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Alpine revela A526 e aposta alto nas novas regras da Fórmula 1

A Alpine revela nesta sexta-feira (23) a pintura do A526, carro para a temporada 2026 da Fórmula 1, em um navio de cruzeiro. A equipe mantém Pierre Gasly e Franco Colapinto e tenta transformar um passado recente de crise em oportunidade na estreia do novo regulamento técnico da categoria.

Navio, nova era e uma aposta calculada

O cenário pouco convencional do lançamento, em um cruzeiro que celebra um parceiro comercial da escuderia francesa, contrasta com a frieza da estratégia traçada em Enstone e Viry. Lanternas do último campeonato de construtores, os franceses se colocam como uma das equipes com maior potencial de salto de desempenho na virada de regulamento de 2026.

O caminho até aqui começa mais de um ano antes da apresentação do A526. A direção da Alpine abandona o projeto próprio de motor e decide se tornar cliente da Mercedes a partir de 2026. A mudança libera orçamento e energia técnica para focar integralmente no chassi e na aerodinâmica do novo carro, justamente o campo em que o regulamento abre mais margem de inovação.

O acordo com a Mercedes ganha peso extra depois de a marca alemã encontrar uma brecha no regulamento dos novos motores híbridos. A solução, ainda não detalhada publicamente, é vista no paddock como um potencial diferencial de desempenho para a equipe de fábrica e para os três times clientes: Alpine, McLaren e Williams. Rivais tentam frear a vantagem nos bastidores, mas até agora não conseguem apoio suficiente para mudar o texto técnico.

Enquanto as grandes equipes dividem esforços entre os carros de 2025 e 2026, a Alpine toma uma decisão mais agressiva. O time opta por praticamente congelar o desenvolvimento do modelo deste ano para usar 100% de sua cota de túnel de vento e simulações computacionais no projeto do A526. Apenas a Williams segue caminho semelhante. Ferrari, Red Bull, Mercedes e demais rivais escolhem uma abordagem mais conservadora, equilibrando os dois programas.

Vantagem regulatória e pressão esportiva

O regulamento esportivo da Fórmula 1 ajuda quem terminou atrás na tabela. Desde julho passado, a Alpine conta com mais tempo de túnel de vento e de dinâmica de fluidos computacional do que qualquer rival que já estava no grid, com exceção da estreante Cadillac. Esse escalonamento, que varia em faixas percentuais de acordo com a posição no campeonato, permanece até a redefinição das cotas no fim de junho deste ano.

A combinação entre mais horas de desenvolvimento, foco exclusivo em 2026 e o motor Mercedes em teoria coloca a Alpine em uma posição rara para um time que fecha o campeonato em último: a de atacar. Internamente, a leitura é de que o A526 pode iniciar a temporada em um estágio de maturidade de projeto superior ao dos rivais diretos, reduzindo o tempo até o primeiro grande pacote de atualizações.

O discurso público, porém, vem acompanhado de cobrança. O consultor Flavio Briatore, figura central na reorganização da equipe, usa o palco do lançamento para lembrar que a responsabilidade não é apenas dos engenheiros. “Neste ano, não há mais desculpas. Nos preparamos muito bem, os pilotos tiveram continuidade, Colapinto está começando a temporada como titular e nós precisamos de dois pilotos andando bem”, afirma. Ele inclui o reserva Paul Aron na conta e fala em “três pilotos” sob avaliação constante.

O histórico recente joga contra. A Alpine convive com sucessivas trocas de comando técnico e gerencial desde 2022, além de mudanças na dupla de pilotos ainda no primeiro terço da última temporada. Colapinto assume a vaga sob forte pressão, em meio a uma equipe que tenta se reencontrar enquanto vê rivais diretos consolidarem estruturas mais estáveis. Em um ambiente tão complexo quanto a Fórmula 1, instabilidade costuma custar décimos de segundo que não aparecem nas planilhas, mas definem posições no grid.

O primeiro contato de pista com o A526 acontece ainda antes da revelação pública completa. Pierre Gasly conduz um teste curto em Barcelona nesta semana, focado em sistemas e verificação de confiabilidade. O dia não vale tempo oficial, mas oferece as primeiras impressões sobre a integração do chassi com a nova unidade de potência da Mercedes e abre a fase em que a teoria do túnel de vento precisa se confirmar no asfalto.

O que está em jogo na nova era da F1

As mudanças técnicas de 2026 redesenham o equilíbrio de forças da categoria. Os carros passam a ser mais leves, com aerodinâmica menos dependente do ar “sujo” de quem vem à frente, e motores com maior participação elétrica em relação ao componente de combustão. A intenção da Federação Internacional é aproximar o pelotão e aumentar as disputas em pista.

Para a Alpine, o pacote cria uma rara convergência de fatores. A equipe chega com uma dupla de titulares mantida, Gasly e Colapinto, algo que faltou em outros ciclos de mudança. Soma um motor teoricamente mais eficiente, fruto da leitura agressiva da Mercedes sobre o texto técnico, e capitaliza ao máximo o sistema de distribuição de tempo de desenvolvimento, pensado justamente para dar chance de reação a quem termina atrás.

O cenário abre espaço para avanços, mas também eleva o risco. Se o A526 não entrega o salto esperado nas primeiras corridas, a estratégia de abandonar o desenvolvimento de 2025 cobra um preço imediato. A equipe pode assistir rivais que dividiram recursos chegarem com carros mais redondos e, ao mesmo tempo, terem mais margem para corrigir rumos ao longo do ano. Um erro conceitual agora tende a ser mais caro do que em ciclos anteriores.

O impacto não se limita à tabela de pontos. Um eventual crescimento da Alpine mexe com o mercado de pilotos, com o apetite de patrocinadores e com a disputa política em torno do próximo ciclo regulatório. Uma cliente da Mercedes usando melhor o motor do que a própria equipe de fábrica, por exemplo, reacende debates antigos sobre prioridade técnica e acesso a atualizações.

Temporada de prova e dúvidas em aberto

As respostas começam a aparecer nos testes de pré-temporada, ainda antes da primeira corrida de 2026. O desempenho de Gasly nas simulações de classificação e corrida, aliado à adaptação de Colapinto ao carro desde o início do ano, será o primeiro termômetro real da aposta francesa. O desempenho de Paul Aron, sempre de prontidão, também entra no radar da cúpula.

O projeto A526 nasce, portanto, como síntese de um reposicionamento amplo: menos orgulho de fabricante, mais pragmatismo técnico, mais dependência de um parceiro forte e mais cobrança interna. A Alpine chega à nova era da Fórmula 1 com argumentos para deixar o fim do pelotão, mas carrega o peso de anos de instabilidade. O navio de cruzeiro que serve de palco ao lançamento festeja a parceria comercial; o que se verá, a partir da primeira volta cronometrada, é se a equipe consegue finalmente sair da deriva e encontrar um rumo estável no pelotão intermediário.

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