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Alfredo Gaspar rebate acusação e divulga vídeo de jovem que nega ser sua filha

O deputado Alfredo Gaspar (União-AL) publica, em menos de 24 horas, um vídeo em que uma jovem afirma não ser sua filha para rebater acusação de estupro de vulnerável. A gravação é divulgada em seu perfil oficial no X, antigo Twitter, após parlamentares o associarem, sem apresentar provas, ao crime.

Vídeo vira peça central da reação do deputado

O movimento de Gaspar ocorre após declarações públicas do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que o citam em acusações de estupro de vulnerável. Nas redes, os dois sugerem o envolvimento do colega em um caso que não detalham, não mostram documentos, não apresentam boletim de ocorrência nem decisão judicial.

No vídeo divulgado neste fim de semana, de pouco mais de 1 minuto, uma jovem aparece em ambiente doméstico e fala diretamente à câmera. Ela diz de forma clara que não é filha de Alfredo Gaspar e que a informação que circula nas redes é falsa. O deputado usa a gravação como principal argumento para sustentar que está sendo alvo de uma campanha de difamação.

Gaspar acompanha o vídeo com uma mensagem em que afirma que não vai admitir ataques à sua reputação. “Não aceitarei que minha honra seja atingida por mentiras”, escreve no X, em publicação feita em seu perfil verificado, seguido por dezenas de milhares de usuários. Ele não cita, na mesma postagem, o nome da jovem nem fornece outros dados sobre o contexto da gravação, o que mantém parte das perguntas em aberto.

A disputa ganha corpo em um ambiente político já marcado por confrontos diários nas redes sociais. Nas últimas semanas, episódios semelhantes envolvem acusações de corrupção, uso indevido de verbas e até ameaças veladas entre grupos rivais no Congresso. Agora, o embate escala para o campo das denúncias de crimes sexuais, considerados entre os mais graves previstos no Código Penal brasileiro.

Acusações sem provas acirram tensão política

A investida de Lindbergh e Soraya atinge um parlamentar que ocupa espaço relevante na Câmara. Em 2023, Gaspar assume a relatoria da CPI mista do INSS, que movimenta pelo menos 31 integrantes entre deputados e senadores e mira um suposto esquema de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos de aposentadorias entre 2019 e 2024. Seu relatório, apresentado em 28 de março e derrotado por 19 votos a 12, provoca atritos com a base governista, que o acusa de tentar criminalizar adversários políticos.

O histórico recente alimenta a leitura, entre aliados de Gaspar, de que a nova acusação faz parte de um contra-ataque político. Parlamentares próximos ao deputado afirmam, reservadamente, que veem nas falas de Lindbergh e Soraya uma tentativa de desqualificar a atuação dele em comissões e debates de alto impacto financeiro e institucional. Não há, até o momento, indícios públicos de que a acusação tenha sido formalizada na polícia ou no Ministério Público.

Especialistas em direito penal consultados por veículos da imprensa lembram que o crime de estupro de vulnerável prevê pena de até 15 anos de prisão, podendo chegar a 30 anos em casos de agravantes. A simples vinculação do nome de um parlamentar a esse tipo de conduta, sem lastro documental, tem potencial para causar dano imediato à imagem, mesmo que nenhuma denúncia seja apresentada à Justiça.

Em um Congresso com 513 deputados e 81 senadores, a batalha por reputações se trava, cada vez mais, em tempo real. Uma postagem no X, no Instagram ou em aplicativos de mensagem alcança milhares de pessoas em minutos, muitas vezes sem direito de resposta equivalente. O caso de Gaspar ilustra esse desequilíbrio: a acusação viraliza em poucas horas; a reação com o vídeo tenta conter o estrago, mas já encontra um ambiente polarizado, no qual parte do público tende a acreditar primeiro na denúncia, não no desmentido.

Risco jurídico, dano à imagem e próximos passos

O episódio abre uma série de frentes possíveis. No campo jurídico, Gaspar pode recorrer a ações por calúnia e difamação contra os colegas, com base no Código Penal, que prevê pena de detenção de até 2 anos nesses casos, além de indenização por danos morais na esfera cível. Parlamentares acusadores, por sua vez, podem tentar sustentar que agem no limite da imunidade parlamentar, que protege opiniões, palavras e votos ligados ao exercício do mandato, tema que costuma ser discutido em detalhes no Supremo Tribunal Federal.

No plano político, o caso tende a acentuar divisões já existentes. Bancadas de governo e oposição medem o custo de se alinhar publicamente a um dos lados em uma disputa que envolve crime sexual e disputa de narrativa. Assessores avaliam, em reuniões reservadas, se a exposição prolongada desse tipo de embate afasta o eleitorado moderado, que responde pela maioria dos 156 milhões de brasileiros aptos a votar em 2024.

Organizações da sociedade civil que atuam na proteção de crianças e adolescentes costumam reagir com cautela a casos de grande repercussão. Integrantes de entidades ouvidos em outras ocasiões defendem que denúncias de violência sexual sejam formalizadas em delegacias especializadas e acompanhadas por equipes técnicas, não lançadas primeiro em ataques políticos nas redes sociais. A preocupação é dupla: garantir a apuração de eventuais crimes e evitar a banalização de acusações gravíssimas em disputas eleitorais.

Gaspar sinaliza que não deixará o assunto morrer. Ao divulgar o vídeo e falar em “mentiras”, indica que prepara uma reação mais estruturada, possivelmente na Justiça e em instâncias internas do Congresso, como o Conselho de Ética. Os próximos dias devem mostrar se Lindbergh Farias e Soraya Thronicke apresentam documentos, registros formais ou recuam do teor das acusações.

O episódio expõe, de forma crua, a fronteira cada vez mais tênue entre fiscalização legítima e linchamento político em redes sociais. Enquanto o vídeo da jovem circula e é usado por Gaspar para dizer que é vítima de difamação, uma pergunta permanece sem resposta concreta: até que ponto o parlamento brasileiro está disposto a estabelecer limites claros para o uso de acusações criminais como arma no jogo político diário?

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