Alexandre Mattos discute com jornalista e encerra coletiva na Vila
O diretor de futebol do Santos, Alexandre Mattos, discute com um jornalista e encerra de forma abrupta a coletiva na Vila Belmiro, na noite de quinta-feira (23), após o empate por 1 a 1 com o Corinthians, pela quarta rodada do Campeonato Paulista.
Discussão expõe tensão após empate e questionamento sobre salários
A sala de imprensa ainda absorve o gol de falta de Gabigol aos 48 minutos do segundo tempo quando o clima muda de vez. O empate mantém o Santos com cinco pontos em quatro jogos, na oitava colocação do Estadual, e reforça a sensação de instabilidade. O ambiente já é de cobrança quando Alexandre Mattos pede a palavra ao fim da entrevista do técnico Juan Pablo Vojvoda.
O dirigente, contratado para liderar a reconstrução esportiva do clube em meio à crise técnica e financeira, decide fazer um pronunciamento. Em tom institucional, defende o processo em curso, cita a reorganização da gestão e admite erros na montagem do elenco. “Claro que nem tudo vai ser acertado. Algumas contratações e decisões não vão acontecer de maneira correta. E isso é normal em um clube que vem se organizando para chegar naquela organização que vai errar cada vez menos”, afirma. Para ele, o Santos “está no caminho”, mesmo com “muita dificuldade”.
Quando jornalistas perguntam se podem dirigir questões diretamente a Mattos, o clima cordial começa a ruir. Um repórter questiona o salário do atacante Bilal Brahimi, que, segundo coluna de Lucas Musetti no UOL, recebe quase R$ 1 milhão por mês e sequer é relacionado para as partidas. O tema financeiro, sensível em um clube sob pressão por transparência, aciona o estopim.
Mattos reage de imediato, visivelmente irritado. Sem citar a cifra mencionada na pergunta, ataca o conteúdo e o método. “Acho uma indelicadeza, uma falta ética e de respeito falar de salários. Ninguém fala de salários e não queremos saber”, dispara, em tom crescente. O jornalista tenta insistir na pergunta e interrompe a fala do dirigente algumas vezes. A discussão sai do campo das ideias e entra na esfera pessoal.
O diretor perde a paciência, devolve no mesmo volume e rompe o protocolo de uma coletiva tradicional. “Esse cidadão é, realmente, um desequilibrado. Muito obrigado a todos, me desculpe, porque temos um mal-educado aqui”, afirma, antes de se levantar e encerrar, por conta própria, o encontro com a imprensa. O encerramento surpresa pega os demais profissionais e membros do clube de surpresa e interrompe qualquer tentativa de retomada do debate.
Salários, transparência e desgaste na relação com a imprensa
O episódio expõe um ponto nevrálgico do futebol brasileiro em 2026: a fronteira entre o interesse público sobre contratos milionários e o direito à privacidade dos atletas e dirigentes. A pergunta sobre Brahimi não surge isolada. O atacante argelino, contratado sob expectativa alta e com um custo considerado pesado para o momento financeiro do Santos, ainda não entra em campo e sequer aparece entre os relacionados, o que alimenta desconfiança na torcida e no mercado.
Em redes sociais, torcedores cobram explicações sobre investimentos, prioridades e critérios de utilização do elenco. O debate sobre o salário de quase R$ 1 milhão por mês de um jogador sem espaço técnico vira símbolo de uma gestão que ainda tenta provar eficiência. A reação de Mattos, ao classificar a pergunta como “antiética” e “irresponsável”, amplia o ruído e reforça a ideia de opacidade em um cenário que exige prestação de contas constante.
Profissionais de imprensa e comentaristas esportivos veem na cena um recado duro. A crítica pública a um jornalista, em horário nobre e com transmissão ao vivo, tende a tensionar a rotina de cobertura nos próximos jogos. A diretoria pode optar por limitar perguntas, reduzir o tempo de entrevistas ou impor regras mais rígidas. Qualquer movimento nesse sentido aumentará a percepção de distanciamento entre clube e veículos, em um momento em que a transparência sobre decisões esportivas e financeiras é central para recuperar confiança.
Entre especialistas em gestão esportiva, o caso é lido como sintoma de um ambiente pressionado por resultados e por números. O empate em casa com o Corinthians, somado ao desempenho irregular nas três primeiras rodadas, intensifica cobranças. Com duas igualdades, uma derrota e apenas uma vitória, o Santos soma cinco pontos de 12 possíveis, algo em torno de 41% de aproveitamento. Em clubes grandes, qualquer tropeço nesse início de temporada potencializa conflitos internos e externos.
Em paralelo, o debate sobre ética na cobertura volta ao centro. Há quem defenda que salários, quando atingem cifras milionárias e impactam diretamente o orçamento de clubes com dívidas relevantes, são de interesse da sociedade. Outros concordam com Mattos e entendem que a exposição de valores individuais pode ferir a privacidade do atleta e criar ambiente hostil no vestiário. A fronteira entre transparência e devassa permanece difusa.
Riscos para o Santos e os próximos capítulos da crise de imagem
O impacto imediato recai sobre a imagem do Santos e de Alexandre Mattos. O dirigente, conhecido por atuar em grandes clubes e por negociar contratos altos, volta ao centro de uma controvérsia pública em um momento em que tenta se firmar como símbolo da reconstrução alvinegra. A discussão viraliza nas redes e entra em programas esportivos nacionais já nas primeiras horas após o jogo.
A direção santista, pressionada por resultados, finanças e agora pela comunicação, precisa decidir se mantém a linha de confronto ou se tenta recompor pontes com a imprensa. Um pedido de esclarecimento, uma nota oficial ou uma entrevista exclusiva podem surgir como tentativas de controlar danos. Um silêncio prolongado tende a alimentar especulações sobre contratos, acordos e bastidores de negociações como a de Bilal Brahimi.
Dentro de campo, Vojvoda segue o trabalho com um elenco ainda em formação e alvo de críticas. O empate com gol de Gabigol nos acréscimos evita uma derrota em casa, mas não dissipa a frustração de boa parte da arquibancada, que vê o time oscilar em rendimento e resultados. A combinação de insegurança esportiva com ruídos de comunicação costuma ser explosiva em clubes de massa.
Nos próximos jogos do Campeonato Paulista, a sala de imprensa da Vila Belmiro volta a ser observada com lupa. A forma como Mattos e a diretoria vão reagir a perguntas sobre temas financeiros indicará o grau de abertura do clube a questionamentos incômodos. A relação com o repórter alvo dos ataques, com o veículo em que ele atua e com outros jornalistas do circuito também será um termômetro importante.
Resta saber se o episódio vira um ponto de inflexão para mais transparência ou se inaugura uma fase de retração e confronto. Em um cenário em que as finanças dos clubes são cada vez mais escrutinadas por torcedores, patrocinadores e reguladores, a forma como dirigentes respondem a perguntas difíceis pode ser tão decisiva quanto um gol nos acréscimos.
