Alerj demite presidente de escola que vai homenagear Lula na Sapucaí
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro demite, nesta sexta-feira (6.fev.2026), o presidente da escola de samba que prepara uma homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no desfile da Sapucaí. A decisão, tomada em meio a pressões políticas, reacende o debate sobre os limites entre função pública, militância e manifestação artística.
Tensão entre função pública e avenida
A exoneração ocorre a poucos dias do Carnaval e atinge justamente o dirigente responsável pelo enredo que coloca Lula no centro de um desfile no Grupo Especial. O episódio transforma o Sambódromo em palco lateral da disputa nacional entre lulistas e adversários do petista, enquanto a Alerj tenta se afastar da acusação de uso político da máquina pública.
Aliados do presidente da escola afirmam, nos bastidores, que a demissão está diretamente ligada à escolha do enredo e à visibilidade que o desfile deve alcançar na televisão aberta, no streaming e nas redes sociais. Parlamentares da oposição ao governo federal pressionam desde o anúncio da homenagem, no fim de 2025, alegando que o acúmulo de funções do dirigente na Assembleia e na escola de samba criaria “conflito de interesses”.
Deputados próximos ao Palácio Guanabara defendem a medida como forma de “preservar a institucionalidade da Casa”, segundo relataram servidores que acompanharam as discussões internas. O comando da Alerj, porém, evita associar a decisão à figura de Lula e fala em “ajuste administrativo” em área ligada a cargos comissionados. Não há, até o momento, publicação detalhada sobre os fundamentos jurídicos da demissão além da simples dispensa do cargo de confiança.
Desfile ganha peso político inédito
A escola de samba, que estreia no Grupo Especial em 2026 após subir da Série Ouro no Carnaval anterior, mantém o plano de levar à avenida um enredo centrado na trajetória de Lula, dos anos de metalúrgico no ABC paulista à Presidência da República. O projeto prevê cerca de 3 mil componentes, mais de 20 alas e pelo menos 7 alegorias, com investimentos estimados em R$ 8 milhões entre patrocínios, recursos próprios e apoio de incentivadores.
Dirigentes ouvidos pela reportagem afirmam que não haverá mudança de enredo e que o afastamento do presidente da escola, da função pública, não atinge o planejamento já em curso. “O desfile está pronto. Ensaiamos há meses, pagamos fornecedores, contratamos profissionais. Não existe plano B”, diz um integrante da diretoria artística. A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) acompanha o caso com discrição e reforça, internamente, que o regulamento não proíbe homenagens a figuras políticas vivas.
A demissão, porém, reorganiza o jogo de forças dentro da escola, onde grupos mais cautelosos temem reação negativa de parte do público nas arquibancadas e nas redes sociais. A direção aposta que o peso cultural do Carnaval e a recuperação da imagem de Lula, hoje no terceiro mandato, neutralizem a rejeição de eleitores que ainda associam o petista à Operação Lava Jato, encerrada formalmente em 2021, mas ainda presente no imaginário de parte do eleitorado.
Especialistas em cultura e política veem na decisão da Alerj um sinal de que a polarização de 2018 e 2022 não arrefece. “Quando um presidente de escola é demitido por causa de um enredo, o recado é claro: o campo cultural continua sob vigilância política”, avalia um pesquisador de políticas públicas ligado a uma universidade federal do Rio. Para ele, o caso reforça a tendência de transformar desfiles em termômetros de aprovação ou rejeição a lideranças nacionais.
Cultura sob pressão e próximos capítulos
A reação à demissão se espalha rapidamente por veículos de imprensa, grupos de WhatsApp de sambistas e redes sociais de militantes dos dois lados do espectro político. Em poucas horas, colunistas, comentaristas e influenciadores passam a disputar a narrativa sobre o episódio: de um lado, quem vê “perseguição política disfarçada de correção administrativa”; de outro, quem defende regras mais rígidas para ocupantes de cargos públicos que se envolvem com homenagens a figuras em plena atividade política.
O caso pode influenciar decisões futuras em outras casas legislativas, câmaras municipais e órgãos de governo que abrigam servidores com atuação destacada em blocos, escolas de samba e coletivos artísticos. Gestores já discutem, de forma reservada, a elaboração de normas internas para balizar participações em projetos culturais com conteúdo explicitamente político ou ligado a lideranças partidárias. A movimentação reacende um dilema: até onde o poder público pode limitar a atuação artística de seus funcionários sem ferir a liberdade de expressão garantida pela Constituição de 1988?
A escola de samba promete transformar a controvérsia em combustível para o desfile. Integrantes falam em um enredo “ainda mais contundente” na defesa do legado de Lula em áreas como combate à fome, programas sociais e políticas de valorização do salário mínimo, que cresceu em termos reais em boa parte dos anos 2000. A avenida, afirmam, será o espaço para responder simbolicamente à pressão política sofrida nos bastidores.
A Alerj, por sua vez, enfrenta pressão para detalhar critérios da demissão e explicar por que a medida ocorre justamente às vésperas do Carnaval, quando o caso ganha máxima visibilidade. A forma como o episódio será tratado nos próximos dias, dentro e fora do plenário, tende a indicar se a decisão ficará restrita à burocracia interna ou se abrirá uma frente mais ampla de discussão sobre arte, poder e censura indireta. O desfile na Sapucaí, em poucas semanas, deve mostrar se a avenida aceita ser palco apenas de fantasia ou se continuará refletindo, em som e cor, as disputas mais profundas da política brasileira.
