Agassi aconselha João Fonseca a blindar mente contra pressão no Rio
Andre Agassi aconselha João Fonseca, no início da temporada de 2026, a ignorar expectativas exageradas e a focar na própria evolução. O ex-número 1 vê maturidade no jovem brasileiro e alerta para os riscos da pressão de jogar em casa.
Críticas após início difícil e um recado de quem já esteve no topo
O cenário é o Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro, poucas horas depois de João Fonseca deixar o Rio Open na segunda rodada. O torneio marca o começo de uma temporada que o cerca de expectativas e que, até aqui, frustra parte da torcida. A derrota precoce acende críticas nas redes e em comentaristas que tratam cada jogo como um veredito sobre o futuro do jovem carioca.
Agassi observa o movimento de longe, mas fala com a autoridade de quem vive o circuito profissional desde o fim dos anos 1980 e sabe o peso da vitrine. Para ele, o debate em torno de Fonseca se desvia do que realmente importa. “Antes de mais nada eu diria para João encarar isso como um grande elogio”, afirma o norte-americano. “Também diria para ele não viver sob as expectativas dos outros, sua responsabilidade é tentar sempre evoluir, sabendo separar o que precisa fazer e as expectativas ao seu redor.”
O conselho chega em um momento sensível. Aos 18 anos, Fonseca se firma como uma das maiores promessas do tênis brasileiro desde Gustavo Kuerten, campeão de Roland Garros em 1997, 2000 e 2001. Cada passo do carioca vira medição de potencial, especialmente quando os resultados imediatos não acompanham o entusiasmo do público e de patrocinadores.
Foco no processo, não no placar
Agassi insiste em deslocar a conversa do placar para o processo. Em meio a quadras cheias e cobrança crescente, ele aponta para o que considera a base de uma carreira longa. “Às vezes é difícil, mas você não pode se apegar apenas às vitórias e sim no que precisa fazer para melhorar”, diz. Oito vezes campeão de Grand Slam, o ex-número 1 fala com propriedade sobre altos e baixos, lesões, mudanças de técnico e fases em que chegou a flertar com a aposentadoria.
No caso de Fonseca, o norte-americano destaca o que vê nos bastidores. “Eu o conheço o suficiente para dizer que, apesar de ser jovem, ele é mais maduro do que sua idade. É emocionalmente inteligente e estável.” A avaliação vai na contramão do discurso que reduz o tenista ao resultado da semana e o expõe a julgamentos diários. Agassi reforça que, aos 18 anos, a prioridade é construir base física, técnica e mental para sustentar anos de circuito, e não responder a cada comentário após uma derrota em fevereiro.
O recado tem impacto direto sobre quem acompanha o brasileiro de perto. Técnicos, preparadores físicos e psicólogos de atletas de alto rendimento repetem, há pelo menos uma década, a necessidade de blindar jovens talentos da oscilação emocional provocada por redes sociais e programas esportivos. Em um calendário que pode somar mais de 25 torneios por ano, a leitura isolada de um resultado ignora o processo de adaptação a diferentes pisos, fusos horários e níveis de adversário.
Pressão em casa: vantagem ou armadilha
A discussão sobre João Fonseca ganha um elemento extra no Rio: a pressão de jogar em casa. O público lota as arquibancadas, torce por pontos longos, reage a cada erro e transforma o torneio em vitrine nacional. Para muitos, essa energia é combustível. Para outros, vira peso. Agassi descreve o dilema com franqueza rara. “É uma coisa muito pessoal, alguns jogam melhor e outros não. Às vezes a torcida pode tirar o melhor do tenista, mas também pode pressionar demais para fazer o seu melhor”, explica.
O norte-americano admite que nem sempre administra bem o mesmo tipo de cenário. “Para mim, era algo 50-50, às vezes a torcida em casa me deu muita força, mas em outras eu queria dar demais. Eu sempre gostei, mas nem sempre lidei tão bem.” Ao expor a própria vulnerabilidade, o ex-líder do ranking relativiza o julgamento sobre Fonseca e outros jovens que atravessam fases de adaptação. A mensagem é clara: a exigência em casa é sempre alta, mas a reação emocional é individual e não deveria ser motivo para rótulos apressados.
A fala dialoga com uma preocupação crescente no esporte de alto nível: a saúde mental dos atletas. Casos recentes no tênis, como os de Naomi Osaka e Nick Kyrgios, escancaram que pressão contínua, somada à cobrança por resultados e exposição constante, pode levar a afastamentos prolongados, crises de ansiedade e até pausa completa nas competições. No Brasil, o debate ainda engatinha, mas cada declaração de um nome como Agassi ajuda a puxar a conversa para o centro da quadra.
Expectativas, carreira longa e o que vem pela frente
O impacto imediato das palavras de Agassi é aliviar o ambiente em torno de João Fonseca, ainda que por um momento. Ao chamar de “elogio” a alta expectativa sobre o brasileiro, ele tenta transformar pressão em combustível e deslocar o foco para a rota de longo prazo. “Todos esperam que ele siga o caminho de ficar cada vez melhor”, resume. Em um circuito em que muitos tenistas atingem o ápice perto dos 26 ou 27 anos, cobrar estabilidade total de um jogador em início de trajetória soa, no mínimo, desproporcional.
Na prática, a fala também mira quem está fora da quadra. Torcedores, comentaristas, dirigentes e patrocinadores influenciam o ambiente em que Fonseca vai se desenvolver nos próximos anos. Um discurso mais equilibrado, que valoriza evolução técnica e emocional, tende a reduzir a margens para ataques pessoais a cada derrota e a fortalecer a rede de apoio ao atleta. Em um país que ainda busca seu próximo grande nome desde o auge de Guga, essa mudança de chave pode fazer a diferença entre queimar um talento cedo e permitir que ele amadureça no próprio tempo.
O Rio Open termina em poucos dias, mas a temporada de 2026 está só no começo. Fonseca terá meses de calendário pela frente, entre torneios no saibro sul-americano, competições em quadras duras e tentativas de avançar em chaves maiores na Europa e nos Estados Unidos. O tamanho real do impacto do conselho de Agassi vai aparecer nesse percurso, longe da euforia e do barulho do torneio em casa. A pergunta que fica é se o entorno do jovem brasileiro será capaz de ouvir o mesmo recado e dar a ele o tempo que o próprio Agassi, um dia, precisou para se tornar o jogador que o mundo conheceu.
