Esportes

Alemanha ameaça boicotar Copa de 2026 em meio a crise com EUA

O governo alemão coloca em dúvida a participação da seleção na Copa do Mundo de 2026 e admite, em janeiro de 2026, a possibilidade de boicote. A decisão final fica nas mãos da Federação Alemã de Futebol (DFB) e da Fifa, em meio a uma crise diplomática alimentada por ameaças do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Crise política invade o gramado

O debate sobre a ausência da Alemanha atinge o futebol em um dos momentos mais sensíveis da preparação para o Mundial, marcado para começar em junho de 2026, em 16 cidades de Estados Unidos, Canadá e México. Em Berlim, integrantes do governo evitam confronto direto com Washington, mas reconhecem que o clima político se deteriora desde o fim de 2025, quando Trump volta a usar a Copa como arma retórica em discursos e redes sociais.

Integrantes do gabinete falam em “ambiente hostil” para a delegação alemã, sobretudo em solo americano. Em conversas reservadas, assessores relatam preocupação com a segurança de jogadores, comissão técnica e torcedores. O futebol, que movimenta bilhões de euros em direitos de transmissão e patrocínios, entra no centro de uma disputa diplomática que expõe a fragilidade da separação entre política e esporte.

Bastidores da decisão e pressão sobre a DFB

O chanceler sinaliza publicamente que não imporá um veto político à equipe, mas repete que “respeitará a decisão da DFB e da Fifa”, numa frase que, na prática, transfere o peso da escolha para a cúpula do futebol alemão. Dirigentes ouvem, há semanas, representantes de clubes, patrocinadores e até associações de torcedores em reuniões que chegam a durar mais de três horas. A federação admite, em nota, que considera “todos os cenários”, inclusive a retirada da equipe do torneio.

Nos bastidores, executivos de emissoras de TV europeias calculam perdas caso a Alemanha fique fora do Mundial. Apenas no mercado interno, contratos de transmissão e publicidade ligados à seleção superam € 300 milhões para o ciclo até 2026. Um boicote forçaria renegociações em cascata, de pacotes de pay-per-view a cotas de patrocínio em plataformas digitais, com impacto imediato nas contas da DFB e de parceiros comerciais.

As ameaças de Trump, vistas por diplomatas como tentativa de pressionar aliados europeus, funcionam como gatilho. Em discursos no fim de 2025, o ex-presidente critica governos que, segundo ele, “não respeitam a soberania americana” e cita nominalmente a Alemanha. Em um dos eventos, diante de milhares de apoiadores, ele afirma que “certos países vão pensar duas vezes antes de mandar seus times para cá”. A frase é interpretada em Berlim como recado direto.

A memória recente pesa na discussão. Em 2018, ainda com Trump na Casa Branca, a Fifa escolhe o trio Estados Unidos, Canadá e México para sediar a Copa de 2026, derrotando a candidatura do Marrocos. À época, entidades de direitos humanos alertam para riscos de politização do torneio, em meio a políticas migratórias rígidas e discursos nacionalistas. O alerta volta à cena agora, com mais força e um calendário apertado: faltam menos de 18 meses para o pontapé inicial.

Impacto esportivo e diplomático de um boicote

A eventual ausência da Alemanha, tetracampeã mundial e presença constante em Copas desde 1954, ameaça o prestígio esportivo do torneio. Em 2018, por exemplo, a seleção movimenta audiências superiores a 25 milhões de telespectadores em jogos decisivos. A Fifa sabe que perder uma equipe desse porte significa reduzir o apelo global do evento e enfraquecer a narrativa de “Copa do Mundo mais inclusiva da história”, construída após a ampliação para 48 seleções.

Diplomatas europeus admitem que outros países acompanham de perto os passos de Berlim. Chancelarias de ao menos três capitais da União Europeia discutem, em caráter confidencial, alternativas de resposta caso o clima com Washington piore. “Se a Alemanha ficar de fora, a pressão interna por uma posição semelhante aumenta. Nenhum governo quer parecer indiferente às ameaças”, avalia um negociador envolvido nas conversas.

Os efeitos sobre torcedores e patrocinadores aparecem nas primeiras pesquisas de opinião. Um levantamento divulgado em janeiro indica que cerca de 40% dos alemães apoiam o boicote, enquanto 45% defendem a participação sob protesto, com faixas, manifestações e ações simbólicas. Apenas uma minoria, em torno de 10%, afirma não ver problema nas declarações de Trump. Marcas globais que investem na seleção temem associação a um ambiente politizado, mas também não querem perder exposição em uma audiência potencial de mais de 5 bilhões de pessoas, somando TV e plataformas digitais.

Especialistas em relações internacionais apontam que a crise atual ecoa episódios históricos, como os boicotes olímpicos de Moscou-1980 e Los Angeles-1984, em plena Guerra Fria. A diferença, agora, está na centralidade do futebol no mercado global e na interdependência econômica entre Europa e Estados Unidos. “Um boicote em 2026 não seria apenas um gesto simbólico. Seria um recado direto ao principal parceiro comercial da Alemanha”, resume um professor de política externa ouvido pela reportagem.

Próximos passos e incertezas até o apito inicial

A Fifa monitora a crise e tenta manter o discurso de neutralidade, mas sofre pressão para se posicionar. Dirigentes do alto escalão avaliam, em reuniões em Zurique, o risco de uma reação em cadeia. Um comunicado mais duro contra ameaças políticas está na mesa, mas a entidade teme confronto aberto com Trump e aliados. A direção alemã cobra garantias formais de segurança para delegação e torcedores, com prazos claros e protocolos escritos, algo que costuma ser tratado de forma mais discreta em edições anteriores.

A DFB promete anunciar uma posição até o meio do ano, possivelmente entre maio e junho, quando a equipe deveria iniciar a fase final de preparação. Até lá, clubes da Bundesliga pressionam por clareza, já que o calendário doméstico em 2025/26 é desenhado em função das datas da Copa. Se a seleção não viajar, jogadores voltam mais cedo e alteram o equilíbrio esportivo e financeiro da liga.

A incerteza deixa uma pergunta aberta neste início de 2026: a Alemanha aceita disputar uma Copa em ambiente hostil e sob ameaça política explícita ou transforma o Mundial da América do Norte no palco de um dos boicotes mais significativos da história recente do esporte? A resposta, quando vier, vai ultrapassar as quatro linhas e redefinir os limites entre diplomacia, poder e futebol.

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