confiança, dúvida na medição de força

A sequência de resultados positivos alimenta a convicção interna de que o caminho escolhido funciona. Scaloni preserva a base campeã de 2022, promove renovação gradual e encontra adversários que permitem testar variações táticas sem a pressão de clássicos constantes contra potências europeias. O título da Copa América de 2024, conquistado de forma invicta após superar Canadá, Chile, Peru, Equador e Colômbia, atua como selo desse processo.

O risco aparece na dificuldade de medir, com precisão, o nível atual da equipe diante dos rivais que costumam dominar as fases decisivas de Copas do Mundo. Sem jogos contra França, Alemanha, Inglaterra, Espanha ou Itália, a seleção chega ao Mundial com uma espécie de zona cega competitiva. O debate se espalha entre analistas e torcedores, divididos entre a confiança na consistência recente e a cautela diante da falta de teste contra o estilo europeu.

A comparação com outros sul-americanos ajuda a dimensionar o cenário. O Brasil encara Inglaterra, Espanha, Croácia e França. O Uruguai mede forças com a Inglaterra. A Colômbia enfrenta Espanha, Alemanha, Croácia, França e Romênia. Equador joga contra Itália e Holanda. Até seleções de menor peso, como Bolívia, Peru, Chile e Venezuela, cruzam com europeus em amistosos. A Argentina se torna a única exceção no continente ao fechar o ciclo inteiro sem esse tipo de confronto.

A opção, vista de fora, parece ousada. Para a comissão técnica, é parte de um desenho pensado. Enfrentar rivais sul-americanos em sequência mantém o elenco dentro de jogos historicamente duros, com estádios hostis e viagens longas. Adversários da Concacaf, da África e da Ásia apresentam características físicas e táticas diversas, úteis para simular cenários de Copa em grupos mistos. A ausência de europeus vira uma aposta de que a identidade consolidada da equipe pesa mais do que a necessidade de um teste específico.

Messi, aos 38 anos, segue no centro desse projeto. A imagem do camisa 10 comemorando o título da Copa América de 2024, com a faixa de capitão erguida, simboliza a extensão de um ciclo histórico. A seleção mantém o embalo da conquista no Qatar e transforma vitórias sucessivas em escudo contra críticas ao calendário escolhido. O elenco, acostumado a decisões nos últimos anos, ganha confiança, enquanto rivais tentam se reconstruir.

Mundial testa estratégia e pode forçar mudança de rota

A Copa do Mundo de 2026 será o primeiro exame real dessa preparação sem cruzar com europeus. A Argentina entra na fase de grupos sabendo que terá um rival do Velho Continente logo na segunda rodada: a Áustria. Jordânia, representante asiática, e Argélia, força africana, completam a chave. O sorteio cria um microcosmo da rota escolhida por Scaloni, com adversários de três continentes diferentes em sequência curta.

O desempenho nessas partidas tende a influenciar diretamente a leitura do ciclo. Uma campanha sólida reforça a ideia de que a seleção não precisa de amistosos de prestígio para se manter competitiva. Eventuais tropeços contra a Áustria ou dificuldades diante de Jordânia e Argélia alimentam o discurso de que faltou calibrar o nível contra europeus de maior peso técnico.

Ainda há margem para ajustes. A Associação do Futebol Argentino planeja amistosos finais já com a lista oficial de convocados, às vésperas do Mundial. Dirigentes não descartam a possibilidade de, enfim, marcar um jogo contra seleções da Europa nesse curto intervalo. Uma partida desse tipo serviria tanto para teste esportivo quanto para resposta simbólica ao incômodo de parte da torcida, que cobra um parâmetro mais claro.

Scaloni chega a essa fase como um dos técnicos mais estáveis do futebol de seleções. Conduz a Argentina ao título da Copa América de 2021, à Finalíssima contra a Itália e ao troféu mundial no Qatar, sempre com Messi como epicentro. O ciclo até 2026 acrescenta a capacidade de gerir transições de elenco mantendo resultados. O estilo discreto, sem grandes declarações públicas, contrasta com o peso das decisões tomadas nos bastidores sobre o tipo de adversário enfrentado.

A preparação diferente, que isola a Argentina de rivais europeus por mais de três anos, coloca a atual campeã mundial sob observação especial no torneio da Fifa. O Mundial dirá se a aposta em continuidade, confiança interna e rotas alternativas de teste sustenta outro ciclo vitorioso ou se o país que volta a mirar o topo precisará rever sua forma de medir forças com o futebol do Velho Continente.

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