Adolescente morta em ataque a padaria é velada em Ribeirão das Neves
Familiares e amigos se despedem na manhã desta sexta-feira (6/2) de Nathielly Kamilly Fernandes Faria, 16 anos, no Cemitério Porto Seguro, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A jovem é uma das três vítimas do ataque a tiros em uma padaria no bairro Lagoa, na noite de quarta-feira (4/2), que também matou a cliente Ione Ferreira Costa, 56, e a colega de trabalho Emanuelly Geovanna, 14.
Dor no velório e relato de um futuro interrompido
O salão funerário amanhece cheio. Parentes chegam cedo, muitos em silêncio, alguns com fotografias nas mãos. O caixão de Nathielly, cercado por coroas de flores, vira ponto de encontro de abraços longos e conversas sussurradas. A mãe da adolescente, Camila Fernandes, quase não fala. Entre lágrimas, resume o que sente em um pedido único: justiça.
A adolescente é lembrada como carinhosa, trabalhadora e determinada a retomar os estudos. “Ela era uma menina meiga, trabalhadora, cheia de sonhos. Meu coração está em pedaços. O que fizeram com a minha sobrinha é lamentável. A gente só quer justiça, de Deus e da Justiça da Terra”, diz a tia e madrinha, Silvana Estrocate, com a voz embargada.
A prima, Eduarda Carolina, se esforça para organizar as ideias, mas a revolta interrompe as frases. “É uma dor que eu não desejo para ninguém. Ela era carinhosa com todo mundo, estava começando a trabalhar, cheia de planos. De repente, uma pessoa chega e faz o que fez… isso revolta a gente. A justiça não traz ela de volta, mas conforta um pouco, porque foi uma crueldade muito grande”, afirma.
Amiga da família, Natalia Alves lembra a conversa com Nathielly poucas horas antes do crime. “No dia do crime, ela falava: ‘Vou comprar minhas coisas e voltar a estudar’. Ela estava muito feliz. Era um doce de pessoa”, conta. Em seguida, mira a responsabilização: “Ele não deu a ela a chance de viver a própria vida. A gente espera que a lei cobre e que a polícia fique em cima para que isso não se repita com outras meninas.”
Execução em padaria e disputa por versões
O ataque acontece por volta da noite de quarta-feira, dentro de uma padaria de bairro onde as três vítimas trabalham ou circulam diariamente. Segundo relato feito à Polícia Militar, um homem chega de capacete, entra no estabelecimento e dispara primeiro contra Nathielly. Em seguida, atira contra Ione, que era cliente, e por último contra Emanuelly, que teria implorado para não morrer. O atirador, de acordo com a testemunha, debocha do apelo e foge em uma motocicleta.
Nathielly e Ione morrem ainda no local. Emanuelly é levada em estado grave ao Hospital Risoleta Neves, em Belo Horizonte, mas não resiste. Em menos de 24 horas, a violência deixa três famílias em luto, duas delas marcadas pela perda de adolescentes que começavam a construir algum tipo de independência financeira.
Investigações iniciais apontam o ex-namorado de Nathielly, um adolescente de 17 anos, como principal suspeito. Ele é apreendido e encaminhado à Promotoria de Justiça de Ribeirão das Neves, passa por audiência e aguarda vaga em um centro socioeducativo. O caso, registrado como homicídio qualificado por motivo fútil, ainda passa por novas diligências da Polícia Civil, que tenta confirmar a motivação e a dinâmica do ataque.
Familiares da adolescente relatam um relacionamento marcado por idas e vindas e episódios de agressões verbais. “Pelo que a gente sabia, eles terminavam e voltavam. Ele xingava ela, tratava mal em algumas ligações. Isso já deixava a gente preocupada. Ela tinha me dito que já tinha terminado”, conta a prima Eduarda, que vê no crime um desfecho extremo de uma relação atravessada por controle e ciúmes.
A mãe do suspeito, porém, nega que o filho seja o atirador. Em depoimento, afirma que os dois estavam na casa da avó do jovem na noite do crime e cita imagens de câmeras de segurança da vizinhança que mostrariam os momentos em que ele sai e volta à residência. Diz ainda que pediu ao filho para ir a uma mercearia comprar cigarros e que ele retorna poucos minutos depois, com comprovante da compra, o que, segundo ela, tornaria improvável ir até a padaria e voltar no intervalo registrado.
Informações preliminares indicam que uma testemunha também demonstra dúvidas sobre a autoria dos disparos. Outras pessoas, porém, dizem à polícia que o ex-namorado teria ido à padaria por ciúmes e iniciado uma discussão antes dos tiros. A investigação trabalha com esses relatos conflitantes enquanto recolhe imagens de câmeras, laudos balísticos e novos depoimentos.
Violência contra meninas e pressão por respostas
O caso provoca reação imediata na comunidade do bairro Lagoa. Moradores se organizam para acompanhar o inquérito e cobram proteção para jovens que vivem relacionamentos marcados por ameaças, ciúmes excessivo e agressões não denunciadas. Em poucos dias, escolas, igrejas e coletivos locais passam a discutir formas de identificar sinais de violência entre adolescentes.
Especialistas ouvidos por autoridades em casos semelhantes costumam apontar que a escalada da violência de gênero começa em situações que, à primeira vista, parecem “brigas comuns de casal”. Controle de roupas, proibição de amizades, invasão de redes sociais e xingamentos em ligações são frequentemente tratados como ciúmes, não como risco. Em Ribeirão das Neves, familiares de Nathielly reconhecem agora, em retrospecto, que esses sinais estavam presentes.
O debate nacional sobre feminicídio ganha novo fôlego às vésperas do lançamento, pelo governo federal, de um pacto de enfrentamento ao assassinato de mulheres. Em 2023, o Brasil registra alta no número de feminicídios, segundo dados de secretarias de segurança estaduais, com casos envolvendo cada vez mais vítimas jovens. Embora o inquérito em Neves ainda não tenha tipificado o ataque como feminicídio, a suspeita de crime ligado à condição de gênero e ao controle sobre a vida da adolescente acompanha cada fala de parentes e amigos.
A comoção se espalha também pelos outros dois velórios marcados para esta sexta-feira. O corpo de Ione Ferreira Costa é velado no Cemitério da Saudade, na Região Leste de Belo Horizonte, com sepultamento previsto para as 14h. Emanuelly Geovanna é velada em uma igreja no bairro Piratininga, em Venda Nova, e enterrada às 16h30 no Cemitério da Paz. Três despedidas em menos de um dia expõem o impacto concentrado de um único ataque.
Investigação em curso e desafio de evitar novas tragédias
A Polícia Civil mantém em sigilo parte das diligências e informa que ainda colhe depoimentos, analisa câmeras de segurança e tenta reconstruir, minuto a minuto, o trajeto do atirador. A avaliação inicial é de que o modo de agir indica conhecimento prévio das vítimas e do ambiente da padaria, o que reforça a linha de investigação que mira o círculo íntimo de Nathielly.
O adolescente apreendido deve permanecer sob custódia enquanto a Justiça avalia medidas socioeducativas, que podem incluir internação por até três anos, caso fique comprovado o envolvimento. A defesa insiste na versão de que ele não deixa a casa da avó a tempo de ir ao local do crime, e já indica que deve buscar perícias independentes em imagens e registros de deslocamento.
Autoridades locais discutem ações emergenciais para ampliar canais de denúncia e apoio a meninas em relações abusivas, inclusive nas escolas públicas de Ribeirão das Neves. O desafio é transformar a comoção em política permanente de prevenção, com informação acessível para adolescentes, famílias e comerciantes que convivem com esses jovens todos os dias.
Enquanto o inquérito busca respostas e o Ministério Público acompanha o caso, três famílias tentam reorganizar a vida diante de cadeiras vazias à mesa. A cidade volta para casa nesta sexta-feira com uma pergunta que atravessa cada conversa: quantos sinais ainda serão ignorados até que a violência deixe de ser descoberta apenas quando é tarde demais?
