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Anotações de Flávio expõem entraves do PL em estados-chave em 2026

Anotações feitas por Flávio Bolsonaro em reuniões internas do PL, em fevereiro de 2026, expõem dificuldades do partido em montar palanques em estados-chave. Os registros, esquecidos em uma sala de encontros políticos, revelam disputas regionais, impasses com aliados e incertezas sobre candidaturas estratégicas.

Roteiro de campanha vira mapa de conflitos internos

As anotações circulam entre dirigentes do PL como um retrato pouco filtrado do estágio da articulação eleitoral do partido. Em vez de uma lista de avanços, o material descreve entraves em regiões consideradas vitais para o desempenho da sigla em 2026 e mostra como a legenda ainda tenta equilibrar interesses locais, alianças frágeis e a herança política do bolsonarismo.

Os registros são feitos por Flávio durante encontros fechados, em salas de reuniões usadas pelo PL para discutir nominatas, alianças e palanques estaduais. Entre frases curtas, rabiscos e setas, aparecem observações sobre a resistência de lideranças regionais a composições com antigos adversários, o risco de rachas em diretórios locais e a dificuldade em lançar nomes competitivos em ao menos três estados estratégicos do Sudeste e do Nordeste.

Em um dos trechos, Flávio anota que a situação em um importante colégio eleitoral “segue indefinida, com mais de 3 pré-candidatos disputando o apoio do partido”. Em outro ponto, registra o temor de que uma composição com siglas do Centrão provoque reação da base mais ideológica. “Risco de perder militância se fechar com eles”, escreve, ao lado do nome de um aliado tradicional do bolsonarismo no Congresso.

Os bastidores descritos no caderno ajudam a explicar por que, mesmo com o peso eleitoral de Jair Bolsonaro e o controle de um orçamento partidário robusto após o desempenho em 2022, o PL ainda não apresenta um mapa consolidado de candidaturas majoritárias. A poucos meses do início oficial das convenções, dirigentes admitem reservadamente que o partido trabalha com diferentes cenários em ao menos cinco capitais e em estados que, somados, concentram mais de 40% do eleitorado nacional.

Impacto nos palanques e no jogo nacional

As dificuldades expostas nas anotações não se limitam a disputas locais por espaço. Elas revelam um dilema mais amplo: como o PL concilia o discurso de oposição dura ao governo federal com a necessidade de acordos pragmáticos com governadores e prefeitos de outras siglas. Em trechos dedicados a estados do Nordeste, Flávio registra a pressão de aliados para que o partido se aproxime de estruturas já instaladas, mesmo que comandadas por adversários históricos.

Em uma passagem, ele resume o impasse em poucas palavras: “Se não compor, risco de isolamento; se compor, risco de desgaste com base”. Segundo dirigentes que tiveram acesso informal ao conteúdo, essa tensão atravessa praticamente todas as decisões estratégicas da sigla. Em pelo menos dois estados, o partido avalia abrir mão de candidatura própria ao governo para apoiar nomes de legendas que, até 2022, eram alvo direto do bolsonarismo.

O material também indica preocupação com o desempenho em grandes centros urbanos. Há anotações sobre a dificuldade em encontrar nomes com recall superior a 20% nas pesquisas internas em capitais onde o PL elegeu bancadas expressivas de vereadores em 2020. Em outra página, Flávio destaca que a fragmentação da direita em certas regiões pode favorecer adversários ligados ao governo federal. “Com 3 candidaturas do nosso campo, eles entram no segundo turno com 30%”, anota, referindo-se a um cenário simulado para uma capital do Sudeste.

Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que o conteúdo, ainda que parcial, mostra como o PL enfrenta o custo de ter se transformado em principal polo da direita institucional. “O partido cresce rápido, mas herda conflitos, vaidades e ambições que não se resolvem só com o peso do nome Bolsonaro”, afirma um cientista político ouvido sob condição de anonimato. A exposição desses impasses, dizem estrategistas, tende a alimentar a narrativa de adversários que tentam apresentar o PL como uma legenda forte nas redes, mas vulnerável na construção de alianças duradouras.

Nos bastidores, integrantes da cúpula admitem preocupação com o uso político das anotações. “Tudo o que aparece fora de contexto vira munição”, diz um dirigente nacional, que tenta minimizar o teor dos registros. Para ele, o caderno não passa de um “inventário de problemas” comum a todas as campanhas. Ainda assim, interlocutores reconhecem que a divulgação fortalece grupos internos que defendem uma estratégia mais centralizada, com decisões tomadas pelo núcleo bolsonarista em Brasília, e enfraquece dirigentes regionais que pedem maior autonomia.

Próximos passos e riscos para o PL em 2026

A repercussão interna das anotações acelera a agenda de reuniões do partido ao longo do primeiro semestre de 2026. Integrantes do comando nacional falam em fixar prazos claros para a definição de candidaturas em estados considerados prioritários, com metas até junho para fechar palanques em capitais estratégicas e até agosto para consolidar alianças regionais. A avaliação é que a exposição pública das fragilidades reduz a margem para improviso na reta final da pré-campanha.

Dirigentes ouvidos pela reportagem afirmam que o partido deve reagir com uma vitrine de anúncios coordenados, tentando mostrar avanços concretos na costura eleitoral. A ideia é divulgar, em bloco, acordos fechados em ao menos três estados do Sudeste e dois do Nordeste, reforçando a imagem de organização. Ao mesmo tempo, o PL tenta blindar Jair Bolsonaro de desgastes locais, concentrando sobre Flávio, presidentes regionais e articuladores do Congresso a responsabilidade por concessões e recuos.

Especialistas em direito eleitoral lembram que o calendário impõe limites. As convenções partidárias, em 2026, precisam ocorrer entre julho e agosto, e o registro das candidaturas se encerra até o fim desse período. Cada impasse prolongado reduz o tempo de campanha efetiva nas ruas e nas redes, crucial em um cenário em que a disputa pelo voto indeciso se concentra nas últimas oito semanas antes do primeiro turno.

No curto prazo, a principal dúvida é se o partido conseguirá transformar o constrangimento das anotações em uma oportunidade de ajuste de rota ou se os conflitos expostos vão aprofundar divisões internas. A forma como o PL administra esses ruídos até o início oficial da campanha ajuda a definir não apenas o tamanho de suas bancadas, mas também o peso que a sigla terá na negociação de apoios para o segundo turno da disputa nacional.

Enquanto o conteúdo do caderno circula em conversas reservadas e provoca leituras divergentes entre aliados, permanece em aberto a pergunta que orienta as próximas semanas: o PL consegue unificar seus palanques sem diluir a identidade que o levou ao topo da direita brasileira?

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