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Advogado de Lulinha chama pedido de prisão na CPMI do INSS de manobra eleitoral

O advogado Marco Aurélio de Carvalho reage nesta quinta-feira (26) ao pedido de prisão de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, feito na CPMI do INSS. Ele acusa a deputada Coronel Fernanda (PL-MT) de usar a comissão para produzir factoides eleitorais e atacar a honra do filho do presidente Lula.

Tensão cresce na CPMI às vésperas do calendário eleitoral

A ofensiva ocorre em Brasília, em um momento em que o Congresso entra em clima de pré-campanha para as eleições municipais e já mira 2026. O requerimento apresentado pela deputada bolsonarista pede a prisão de Lulinha e também de Frei Chico, irmão de Luiz Inácio Lula da Silva, no âmbito da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga irregularidades no INSS.

Ao comentar o caso, Marco Aurélio, que coordena o grupo Prerrogativas e atua como conselheiro jurídico de Fábio Luís, não poupa adjetivos. Ele chama o pedido de “burrice” e enxerga na iniciativa um movimento calculado para acender a base bolsonarista e desgastar o governo em pleno ano eleitoral. “É mais uma tentativa diversionista de provocar factoides, com objetivo de provocar prejuízos eleitorais para o PT e para o governo e para atacar a honra do filho do presidente”, afirma.

O movimento da oposição se apoia na visibilidade da CPMI, instalada no ano passado para apurar suspeitas de fraudes, demora em concessões e prejuízos bilionários na Previdência. Em vez de centrar fogo na gestão do INSS, a ala bolsonarista tenta arrastar figuras ligadas ao presidente para o centro do palco, repetindo a estratégia usada em CPIs recentes, como a da Covid, em 2021.

Disputa política domina comissão criada para apurar INSS

A CPMI do INSS nasce, oficialmente, para investigar gargalos que afetam mais de 39 milhões de beneficiários e aposentados em todo o país. A fila de pedidos de aposentadoria e auxílios, que supera um milhão de processos em determinados momentos, e denúncias de fraudes que somam bilhões de reais em prejuízos, justificam o foco original. Na prática, o colegiado se converte em mais um palco do embate entre governo e oposição.

Ao incluir Lulinha e Frei Chico em pedidos de prisão, Coronel Fernanda amplia esse conflito. Aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, a deputada tenta associar o sobrenome Lula à ideia de privilégio e corrupção, discurso que ajudou a moldar as eleições de 2018 e segue mobilizando parte do eleitorado. Não há, até aqui, ordem judicial ou mandado contra os dois. O requerimento tramita apenas como ato político dentro da comissão, que não tem poder para decretar prisões sem respaldo da Justiça.

Marco Aurélio tenta enquadrar o episódio nesse contexto mais amplo. Para ele, a estratégia é reciclar suspeitas antigas envolvendo a família do presidente, mesmo sem decisões judiciais que sustentem uma prisão. O advogado insiste que o objetivo é alimentar manchetes rápidas e vídeos curtos para redes sociais, não avançar na apuração sobre o INSS. “Usam a CPMI como palanque, não como instrumento sério de investigação”, critica em conversa com a reportagem.

O timing reforça a leitura política. A poucos meses das convenções partidárias e a menos de um ano do início oficial das campanhas nacionais, cada gesto em Brasília é calculado. Um pedido de prisão, mesmo sem efeito imediato, rende espaço em programas de TV, rádios e portais, e pode ser transformado em material de campanha em questão de horas.

Impacto eleitoral e risco de nova escalada de polarização

A reação da defesa de Lulinha ecoa dentro e fora do Congresso. Parlamentares do PT e de partidos da base avaliam que a iniciativa de Coronel Fernanda tenta reproduzir o clima de cerco judicial que marcou as eleições de 2018, quando Lula estava preso e inelegível. Agora, com o presidente de volta ao Planalto, o alvo passa a ser a família, em uma tentativa de contornar a recuperação da imagem do petista em parte do eleitorado.

Na prática, o episódio deve reforçar discursos já conhecidos. A oposição falará em impunidade e tentará colar em Lulinha a pecha de beneficiário de esquemas, mesmo sem condenações recentes. O governo e seus aliados voltarão a acusar o bolsonarismo de usar investigações parlamentares como arma de campanha, esvaziando o foco em problemas concretos, como o tempo médio de análise de benefícios ou a fila de perícias médicas.

O embate também testa o limite institucional das CPIs. Criadas para apurar fatos determinados e sugerir responsabilizações, elas vêm sendo usadas com frequência para produzir narrativas políticas com forte apelo midiático. Cada requerimento de convocação, quebra de sigilo ou pedido de prisão vira munição para vídeos, hashtags e discursos de plenário, muitas vezes com impacto maior na opinião pública do que no próprio relatório final.

Especialistas em direito constitucional ouvidos por parlamentares lembram que a comissão não pode substituir o Judiciário. Qualquer prisão preventiva ou em flagrante depende de critérios legais estritos, não de maioria simples em colegiado político. Mesmo assim, o simples protocolo de um pedido desse tipo costuma bastar para incendiar o debate, como se vê agora com Lulinha.

Próximos passos na CPMI e na disputa de narrativas

O presidente da CPMI do INSS deve decidir, nas próximas sessões, se coloca o requerimento em votação ou se o arquiva por falta de base jurídica. A decisão, prevista para as próximas semanas, tende a expor o racha interno: de um lado, a ala que aposta no desgaste da família Lula; de outro, deputados e senadores que querem preservar algum grau de foco nas falhas estruturais do sistema previdenciário.

A defesa de Fábio Luís prepara, em paralelo, respostas nas esferas política e jurídica. Marco Aurélio avalia representar contra Coronel Fernanda por abuso de prerrogativas parlamentares e calúnia, caso o pedido avance. Nas redes sociais, militantes pró-governo e bolsonaristas já se mobilizam, com trocas de acusações que tendem a crescer à medida que a CPMI se aproxima da fase final de trabalhos e da redação de seu relatório.

O desfecho ainda é aberto. Se a comissão rejeita o pedido de prisão, reforça o discurso de que a manobra fracassa e expõe o uso político da estrutura. Se aceita, mesmo sem efeito prático imediato, oferece novo combustível para a oposição explorar a imagem de um governo pressionado por suspeitas sobre familiares. Em qualquer cenário, o caso Lulinha se torna mais um capítulo da disputa por narrativas que marcará o caminho até as urnas.

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