Após Conselho de Paz de Trump, Lula fala com Abbas sobre Gaza
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa por telefone, nesta quinta-feira (22), com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para discutir o cessar-fogo em Gaza e a reconstrução do território. A ligação ocorre dias após o lançamento do “Conselho de Paz”, iniciativa do governo Donald Trump para tratar do conflito no Oriente Médio. O gesto reforça a tentativa do Brasil de ocupar espaço nas negociações internacionais sobre a região.
Lula testa papel do Brasil no tabuleiro do Oriente Médio
A conversa é o primeiro movimento público de Lula após receber, de Washington, o convite para integrar o novo mecanismo coordenado por Trump. O Planalto admite o peso político do gesto, mas ainda não confirma a participação brasileira. Na segunda-feira (19), Lula se reúne com o chanceler Mauro Vieira para discutir o convite e avaliar riscos e oportunidades para a política externa do País.
Segundo nota do Palácio do Planalto, Lula expressa a Abbas “satisfação” com o cessar-fogo em vigor na Faixa de Gaza, após meses de escalada militar e crise humanitária. O presidente consulta o líder palestino sobre as perspectivas de reconstrução do território, devastado por sucessivas ofensivas e bloqueios. Na avaliação do governo brasileiro, qualquer plano para a região precisa combinar ajuda financeira, recuperação de infraestrutura e garantias mínimas de segurança para a população civil.
Reconstrução, cessar-fogo e o convite ao Conselho de Paz
O cessar-fogo em Gaza abre uma janela rara de negociação. Organismos internacionais estimam que bilhões de dólares sejam necessários para reconstruir moradias, escolas, hospitais e redes de energia atingidas na região. Lula sinaliza, na ligação, que o Brasil pretende atuar nesse esforço, seja por projetos bilaterais com a Autoridade Palestina, seja por meio de agências multilaterais da ONU, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
No diálogo, Lula e Abbas trocam impressões sobre o plano de paz em discussão e concordam em manter contato permanente. A mensagem contrasta com anos recentes em que o Brasil reduz sua presença diplomática em debates sobre o Oriente Médio. O atual governo tenta recuperar a tradição de participação ativa em negociações de paz, que marca momentos anteriores, como o reconhecimento do Estado palestino, em 2010, e a atuação em fóruns da ONU sobre a região.
Conselho de Paz amplia custo político da decisão
O lançamento do “Conselho de Paz”, anunciado por Trump como um fórum para discutir estabilidade no Oriente Médio, cria uma camada adicional de pressão sobre Lula. A eventual entrada do Brasil no grupo pode aproximar o País do eixo de influência direta da Casa Branca em um tema sensível, com repercussões internas e externas. A diplomacia brasileira tenta equilibrar, ao mesmo tempo, o histórico apoio aos direitos palestinos e a necessidade de diálogo com Israel e Estados Unidos.
O governo trabalha com pelo menos dois cenários. Se aceita o convite, Lula ganha acesso direto às conversas sobre cessar-fogo duradouro, reconstrução e futuro político da Palestina, o que tende a reforçar a imagem do Brasil como ator relevante em crises internacionais. Em contrapartida, aumenta o custo de eventuais fracassos do mecanismo e a exposição a críticas de setores que desconfiam da liderança de Trump no tema.
Gaza em ruínas e o cálculo brasileiro
A situação no terreno segue dramática. Organizações humanitárias descrevem cidades inteiras destruídas, redes de água e energia colapsadas e milhares de famílias deslocadas. A Autoridade Palestina busca apoio financeiro e político para evitar que a reconstrução fique totalmente subordinada a interesses de potências externas. Nesse contexto, a presença de países de médio porte, como o Brasil, ganha importância para diluir hegemonias e ampliar o espaço de negociação.
O Itamaraty defende que a reconstrução de Gaza seja acompanhada de um processo político que aponte para a solução de dois Estados, com fronteiras seguras e reconhecimento mútuo. Sem isso, avalia a diplomacia brasileira, a região corre risco de nova explosão de violência em poucos anos, repetindo ciclos de destruição. A ligação entre Lula e Abbas tem valor simbólico e prático: sinaliza que o Brasil está disposto a ouvir as lideranças palestinas antes de decidir como e onde atuar.
Próximos passos e espaço de manobra
Lula não estabelece prazo público para responder ao convite de Trump, mas a expectativa no governo é que a definição ocorra “nas próximas semanas”, após novas consultas internas e conversas com outros parceiros internacionais. A continuidade do canal direto com Abbas é vista como peça central desse processo, tanto para medir o grau de confiança da liderança palestina no Conselho de Paz quanto para identificar demandas concretas de ajuda.
O desfecho da decisão brasileira dirá até onde o governo está disposto a ir para retomar protagonismo em temas de segurança internacional. O movimento em direção a Gaza e à causa palestina tende a testar, ao mesmo tempo, a coesão da política externa de Lula e a capacidade do País de influenciar uma das crises mais persistentes do cenário global.
