Apollo 17: a última caminhada humana na Lua e o início do hiato
A missão Apollo 17 leva, em dezembro de 1972, os últimos astronautas à superfície da Lua e encerra de forma abrupta a fase mais intensa da corrida espacial. Meio século depois, o pouso final de Eugene Cernan e Harrison Schmitt ainda marca o limite da presença humana no satélite natural da Terra.
O auge e o fim de uma era
Quando o módulo lunar Challenger pousa no vale de Taurus-Littrow, em 11 de dezembro de 1972, a Nasa já sabe que se despede da Lua. A Apollo 17 é a sexta e última alunissagem tripulada do programa, coroando um ciclo de apenas quatro anos em que astronautas visitam o satélite com uma frequência que hoje parece inacreditável.
O comandante Eugene Cernan, veterano de outras missões, e o geólogo Harrison H. Schmitt passam 75 horas na superfície, um recorde para a época. Eles percorrem o terreno em um jipe elétrico dobrável, o Lunar Roving Vehicle, e realizam três caminhadas que somam 22 horas fora do módulo. Em fotografias nítidas, Schmitt aparece ao lado de um enorme rochedo, imagem que sintetiza o auge tecnológico e científico do programa.
O encerramento tem hora marcada antes mesmo da decolagem. Em 1969, logo após a Apollo 11 garantir aos Estados Unidos a vitória política na corrida espacial, o presidente Richard Nixon decide que a fase de grandes aventuras lunares precisa terminar. O custo é considerado proibitivo: no auge do esforço, o orçamento da Nasa consome cerca de 5% dos gastos federais, contra o patamar histórico de 0,5% que prevalece antes e volta a ser a regra depois.
A decisão também reflete cálculo político e medo de tragédias em cadeia. A explosão que quase mata a tripulação da Apollo 13, em abril de 1970, expõe o risco de transformar missões de prestígio em cenas de luto transmitidas ao vivo. O improviso que salva os astronautas se torna um triunfo técnico, mas deixa claro para o governo que cada novo pouso carrega uma probabilidade concreta de desastre.
O corte é profundo. Três missões já previstas, Apollo 18, 19 e 20, são canceladas, mesmo com parte dos equipamentos pronta. A Nasa reorganiza escalas e abre espaço para que ao menos um cientista treine para caminhar na Lua. Assim Schmitt, geólogo, substitui um astronauta de carreira militar e se torna o primeiro especialista em ciências da Terra a pisar em outro corpo celeste.
Da corrida com Moscou ao vazio de cinco décadas
A Apollo 17 encerra uma trajetória que começa com humilhações em série. Em 1957, os soviéticos colocam em órbita o Sputnik, primeiro satélite artificial, e em seguida enviam a cadela Laika ao espaço. Em 1961, Iuri Gagárin se torna o primeiro homem em órbita, deixando os Estados Unidos em posição defensiva. A resposta vem com o discurso de John F. Kennedy no mesmo ano, no qual o presidente estabelece a meta de levar um americano à Lua e trazê-lo de volta em segurança até 1970.
O caminho até o vale de Taurus-Littrow passa por testes graduais. A Nasa desenvolve primeiro o programa Mercury, entre 1961 e 1963, para provar que um ser humano suporta viagens em órbita. Em seguida, entre 1965 e 1966, as missões Gemini treinam manobras de aproximação, acoplagem e caminhadas espaciais, etapas essenciais para o futuro pouso lunar.
Mesmo após esse degrau, o projeto Apollo nasce sob sombra de tragédia. Em 1967, um incêndio durante um teste em solo mata três astronautas presos em uma cápsula, antes de qualquer voo ao espaço. A União Soviética enfrenta dramas semelhantes: a nave Soyuz, pensada também para viagens lunares, sofre falhas graves, e um cosmonauta morre na reentrada, no mesmo ano.
A disputa se decide na área mais crítica, a dos foguetes. Os Estados Unidos colocam em operação o Saturn V, um gigante de três estágios que leva dezenas de toneladas à órbita da Terra. Os soviéticos apostam no N1, ligeiramente menos potente, que falha em todos os testes. A morte do projetista-chefe Sergei Korolev, vítima de complicações cirúrgicas, desmonta a coordenação do programa soviético.
O medo de ficar atrás leva a decisões arriscadas. Em dezembro de 1968, a Apollo 8 orbita a Lua sem módulo de pouso, apenas com o conjunto de comando e serviço. Se o motor falha ao tentar sair da órbita lunar, a tripulação morre longe de casa. “A confiança não explicava aquela escolha; era a urgência política”, resume um historiador da exploração espacial ao lembrar a manobra.
Hoje se sabe que Moscou planeja um voo tripulado ao redor da Lua com a cápsula Zond, depois do êxito da Zond 5, que envia tartarugas e outros organismos em uma trajetória de retorno em 1968. Sem transparência pública, o fracasso dos foguetes força recuos silenciosos. Oficialmente, a União Soviética passa a negar que tenha desejado pousar cosmonautas na Lua, posição desmentida por documentos que surgem após o fim da Guerra Fria.
A partir de 1969, com o pouso da Apollo 11 em 20 de julho, o ritmo vira rotina. Entre julho de 1969 e dezembro de 1972, seis missões americanas deixam pegadas no solo lunar. A Apollo 12 testa pouso de precisão ao descer a cerca de 136 metros da sonda Surveyor 3. A Apollo 14 retoma o cronograma científico depois do susto da 13. A Apollo 15 e a 16 ampliam o alcance com o jipe lunar, somando mais de 80 horas de caminhadas na superfície nas duas missões.
Da memória da Apollo à nova corrida com a China
O fim da Apollo não significa abandono do espaço, mas um desvio de rota. A partir dos anos 1970, os Estados Unidos apostam em estações orbitais, no ônibus espacial e, mais tarde, na Estação Espacial Internacional, inaugurada em 1998. A presença humana se concentra em órbita baixa, a poucas centenas de quilômetros de altitude, enquanto a Lua permanece intocada por mais de 50 anos.
A lacuna molda a imaginação de gerações. Milhões lembram a fala de Neil Armstrong em 1969, mas poucos sabem que o último passo ocorre três anos depois. Cernan se despede da superfície com uma frase pouco repetida: “Saímos como viemos, e, se Deus quiser, voltaremos com paz e esperança para toda a humanidade”. Desde então, nenhum humano volta a repetir o gesto.
Esse hiato entra em fase de revisão com o programa Artemis, da Nasa. A missão Artemis 2, prevista para este ano, deve repetir o feito da Apollo 8: contornar a Lua com quatro astronautas a bordo, sem pouso, em uma trajetória de cerca de dez dias. A etapa seguinte, Artemis 3, mira um pouso na região do polo sul lunar, onde há gelo em crateras permanentemente sombreadas.
O contexto geopolítico é diferente, mas a lógica da competição reaparece. Os Estados Unidos veem na China o principal rival. Pequim coloca sondas na face oculta da Lua, testa veículos de exploração e planeja missões tripuladas à superfície ainda nesta década. A disputa não envolve só prestígio, mas o controle do espaço cislunar, o corredor gravitacional entre a Terra e a Lua, e o acesso a recursos, como água congelada e minerais em regiões pouco exploradas.
Os custos, desta vez, seguem outra escala. Lançamentos com foguetes reutilizáveis reduzem valores que, na era Apollo, consumiam fatias inteiras do orçamento federal americano. Empresas privadas entram em cena como fornecedoras de foguetes, módulos de pouso e serviços de carga, o que dilui riscos e abre caminho para uma presença mais duradoura.
A pergunta central deixa de ser se os humanos voltam à Lua e passa a ser como permanecem por lá. Bases semipermanentes, mineração de gelo para produzir combustível e uso da superfície como plataforma para missões a Marte entram em planos de longo prazo. O pouso da Apollo 17, visto da perspectiva atual, parece menos um ponto final e mais uma vírgula em uma história que recomeça.
Se a nova corrida espacial vai manter o fôlego depois dos primeiros pousos ainda é uma incerteza. A diferença em relação a 1972 é que, desta vez, interesses econômicos e estratégicos se misturam à busca simbólica por bandeiras e pegadas. As próximas décadas dirão se Taurus-Littrow continuará sendo o último endereço visitado por humanos na Lua ou se será lembrado apenas como o fim temporário de um capítulo interrompido cedo demais.
