Adrilles Jorge vai a pé a Brasília com infecção intestinal e uso de fraldas
O vereador paulistano Adrilles Jorge (União Brasil) decide ignorar recomendação médica e anuncia, nesta sexta-feira (24/1), que participará da caminhada rumo a Brasília liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Mesmo com uma infecção intestinal, ele afirma que seguirá o trajeto usando fraldas e, se preciso, cadeira de rodas.
Ato de fé, desafio físico e apoio a Bolsonaro
A caminhada sai de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, e tem chegada prevista a Brasília neste domingo, 25 de janeiro de 2026. O grupo reúne parlamentares, influenciadores e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em um percurso carregado de simbolismo religioso e discurso político contra decisões recentes do Judiciário e do Congresso.
Adrilles aparece em vídeo divulgado nas redes sociais na quinta-feira (23/1) para contar que recebeu diagnóstico de infecção intestinal e que a médica havia recomendado ao menos cinco dias de repouso. Diz que, inicialmente, estava impedido de viajar. Mesmo assim, decide interromper a recuperação após acompanhar relatos de outros participantes da mobilização.
“Eu realmente estava convalescente, mas, inspirado por tantos amigos, pelo próprio Nikolas, Magno Malta, Holiday e outros, com todas as suas limitações físicas, resolvi interromper o meu repouso”, afirma. A fala mira diretamente a base bolsonarista e apresenta o esforço físico como prova pública de compromisso com a causa.
Na gravação, o vereador mistura referências bíblicas e filosóficas para justificar a decisão. Classifica a caminhada como um “caminho de libertação do país” e associa o sacrifício pessoal ao que chama de reconstrução da “terra prometida do Brasil”. O tom reforça o enquadramento da mobilização como ato de fé, mais do que simples protesto político.
Fraldas, diarreia e a política do sacrifício
O detalhe que transforma o gesto em episódio viral é a forma como Adrilles decide lidar com a infecção intestinal. Ele diz abertamente que seguirá a pé usando fraldas, pronto para enfrentar eventuais crises no caminho. “Enfrentar toda sorte de doença, toda sorte de limitação física, toda sorte de dor é uma provação do sofrimento para alcançar aquilo que na Bíblia está chamado de terra prometida”, declara.
Em seguida, radicaliza o discurso. “Uma doença, uma caganeira, uma diarreia, uma infecção, uma paralisia, uma dor não pode nos parar no meio do caminho, porque a dor faz parte da vida. Então, vou indo lá, com fralda, com cadeira de rodas emprestada, cagando e andando”, completa. A escolha das palavras, deliberadamente crua, rompe com a liturgia usual de cargos públicos e alimenta debates sobre os limites da exposição pessoal na política.
A caminhada, apresentada pelos organizadores como uma romaria cívica, mira objetivos concretos. Entre eles, a pressão pela derrubada de vetos ao chamado PL da Dosimetria, que trata da definição de penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, e a defesa de apoiadores presos pelos ataques às sedes dos Três Poderes. Os participantes também querem reposicionar Bolsonaro como líder perseguido e referência moral de um campo que se vê deslocado das instâncias de poder federal.
Na outra ponta, partidos de oposição já acionam instituições para conter o ato. Siglas ligadas ao campo petista buscam a Polícia Rodoviária Federal para tentar suspender ou limitar a mobilização, alegando riscos à segurança e possível desrespeito a regras de trânsito em rodovias federais. O embate leva a disputa para o terreno jurídico e amplia a repercussão de uma marcha que, em condições normais, poderia ficar restrita às bolhas políticas nas redes.
Repercussão, cálculo político e próximos passos
A decisão de Adrilles de caminhar doente, de fralda e sob risco de piora do quadro de saúde ganha tração imediata nas redes sociais. O vídeo em que ele relata a infecção intestinal e promete seguir “cagando e andando” circula em perfis bolsonaristas e opositores, com leituras opostas. Para simpatizantes, o gesto vira prova de coragem e de fé. Para críticos, passa a impressão de oportunismo e de espetacularização do sofrimento físico para fins eleitorais.
Aos 50 anos, vereador em São Paulo por um partido de centro-direita e ex-comentarista de TV, Adrilles busca consolidar espaço próprio em uma base já disputada por nomes como o próprio Nikolas Ferreira, Magno Malta e influenciadores digitais. A adesão à caminhada, mesmo contrariando orientação médica, funciona como senha de fidelidade à ala mais mobilizada do bolsonarismo. O custo é o risco à saúde e a associação permanente a um episódio que mistura religião, política e escatologia.
O ato também testa o alcance atual da capacidade de mobilização de Bolsonaro fora dos períodos eleitorais. O percurso iniciado em 24 de janeiro, com chegada estimada para o dia 25, ocorre em um contexto em que o ex-presidente enfrenta decisões judiciais desfavoráveis e vê aliados condenados por participação nos ataques de 8 de janeiro. A marcha se soma a uma sequência de manifestações que buscam reverter, na opinião pública, a imagem de um grupo responsável por violência institucional.
Na prática, a mobilização pode influenciar futuras agendas de rua, calibrar o tom de confrontação com o Supremo Tribunal Federal e o governo federal e medir o fôlego de lideranças emergentes à direita. Se a chegada a Brasília conseguir reunir um número expressivo de apoiadores, tende a reforçar a estratégia de transformar trajetos físicos em narrativas de provação e renascimento político.
A presença de um vereador debilitado, amparado por fraldas e eventual cadeira de rodas, adiciona um elemento de dramaturgia à cena que se desenha para o domingo na capital federal. Resta saber se essa aposta no sacrifício público resultará em ganho político duradouro ou ficará registrada apenas como um episódio de exposição extrema em um país acostumado a ver a disputa pelo poder também como espetáculo.
