Aquecimento global já altera a rotação da Terra e alonga o dia
A mudança climática já mexe com o relógio do planeta. Um estudo publicado nesta sexta-feira (13) mostra que o aquecimento global está deixando os dias ligeiramente mais longos, ao desacelerar a rotação da Terra.
Derretimento do gelo freia a Terra
A pesquisa, assinada por cientistas da Universidade de Viena e da ETH Zurich e divulgada no Journal of Geophysical Research: Solid Earth, aponta um efeito inédito em escala geológica recente. O derretimento acelerado de gelo na Groenlândia, na Antártida e em outras grandes massas congeladas redistribui a água pelos oceanos, desloca o peso do planeta e muda, ainda que de forma sutil, a forma como a Terra gira.
Os autores calculam que a duração do dia aumenta, hoje, a uma taxa de cerca de 1,33 milissegundo por século por causa do aquecimento global. A variação parece irrisória para a rotina humana, mas destoa do comportamento registrado nos últimos 3,6 milhões de anos, período que inclui ciclos naturais de eras glaciais e fases mais quentes. Segundo os pesquisadores, a influência atual do clima na rotação não encontra paralelo nesse intervalo.
O caminho até essa conclusão passa por uma combinação de geologia, química e física de alta precisão. A equipe analisou fósseis de foraminíferos bentônicos, organismos marinhos microscópicos que vivem no fundo do mar e registram, em sua carapaça calcária, a assinatura química da água em que se formam. Essa assinatura varia conforme a quantidade de gelo existente no planeta em cada época, o que permite reconstituir, indiretamente, o volume de água preso nas calotas polares.
“A partir da composição química dos fósseis de foraminíferos, podemos inferir flutuações do nível do mar e, em seguida, derivar matematicamente as mudanças correspondentes na duração do dia”, explica Kiani Shahvandi, pesquisadora da Universidade de Viena. Os registros fósseis ajudam a reconstruir como o nível do mar oscilou ao longo de milhões de anos, sob a influência de ciclos naturais, e fornecem um pano de fundo para comparar o ritmo atual.
Impacto chega à navegação, satélites e relógios
Depois de estimar quanto gelo derrete em diferentes cenários, os cientistas simulam como essa água se espalha pelos oceanos e altera a distribuição de massa da Terra. Com esses dados, aplicam modelos físicos da rotação do planeta e confrontam os resultados com medições modernas de alta precisão da duração do dia, feitas por redes internacionais de observatórios e por satélites.
Os cálculos indicam que o derretimento de gelo das últimas décadas responde por um aumento de cerca de 1,3 milissegundo por século na duração do dia. A diferença em relação ao valor de 1,33 milissegundo está dentro da margem esperada para esse tipo de estimativa. O ponto central, afirmam, é a tendência: o clima, impulsionado por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, passa a ser um dos principais motores das mudanças recentes na rotação terrestre.
“Este aumento na duração do dia implica que a taxa de mudança climática moderna não tem precedentes. Isso pode, portanto, ser atribuído principalmente à influência humana”, afirma Benedikt Soja, professor de geodésia espacial da ETH Zurich. Para ele, o impacto do aquecimento global na rotação da Terra já deixa o campo da curiosidade científica e entra na zona de risco tecnológico.
Embora milissegundos pareçam irrelevantes para o cotidiano, esse ajuste mínimo pesa para sistemas que dependem de sincronização extrema. Satélites de navegação, como os que alimentam o GPS em smartphones, aplicativos de transporte e rotas aéreas e marítimas, trabalham com relógios atômicos que precisam saber, com exatidão, em que posição a Terra está a cada fração de segundo. Pequenos desvios se acumulam e podem comprometer a precisão, exigindo correções frequentes e mais complexas.
A desaceleração da rotação também entra na conta de quem administra o tempo oficial do planeta. Desde a década de 1970, organismos internacionais ajustam os relógios globais por meio dos chamados segundos intercalares, inseridos quando a diferença entre o tempo medido pelos relógios atômicos e a rotação da Terra passa de 0,9 segundo. Se o aquecimento global continuar a frear o giro terrestre, esses ajustes tendem a ficar mais frequentes ou a exigir novos parâmetros.
Lua pode perder o protagonismo até o fim do século
Historicamente, a principal responsável por alongar os dias é a Lua. Sua gravidade gera marés que, ao interagir com os oceanos e continentes, dissipam energia e reduzem, pouco a pouco, a velocidade da rotação da Terra. O novo estudo mostra que, no século XXI, o impacto climático começa a rivalizar com esse efeito milenar.
“Até o final do século XXI, espera-se que as mudanças climáticas afetem a duração do dia ainda mais do que a Lua. Mesmo que as mudanças sejam de apenas milissegundos, elas podem causar problemas em muitas áreas, por exemplo, na navegação espacial de precisão, que requer informações exatas sobre a rotação da Terra”, diz Soja. A avaliação reforça a ideia de que o aquecimento global deixa de ser apenas um problema de temperatura, chuva extrema e elevação do mar, para se tornar uma força capaz de alterar o próprio movimento do planeta.
As conclusões abrem um novo campo de pesquisa, na fronteira entre clima e geofísica. Modelos de previsão de rotas de satélites, de lançamentos de foguetes e de observações astronômicas terão de incorporar com mais detalhe o papel da redistribuição de massas na superfície terrestre. Governos e agências espaciais podem ser obrigados a rever protocolos de calibração de equipamentos e cronogramas de correção de tempo oficial.
O estudo também reforça a urgência de políticas de mitigação do aquecimento global. Sem cortes mais rápidos nas emissões de gases de efeito estufa e sem frear o derretimento das calotas, o planeta entra em uma trajetória na qual até o compasso do dia sofre influência direta das escolhas humanas. A pergunta que fica, para cientistas e autoridades, é até que ponto a sociedade está disposta a aceitar um mundo em que nem a duração de um dia permanece intocada.
