Ultimas

Após morte de El Mencho, cartel usa fake news para inflar terror

Após o assassinato de El Mencho, em 24 de fevereiro de 2026, aliados do Cartel Jalisco Nova Geração espalham notícias falsas nas redes para ampliar o medo no México. Autoridades mexicanas correm para identificar contas ligadas ao crime organizado e conter a sensação de caos em cidades como Guadalajara e Puerto Vallarta.

Violência nas ruas, pânico ampliado na tela

As primeiras horas depois da confirmação da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o El Mencho, misturam cenas reais de violência com um fluxo coordenado de desinformação. Em vários estados, seguidores do chefe do Cartel Jalisco Nova Geração erguem barricadas, incendeiam ônibus urbanos, atacam lojas de bairro e postos de gasolina, em represália à operação que termina com o líder morto.

O impacto é imediato em Guadalajara, segunda maior cidade do país, e em Puerto Vallarta, polo turístico no Pacífico. Ônibus queimam em cruzamentos movimentados, comerciantes baixam as portas às pressas e famílias encurtam o trajeto de volta para casa. No mesmo intervalo de poucas horas, porém, a internet descreve um cenário ainda mais dramático, em grande parte inventado.

Circulam, em grupos de WhatsApp e perfis de X, Facebook e TikTok, vídeos que afirmam mostrar o aeroporto de Guadalajara tomado por assassinos, com homens encapuzados rondando terminais. Em outra gravação, um avião apareceria em chamas na pista, cercado por fumaça espessa. Em Puerto Vallarta, imagens de uma igreja supostamente em chamas, ao lado de prédios soltando fumaça negra, somam dezenas de milhares de visualizações em poucas horas.

Análises posteriores da agência Reuters e de checadores independentes apontam manipulações digitais e uso de cenas antigas, fora de contexto. A fumaça que sai da igreja, por exemplo, é resultado de edição, sobreposta a um vídeo feito meses antes. Mesmo assim, os arquivos são replicados em alta velocidade, muitas vezes sem qualquer checagem, alimentando boatos de que toda a região estaria fora de controle.

Estratégia de guerra informacional dos cartéis

Especialistas em violência e redes sociais veem pouco acaso nessa enxurrada de boatos. Pesquisadores que monitoram contas ligadas ao crime organizado afirmam que parte relevante das publicações parte de perfis alinhados ao Cartel Jalisco Nova Geração. O objetivo não é apenas confundir, mas inflar a percepção de que o governo perde o comando das ruas.

“Eles estão tentando mostrar que o governo mexicano não tem controle sobre o país”, diz Jane Esberg, professora assistente da Universidade da Pensilvânia, que estuda há anos o uso de plataformas digitais por grupos criminosos. Para ela, a morte de El Mencho abre uma disputa simbólica em tempo real, em que cada imagem exagera o tamanho do cartel e reduz, aos olhos do público, a força do Estado.

Esberg destaca que esse tipo de operação informacional cria duas distorções graves. A primeira é a sensação de presença onipresente do cartel, como se seus braços alcançassem todas as grandes cidades mexicanas ao mesmo tempo. A segunda é o efeito colateral sobre o próprio trabalho de segurança pública, já que autoridades têm mais dificuldade para medir, com precisão, onde a violência aumenta de fato e onde se trata apenas de ruído digital.

O secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, confirma que o governo acompanha o movimento nas redes desde as primeiras horas após a morte de El Mencho. Em entrevista coletiva, afirma que já foram identificadas “diversas contas” com possível ligação a organizações criminosas. Ele promete uma investigação mais profunda para saber quais perfis têm “relações diretas com um grupo do crime organizado” e quais apenas reproduzem o conteúdo.

Harfuch reconhece ainda que existe outro grupo de contas, “dedicadas a espalhar mentiras”, sem vínculo comprovado com cartéis, mas que ajudam a impulsionar o pânico. Ao comentar o caso, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirma que as autoridades trabalham para desmentir as publicações mais virais e menciona “muitas, muitas notícias falsas” em circulação desde o dia 24.

Medo nas cidades, pressão sobre o governo

A combinação de violência real com fake news produz efeitos concretos nas cidades afetadas. Em Guadalajara, escolas particulares adiantam o fim das aulas por pelo menos dois dias úteis, e pais relatam redução de cerca de 30% no movimento em zonas comerciais nas 48 horas após os primeiros ataques. Em Puerto Vallarta, hotéis registram cancelamentos imediatos de reservas feitas por turistas estrangeiros, preocupados com vídeos que mostram fumaça e supostos tiros na orla.

Para o governo mexicano, o desafio se duplica. De um lado, o Exército permanece mobilizado nas regiões onde o Cartel Jalisco Nova Geração atua, com operações que se estendem por vários dias após a morte do líder. De outro, equipes de comunicação precisam responder em ritmo semelhante ao dos boatos, publicando desmentidos, mapas atualizados de bloqueios e orientações de segurança em tempo quase real.

Nos bastidores, assessores presidenciais admitem preocupação com o desgaste na confiança pública. A cada vídeo falso que viraliza, cresce a impressão de que o Estado reage com atraso. O efeito é mais forte entre moradores que já convivem há anos com disputas entre cartéis e têm motivos para supor o pior. Em comunidades periféricas, famílias reduzem deslocamentos, cancelam consultas médicas e evitam usar transporte público à noite.

A guerra de narrativas também impacta a cobertura da imprensa. Redações em Cidade do México, Guadalajara e outros centros precisam reforçar rotinas de checagem antes de publicar qualquer imagem que circula nas redes. Em alguns veículos, editores criam fluxos específicos de verificação para postagens sobre cartéis, exigindo confirmações independentes, dados de geolocalização e contato com fontes locais.

Próximos passos na batalha contra a desinformação

Autoridades mexicanas discutem novas medidas para limitar o uso de perfis anônimos ligados ao crime organizado. Técnicos de segurança digital defendem parcerias mais firmes com plataformas, para derrubar contas reincidentes e rastrear padrões de publicação suspeitos. Há pressão para que as empresas de tecnologia entreguem, em prazos menores, dados que permitam identificar quem está por trás de campanhas coordenadas de medo.

Especialistas alertam, porém, que o jogo é de longo prazo. Mesmo com operações policiais mais duras, o ecossistema de boatos tende a se recompor com novas contas e canais alternativos. A morte de El Mencho expõe, com clareza rara, que a disputa entre cartéis e Estado mexicano se trava também em telas de celulares, minuto a minuto. A questão, nas próximas semanas, é se o governo conseguirá transformar a resposta emergencial a esta onda de desinformação em uma política duradoura, capaz de reduzir o espaço para o terror digital que hoje complementa a violência nas ruas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *