Após influenciadora mandar menino fazer o “L”, vaquinha mobiliza moradores no Ceará
Matheus, de 9 anos, é autista, perdeu a mãe e vende doces para ajudar a avó; motociclistas e entregadores organizaram doações após vídeo de Valéria Diniz.

Um vídeo publicado pela influenciadora digital Valéria Diniz, de 25 anos, provocou críticas nas redes sociais e deu origem a uma corrente de solidariedade em Fortaleza, no Ceará. Na gravação, divulgada na quarta-feira (28), ela pede que Matheus, um menino autista de 9 anos que vendia balas, faça o gesto de “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e depois se recusa a comprar os produtos. Após a repercussão, moradores organizaram uma vaquinha virtual para ajudar a família da criança.
A mobilização ganhou força na quinta-feira (29), quando motociclistas e entregadores foram até a residência de Matheus para levar doações e prestar apoio. O menino perdeu a mãe e vive com a avó, Inês de Maria do Nascimento. Ele vende balas e bombons na região da Beira-Mar para contribuir com as despesas de casa.
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Influenciadora questionou criança sobre política durante venda de doces
O episódio aconteceu no Mercado dos Peixes, na região da Beira-Mar de Fortaleza. Nas imagens, Valéria aparece sentada à mesa com amigas quando Matheus se aproxima para oferecer os produtos.
Durante a abordagem, a influenciadora pergunta sobre a preferência política da família do garoto. Depois de ouvir que a mãe dele teria votado em Lula, Valéria pede que a criança reproduza o gesto associado ao presidente.
O menino atende ao pedido, mas a influenciadora afirma que não deseja comprar os doces. Pessoas que estavam na mesa aparecem rindo da situação.
“Faz o L, não quero não, obrigada. Vai lá com a sua mãe.”
A frase foi registrada no vídeo compartilhado pela própria influenciadora. Na publicação, Valéria também escreveu uma mensagem fazendo referência à mãe do menino, que, segundo familiares, já havia falecido.

A gravação passou a circular em diferentes plataformas e recebeu críticas de internautas pela maneira como a criança foi abordada.
Valéria havia manifestado apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro. A preferência política da influenciadora também foi mencionada nas discussões sobre o episódio.
Quem é Matheus, o menino que vende balas em Fortaleza?
Matheus tem 9 anos, é autista e vive com a avó, Inês de Maria do Nascimento, após perder a mãe em decorrência de uma doença.
A criança é conhecida por frequentadores da Beira-Mar de Fortaleza, onde costuma oferecer balas e bombons para ajudar nas despesas familiares.
A rotina do menino passou a ser compartilhada nas redes sociais depois da divulgação do vídeo, levando internautas a conhecerem a situação financeira da família.
Apesar de a gravação envolver uma pergunta sobre voto, Matheus não possui idade para participar das eleições brasileiras. No país, o voto é facultativo a partir dos 16 anos.
Motociclistas e entregadores se mobilizam para ajudar a família
A repercussão do vídeo deu origem a uma campanha de arrecadação para ajudar Matheus e a avó.
Moradores, influenciadores e outros internautas passaram a divulgar iniciativas de solidariedade, incluindo uma vaquinha virtual destinada a contribuir com as despesas da família.

Na quinta-feira (29), um grupo de motociclistas e entregadores organizou uma mobilização em Fortaleza. Os participantes foram até a residência da criança, levaram donativos e realizaram uma manifestação de apoio.
Também foram divulgados registros de entrega de alimentos, presentes e uma bicicleta ao menino.
A mobilização ampliou a visibilidade da história de Matheus e incentivou novas contribuições.
Até a publicação desta reportagem, não havia um balanço consolidado e oficialmente confirmado sobre o valor total arrecadado pelas campanhas.
Valéria Diniz pede desculpas após repercussão
Depois das críticas, Valéria Diniz retirou o vídeo de circulação e seu perfil original no Instagram ficou indisponível.
Posteriormente, a influenciadora utilizou outra conta para publicar um pronunciamento no qual pediu desculpas à criança e à família.
Ela afirmou que estava em um momento de descontração com amigas e que não pretendia constranger o garoto.
“Não tive nenhuma intenção de humilhar ele, nem o oprimir, nem nada do tipo, gente.”
Durante o pronunciamento, Valéria declarou que também é mãe de uma criança autista e que não aceitaria que uma situação semelhante acontecesse com seu filho.
A influenciadora disse ainda que não imaginava que a gravação pudesse ser interpretada como uma humilhação.

Em entrevista à TV, ela voltou a pedir perdão e relatou que sua família passou a enfrentar consequências após a divulgação das imagens.
Valéria afirmou estar com medo das reações e disse que seus filhos também foram afetados pela repercussão.
Exposição de crianças nas redes sociais entra em discussão
O episódio também levantou questionamentos sobre os limites da exposição de crianças em conteúdos publicados por influenciadores digitais.
No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que crianças e adolescentes têm direito ao respeito, à dignidade e à preservação da imagem.
A legislação também prevê proteção contra situações que possam representar constrangimento ou tratamento vexatório.
A divulgação de imagens de menores exige atenção especial, sobretudo quando o conteúdo envolve situações de vulnerabilidade.
No caso de Matheus, a repercussão ocorreu após uma gravação em que a criança foi exposta a uma provocação de natureza política enquanto tentava vender doces.
Próximos passos
A família de Matheus continua recebendo manifestações de apoio, enquanto campanhas de arrecadação seguem sendo divulgadas nas redes sociais.
O episódio também provocou manifestações de vereadores de Fortaleza, que cobraram esclarecimentos e providências sobre a exposição da criança.
Até o momento, não há confirmação de denúncia criminal formal ou decisão judicial contra a influenciadora relacionada ao vídeo.
Valéria Diniz já apresentou um pedido público de desculpas. Não há confirmação de que a família tenha aceitado a retratação.
Enquanto isso, a mobilização de moradores, motociclistas e entregadores busca oferecer apoio financeiro à avó e ao menino.


