Aprovação de Lula cai após Carnaval, aponta pesquisa AtlasIntel
A aprovação nacional do governo Lula recua para 46,6% após o Carnaval de 2026, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quarta-feira 25. O levantamento mostra queda acima da margem de erro e expõe o impacto político da polêmica homenagem ao presidente no desfile da Acadêmicos de Niterói.
Desfile na Sapucaí entra na conta da política
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o primeiro solavanco relevante na popularidade em 2026. Entre 19 e 24 de fevereiro, a AtlasIntel ouve 4.986 eleitores por meio de entrevistas digitais e registra recuo de 48,7% para 46,6% na aprovação, uma queda de 2,1 pontos percentuais, acima da margem de erro de um ponto. A divulgação nesta quarta-feira ocorre ainda sob o eco das arquibancadas da Sapucaí.
A escola de samba Acadêmicos de Niterói leva para a avenida um enredo em homenagem a Lula e acende um rastilho político em plena festa. Fantasias que retratam conservadores em “lata”, com referências a evangélicos, alimentam queixas de partidos e lideranças de direita, que correm aos tribunais e inflam as redes sociais. O debate deixa o sambódromo, cruza templos e programas policiais e aterrissa diretamente na avaliação do governo.
Os números da AtlasIntel mostram que a desaprovação ao governo oscila dentro da margem de erro, de 50,7% em janeiro para 51,5% em fevereiro. A curva, porém, reforça a leitura de desgaste num momento em que o Planalto tenta manter o foco em pautas econômicas e em promessas de campanha. O dado mais sensível aparece na avaliação do desempenho da gestão petista.
De acordo com o levantamento, 48,4% dos entrevistados classificam o trabalho do governo como “ruim ou péssimo”. Outros 42,7% consideram a atuação “boa ou ótima”, enquanto 8,9% enxergam a gestão como “regular”. Em relação a janeiro, a avaliação positiva recua, e a negativa se mantém estável, sinal de que o governo perde apoio ativo sem conseguir reverter a rejeição consolidada.
Pesquisa quantifica efeito da polêmica do Carnaval
Os dados da AtlasIntel são os primeiros a medir nacionalmente o humor do eleitorado depois do Carnaval. O período da coleta, exatamente nos dias em que o desfile da Acadêmicos de Niterói domina o noticiário e as redes, ajuda a explicar a rapidez com que o episódio se converte em custo político. Aliados de Lula admitem, reservadamente, que o resultado espelha “um momento ruim de comunicação”.
O enredo em homenagem ao presidente, pensado para exaltar a trajetória do petista, se torna munição para adversários. Dirigentes de direita emolduram o desfile como uso político da escola de samba e reforçam a narrativa de desrespeito a setores religiosos. A leitura é de que a reação negativa atinge, sobretudo, um segmento evangélico já refratário ao governo, ampliando a distância entre o Planalto e uma base social estratégica.
A presença de Lula em Salvador, na Bahia, durante o Carnaval, com entrevistas, fotos oficiais e agenda festiva, passa a ser explorada em paralelo à crise na Sapucaí. A conjugação de imagens festivas com a polêmica religiosa é explorada em vídeos e postagens, que circulam com força em grupos de mensageria. A pesquisa publicada nesta quarta-feira captura esse clima ainda quente.
A AtlasIntel utiliza o método de Recrutamento Digital Aleatório, conhecido como Atlas RDR, para selecionar entrevistados em diferentes regiões do país. O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07600/2026, reforça a tendência de polarização estável: um bloco majoritário de desaprovação, um núcleo expressivo de apoio e pouco espaço para áreas cinzentas. O grupo que declara avaliação “regular” permanece abaixo de 10%.
Popularidade em teste e disputa por narrativas
Os aliados de Lula tratam a queda na aprovação como efeito direto de um choque cultural, e não de um julgamento amplo sobre a economia ou políticas sociais. A expectativa interna é de que o tema Carnaval perca força à medida que o governo empurra para o centro do debate propostas de apelo popular. Entre as apostas, aparecem o fim da escala 6×1 para trabalhadores e a discussão sobre tarifa zero no transporte público urbano.
Essas agendas tentam reconectar o Planalto à rotina de quem depende de ônibus lotado e folga semanal incerta, longe das alegorias da Sapucaí. A leitura política é simples: se o noticiário migra dos carros alegóricos para o preço da passagem e as condições de trabalho, a lembrança do desfile tende a se diluir. A pesquisa de fevereiro funciona, assim, como fotografia de um atrito específico entre governo e parte do campo conservador.
A oposição, por sua vez, enxerga oportunidade para prolongar o desgaste. Parlamentares de direita seguem com ações judiciais contra a homenagem a Lula e usam o episódio para reforçar a narrativa de desrespeito à fé evangélica. A estratégia busca cristalizar a associação entre o governo e o que chamam de “ataques” a valores religiosos, mesmo que o Planalto não tenha tido ingerência direta sobre o enredo.
O impacto real dessa disputa aparece na margem estreita entre aprovação e desaprovação. Em janeiro, a diferença era de dois pontos para o lado negativo, com 48,7% de aprovação e 50,7% de desaprovação. Em fevereiro, o fosso se aprofunda: 46,6% aprovam, 51,5% reprovam. O governo entra em março sob vigilância redobrada de aliados e adversários, atentos a qualquer sinal de consolidação dessa tendência.
Próximos levantamentos vão medir força do desgaste
As próximas pesquisas nacionais devem indicar se o abalo na aprovação de Lula se limita ao calor do Carnaval ou se inaugura um novo patamar de impopularidade. No Planalto, a ordem é insistir em mensagens sobre emprego, renda e políticas de transporte, numa tentativa de deslocar o eixo da discussão das disputas identitárias para o cotidiano econômico.
A curva de opinião também interessa a partidos que já calculam o tabuleiro municipal de 2026. Prefeitos e pré-candidatos do PT e de legendas aliadas observam de perto o humor do eleitorado, sobretudo em capitais onde o voto evangélico pesa. A forma como o governo administra a ressaca do Carnaval e recompõe pontes com segmentos conservadores pode definir não apenas o saldo de 2026, mas o ambiente em que Lula atravessa a metade do mandato. A pergunta em aberto é se um desfile de poucas horas terá efeitos duradouros sobre um governo que ainda tenta firmar sua narrativa de reconstrução.
