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Após quatro anos de guerra, Putin enfrenta maior isolamento e pressão econômica

Vladimir Putin completa neste 23 de fevereiro de 2026 quatro anos de guerra na Ucrânia sob isolamento crescente e pressão econômica intensa. As sanções internacionais asfixiam a economia russa, reduzem sua margem de manobra política e colocam em xeque o projeto de reposicionar o país como potência global.

Quatro anos de guerra e o custo político para o Kremlin

A ofensiva russa, iniciada em fevereiro de 2022, muda a paisagem geopolítica do continente europeu e empurra Moscou para a periferia do sistema internacional. O conflito, que o Kremlin prometia ser rápido, entra no quinto ano sem perspectiva clara de solução negociada, enquanto o desgaste econômico e diplomático se torna mais visível a cada trimestre.

Em Moscou, a narrativa oficial insiste em apresentar a guerra como “operação militar especial” e defesa da segurança russa. Nos bastidores, porém, conselheiros ouvidos por veículos ocidentais descrevem um ambiente de tensão permanente no círculo interno de Putin, pressionado por generais por vitórias no campo de batalha e por tecnocratas preocupados com a sobrevivência fiscal do Estado. A diplomacia russa, antes ativa em fóruns multilaterais, perde espaço em organismos como ONU, G20 e Conselho da Europa, do qual o país é suspenso ainda em 2022.

A cada pacote de sanções aprovado, o custo político interno cresce. A inflação oficial oscila na casa dos dois dígitos em vários momentos desde 2022, e o FMI estima retração acumulada da economia russa em torno de 5% a 7% nos primeiros anos do conflito, mesmo com ajustes metodológicos de Moscou. O rublo sofre desvalorizações sucessivas, e o governo restringe saques e transferências internacionais para conter a fuga de capitais.

Sanções, energia e o esvaziamento da ambição de potência

O setor de energia, principal fonte de divisas do país, está no centro do cerco econômico. Embargos parciais ao petróleo russo na Europa, tetos de preço coordenados pelo G7 e restrições a seguros marítimos reduzem a receita de exportações. Em 2025, estimativas de consultorias independentes apontam queda de até 40% na arrecadação com óleo e gás em relação ao período pré-guerra. O gás natural, que respondia por cerca de 35% do abastecimento europeu antes de 2022, perde espaço acelerado para fornecedores como Estados Unidos, Noruega e Catar.

O isolamento não se limita à energia. Bancos russos perdem acesso a sistemas de pagamento internacionais, empresas enfrentam bloqueios a componentes eletrônicos e tecnologias avançadas, e centenas de multinacionais encerram ou congelam operações no país desde o primeiro ano de guerra. A tentativa de redirecionar o comércio para a Ásia mitiga parte das perdas, mas não compensa o fechamento de mercados ocidentais, que concentravam mais de 40% das exportações russas em 2021.

Especialistas em Moscou descrevem um reposicionamento forçado da economia. “A Rússia troca interdependência por dependência concentrada”, avalia um analista ouvido por veículos europeus. A venda com desconto de petróleo e gás para poucos parceiros aumenta a vulnerabilidade de Moscou a decisões unilaterais de compradores como China e Índia. A ambição de Putin de negociar como igual com Estados Unidos e União Europeia cede espaço a uma relação assimétrica, em que o Kremlin precisa aceitar preços menores e prazos mais longos para manter fluxo de caixa.

No campo diplomático, o quadro é similar. A Rússia mantém assentos e direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, mas vê sua capacidade de articulação reduzir. Em votações sobre a guerra, mais de 140 países condenam repetidamente a invasão. O país se aproxima de regimes sancionados, como Irã e Coreia do Norte, para obter armamentos e drones, e intensifica o uso de canais paralelos de comércio, frequentemente sujeitos a novas punições internacionais.

Pressão interna, cenário global e incerteza sobre o futuro

O prolongamento do conflito tem efeitos crescentes no cotidiano russo. A mobilização parcial de centenas de milhares de reservistas em 2022, somada a novas levas de convocação ao longo de 2024 e 2025, afeta o mercado de trabalho e alimenta o descontentamento de famílias em grandes cidades. A mídia independente, já pressionada antes da guerra, praticamente desaparece do país, e organizações de direitos humanos relatam aumento de prisões por críticas ao governo e ao Exército.

Os custos sociais se somam à pressão sobre o orçamento. A fatia de gastos militares no PIB ultrapassa patamares de 5%, segundo estimativas ocidentais, em contraste com níveis próximos de 3% antes de 2022. Recursos que poderiam ir para saúde, educação e infraestrutura migram para o front, enquanto regiões mais pobres relatam atrasos salariais e cortes em serviços públicos. O governo responde com subsídios pontuais, congelamento de algumas tarifas e controle rígido sobre estatísticas oficiais.

No cenário externo, a guerra acelera realinhamentos. Países europeus correm para diversificar fontes de energia e reforçar orçamentos de defesa, com aumentos anuais que, em alguns casos, superam 20% desde 2022. A Otan incorpora novos membros e projeta presença ampliada em fronteiras com a Rússia, transformando em realidade o oposto do que Putin dizia buscar ao lançar a ofensiva. “A Rússia pretendia afastar a Otan, mas a empurrou para ainda mais perto”, resume um diplomata europeu.

A continuidade do conflito projeta um horizonte de maior instabilidade regional. Estados vizinhos, como países bálticos e Polônia, mantêm planos de contingência ativados, enquanto mercados globais de energia seguem sensíveis a qualquer movimentação em sanções ou infraestruturas críticas, como gasodutos e oleodutos. Investidores consideram o risco geopolítico um elemento permanente, não mais um evento pontual, o que influencia decisões de longo prazo em setores como logística, tecnologia e agronegócio.

Quatro anos depois da primeira coluna de blindados cruzar a fronteira com a Ucrânia, o projeto de poder de Vladimir Putin se encontra em encruzilhada. A guerra redefine a posição da Rússia no mundo, restringe sua economia e testa os limites de controle político interno do presidente. Em meio a um conflito sem vitória clara à vista, a pergunta que passa a orientar capitais, chancelerias e mercados é por quanto tempo o Kremlin suporta o custo de uma guerra que reconfigura, dia após dia, o próprio futuro do país.

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