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Amorim diz que Brasil não teme retaliação se recusar conselho de Trump

O principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, afirma nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, que o Brasil não teme retaliações se decidir recusar o convite de Donald Trump para integrar o chamado “Conselho da Paz”. Ele sustenta que o País segue aberto a novas iniciativas globais, mas condiciona qualquer adesão a negociações claras e a respeito à soberania brasileira.

Brasil sinaliza que não aceitará pressão externa

Amorim, ex-chanceler e hoje principal conselheiro de Lula para política externa, afirma que o governo avalia com cautela o convite do ex-presidente dos Estados Unidos, que lançou o Conselho da Paz com a promessa de mediar conflitos globais. A iniciativa nasce cercada de desconfiança entre diplomatas, que veem no projeto o risco de esvaziar o papel da Organização das Nações Unidas, criada em 1945 justamente para arbitrar crises internacionais.

Em entrevista à revista CartaCapital, Amorim descarta qualquer cálculo de medo diante de uma eventual resposta negativa do Brasil à proposta de Trump. “Não temo [risco de retaliação]. O Brasil é um país soberano, aberto a ideias novas, desde que objeto de negociação”, afirma. “No caso, trata-se de um contrato de adesão”, completa, ao apontar que o desenho atual do conselho limita o espaço de influência dos participantes.

O Palácio do Planalto ainda não responde oficialmente ao convite. Lula mantém a decisão em banho-maria enquanto observa o movimento de outras capitais. Até agora, líderes de Reino Unido, China, Alemanha e Rússia também não formalizam posição. Espanha, França e Suécia já rejeitam participar, e a União Europeia divulga nota em que expressa “sérias dúvidas” sobre a compatibilidade entre o conselho e o sistema multilateral liderado pela ONU.

Na contramão, Argentina, Paraguai, Arábia Saudita e Israel confirmam adesão ao grupo idealizado por Trump. A composição inicial reforça a percepção de que o conselho pode se tornar mais um eixo de pressão geopolítica, com impacto direto sobre países emergentes, que já disputam espaço em organismos como o G20, o Brics e o próprio Conselho de Segurança da ONU, ainda dominado pela lógica da Guerra Fria.

Disputa por protagonismo na governança global

As declarações de Amorim ocorrem um dia depois de Trump inaugurar oficialmente o Conselho da Paz e em meio a uma articulação paralela entre Brasil e China em defesa da centralidade das Nações Unidas. Nesta sexta-feira, o presidente Xi Jinping conversa por telefone com Lula e propõe que os dois países reforcem o “papel central” da ONU na arquitetura internacional. Pequim já havia declarado apoiar “firmemente o sistema internacional com as Nações Unidas no seu eixo central”.

A troca de mensagens entre Brasília e Pequim funciona como recado ao novo organismo patrocinado por Trump. Ao enfatizar a ONU, Brasil e China tentam conter a proliferação de arranjos paralelos que fragilizam regras comuns e ampliam zonas cinzentas no direito internacional. Na prática, o surgimento do conselho reacende a disputa entre dois modelos: um multilateral, com decisões discutidas entre dezenas de países, e outro centrado no poder de poucas capitais, lideradas por Washington.

Analistas ouvidos reservadamente no Itamaraty avaliam que a adesão ao conselho, tal como proposto, seria um passo na direção oposta ao discurso que Lula leva a fóruns como a Assembleia-Geral da ONU e a COP. O presidente repete, desde 2023, que o mundo precisa de “menos muros e mais mesas de negociação”, com voz ampliada para América Latina, África e Ásia. Um organismo comandado por Trump, sem mandato claro nem regras transparentes, colide com essa agenda.

O Brasil chega a essa encruzilhada após mais de duas décadas oscilando entre protagonismo e retração na política externa. Nos anos 2000, participa ativamente de missões de paz, como no Haiti, e lidera a criação da Unasul, que nasceu com 12 países em 2008. No governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, perde espaço em instâncias multilaterais e se alinha quase automaticamente à Casa Branca. A posição atual, mais cautelosa, busca equilibrar relações com Estados Unidos, China e Europa sem abrir mão da autonomia de voto.

Soberania em jogo e possíveis efeitos práticos

A decisão sobre o Conselho da Paz tem impacto direto na imagem externa do Brasil e no espaço de manobra em negociações futuras. Uma adesão pode aproximar o País de aliados de Trump, especialmente na América do Sul, e facilitar acordos bilaterais em áreas como comércio, defesa e energia. A recusa, por outro lado, tende a fortalecer a sintonia com China, União Europeia e países que defendem a reforma da ONU em vez da criação de estruturas paralelas.

Amorim insiste que o ponto central não é o nome de quem propõe, mas o desenho institucional da iniciativa. Ao chamar o convite de “contrato de adesão”, ele sugere que o Brasil entra num arranjo com regras já prontas, sem espaço real para influenciar o rumo das decisões. O risco, na avaliação de diplomatas, é que o conselho vire instrumento de legitimação para intervenções seletivas em crises como a guerra na Ucrânia ou os bombardeios em Gaza, enquanto conflitos menos visíveis seguem ignorados.

Setores econômicos acompanham o debate com atenção. Exportadores de soja, carnes e minério de ferro monitoram possíveis mudanças na política comercial norte-americana e chinesa, principais destinos das vendas brasileiras, que somam mais de US$ 350 bilhões por ano. Qualquer sinal de retaliação, mesmo que apenas retórico, pode mexer com expectativas de investidores e com o humor do câmbio, ainda sensível a ruídos políticos externos.

No campo político interno, a decisão também tende a reorganizar discursos. A oposição alinhada ao trumpismo deve pressionar pela adesão, sob o argumento de que o Brasil não pode se afastar de um fórum criado pelos Estados Unidos. Já partidos de esquerda e centro-esquerda, base de apoio de Lula, veem no conselho uma ameaça à ordem multilateral e ao histórico brasileiro de defesa da solução pacífica de conflitos sob guarda da ONU.

Definição de Lula pode redesenhar alianças

Lula ainda não crava prazo para responder ao convite, mas o governo trabalha com a necessidade de uma definição nas próximas semanas, antes da temporada de reuniões de alto nível em organismos como G20, Brics e ONU. A diplomacia brasileira tenta usar esse intervalo para sondar, de forma reservada, condições de participação que garantam maior equilíbrio entre os membros do conselho, algo que Trump, até agora, não sinaliza aceitar.

O desfecho vai além de uma escolha pontual. A resposta ao Conselho da Paz funciona como teste da política externa que Lula promete desde a campanha de 2022: altiva, pragmática e comprometida com a reconstrução do multilateralismo. Ao dizer que não teme retaliações, Amorim desenha o contorno dessa estratégia. A dúvida é se, diante de um cenário internacional em que a extrema direita avança e guerras se arrastam sem solução, o Brasil conseguirá manter essa linha sem pagar um preço econômico ou diplomático mais alto.

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