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Adolescente é estuprada por sete após sentença de ‘tribunal do tráfico’ no RJ

Uma adolescente é estuprada por sete pessoas na Baixada Fluminense, no Rio, após ser condenada por um chamado “tribunal do tráfico”. O crime, revelado pela Polícia Civil nesta quarta-feira (11), ocorre depois de ela ser confundida com a namorada de um integrante de facção rival.

Violência extrema em uma região sob domínio do crime

A jovem, que não tem a identidade revelada por questão legal e de segurança, mora perto da comunidade Trio de Ouro, área conflagrada de São João de Meriti. Ela visita parentes quando é capturada por criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP), que controlam pontos de venda de drogas na região. A suspeita, sustentada por boatos internos, é de que ela seja companheira de um integrante do Comando Vermelho (CV), facção rival.

De acordo com a investigação, os criminosos submetem a adolescente a uma espécie de julgamento informal, o “tribunal do tráfico”, estrutura usada por facções para impor penas a moradores e rivais. A sentença, segundo a polícia, é o estupro coletivo. Seis adultos participam do crime, entre eles uma mulher que segura a vítima para impedir reação, além de um adolescente que também a violenta sexualmente.

A sessão de violência só termina quando um dos agressores percebe que houve erro na identificação da jovem. Mesmo assim, o ataque já causa danos físicos e emocionais profundos. A adolescente procura atendimento médico, e a equipe de saúde aciona a Polícia Civil. O relato detalhado dela se torna a base do inquérito que, em poucos dias, leva à identificação de suspeitos e à deflagração de uma operação na Baixada.

Operação policial e disputa entre facções

A Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) da Baixada Fluminense conduz o caso e obtém mandados de prisão contra cinco envolvidos, além de uma ordem de busca e apreensão para o adolescente investigado. A operação é desencadeada nesta quarta-feira em São João de Meriti e Belford Roxo, municípios que concentram casos recorrentes de violência ligada ao crime organizado. A polícia confirma que o grupo é ligado ao Terceiro Comando Puro.

Segundo a corporação, dois dos sete já não estão em circulação. Um deles é preso na semana anterior, após ser agredido em circunstâncias ainda apuradas. Outro acaba executado por bandidos. As investigações tentam esclarecer se a morte tem relação com o estupro ou com disputas internas do tráfico. “É um crime que expõe o grau de barbárie a que chegou a atuação das facções na Baixada”, afirma, sob reserva, um investigador ouvido pela reportagem.

O caso reacende o alerta sobre o poder paralelo de grupos armados em áreas pobres da região metropolitana. O chamado “tribunal do tráfico” funciona, na prática, como uma justiça clandestina, que julga desde pequenas desavenças até supostas traições a facções rivais. Moradores relatam que decisões podem incluir espancamentos, expulsões forçadas, mortes e, como agora, violência sexual usada como arma de controle e punição.

Organizações de direitos humanos que atuam no Rio lembram que episódios semelhantes se repetem na Baixada há pelo menos duas décadas, com variação nas siglas das facções, mas com a mesma lógica de domínio territorial. A fronteira entre civis e alvos de guerra se torna difusa, e qualquer suspeita, ainda que infundada, pode ser suficiente para condenar alguém. “É a institucionalização do terror”, resume uma defensora pública ouvida em condição de anonimato.

Impacto sobre a vítima e pressão por respostas do Estado

O estupro coletivo se torna mais um ponto de tensão em uma região já marcada por indicadores altos de violência contra mulheres. Dados do Instituto de Segurança Pública mostram que a Baixada Fluminense concentra, ano após ano, algumas das maiores taxas de estupro e feminicídio do estado. Em 2025, por exemplo, a região registra centenas de casos, muitos deles jamais noticiados.

A adolescente passa por atendimento médico e psicológico e é incluída em protocolos de proteção previstos para casos de violência sexual. A equipe de saúde aciona imediatamente a polícia, como determina a legislação, e orienta a família sobre medidas de segurança. A família, segundo fontes da investigação, teme represálias e avalia a possibilidade de deixar a região. “Ela é vítima duas vezes: do crime e do medo de continuar vivendo sob o domínio dos mesmos grupos que a atacaram”, diz uma fonte ligada à rede de proteção.

O episódio também pressiona as autoridades estaduais a revisar a atuação na Baixada. Especialistas em segurança pública defendem que operações pontuais, com cumprimento de mandados, precisam ser acompanhadas de ações estruturais, como retomada de serviços públicos, presença constante de policiamento comunitário e programas específicos para mulheres e adolescentes em áreas dominadas por facções. Sem isso, avaliam, o vácuo de poder segue ocupado pelo crime.

O governo do Rio e a Secretaria de Polícia Civil são cobrados por organizações da sociedade civil a apresentar, nas próximas semanas, um plano mais amplo de enfrentamento à violência sexual em territórios sob influência do tráfico. Entidades pedem ainda transparência sobre o andamento do inquérito, proteção efetiva à adolescente e responsabilização rápida dos autores.

Próximos passos da investigação e risco de escalada

A Deam segue ouvindo testemunhas e coletando provas, como laudos médicos e eventuais registros de comunicação entre os traficantes. A expectativa é concluir a primeira fase do inquérito em poucas semanas, com o indiciamento formal dos suspeitos que ainda não foram presos. O adolescente apontado como participante do estupro pode ser submetido a medidas socioeducativas, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê internação por até três anos em casos graves.

Autoridades de segurança avaliam, em caráter reservado, o risco de que a operação provoque reação de facções rivais e nova escalada de confrontos na Baixada. O Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho travam, há anos, uma disputa por controle de pontos estratégicos, com impacto direto sobre moradores que ficam no fogo cruzado. A repercussão do estupro cometido por engano expõe a vulnerabilidade de qualquer pessoa que circule em áreas dominadas por esses grupos.

O caso se soma a outros episódios recentes que colocam a violência contra mulheres e meninas no centro do debate público no estado. A pressão sobre o sistema de justiça e de segurança tende a crescer à medida que o inquérito avança e detalhes do crime vêm à tona. O desfecho da investigação e a capacidade do Estado de proteger a adolescente e punir os responsáveis indicam não apenas o rumo deste caso específico, mas também o limite real do poder das facções sobre a vida de quem vive na Baixada Fluminense.

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