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Adolescente é estuprada após ser condenada por “tribunal do tráfico” no RJ

Uma adolescente é vítima de estupro coletivo por sete criminosos na Baixada Fluminense após ser condenada por um “tribunal do tráfico”. O caso vem a público nesta quarta-feira (11) e expõe o poder paralelo de facções na região.

Sentença do crime organizado substitui o Estado

A jovem, moradora das proximidades da comunidade Trio de Ouro, em São João de Meriti, visita parentes quando é capturada por traficantes do Terceiro Comando Puro. Eles a acusam de ser namorada de um integrante do Comando Vermelho, facção rival, e a submetem a uma espécie de julgamento sumário, sem qualquer prova ou possibilidade de defesa.

Em poucos minutos, o chamado “tribunal do tráfico” decide que a adolescente deve ser punida. A sentença se traduz em violência sexual extrema, cometida por seis adultos, entre eles uma mulher que segura a vítima, e um adolescente. A agressão só termina quando um dos criminosos percebe o erro e admite que a jovem não tem ligação com o rival apontado.

O episódio ocorre em área onde facções estabelecem regras próprias, controlam horários, circulação de moradores e até conflitos familiares. Na prática, esses grupos se colocam acima da lei, aplicam castigos físicos, expulsam moradores e determinam mortes em processos internos que eles chamam de “tribunais”.

A rotina de violência não é novidade na Baixada Fluminense, mas o estupro coletivo contra uma adolescente, motivado por uma suposição errada, aprofunda a sensação de vulnerabilidade. Moradores vivem entre o medo de represália do tráfico e a desconfiança na capacidade do Estado de garantir segurança mínima.

Investigações avançam após atendimento médico

A reação da adolescente depois do ataque rompe a barreira do silêncio que costuma cercar esse tipo de crime. Ferida e em choque, ela procura atendimento médico, etapa fundamental para a coleta de provas e registro oficial da agressão. A equipe de saúde aciona a Polícia Civil, que passa a tratar o caso como prioridade.

Nesta quarta-feira (11), a Delegacia de Atendimento à Mulher deflagra uma operação em São João de Meriti e Belford Roxo. Investigadores apontam sete envolvidos: seis adultos e um adolescente. A Justiça expede cinco mandados de prisão e um de busca e apreensão contra o menor de idade. Segundo a investigação, um dos agressores já está preso desde a semana anterior, após ser espancado em circunstâncias ainda apuradas, e outro é morto por criminosos.

Policiais ouvidos sob condição de anonimato afirmam que o caso ilustra a lógica de punição rápida, sem checagem, que domina territórios sob controle de facções. “Uma suspeita vira condenação em questão de minutos. Não há contraditório, não há defesa, não há direito algum”, diz um investigador que atua na Baixada há mais de dez anos.

Delegados reforçam que a vítima, apesar de jovem, decide colaborar desde o início com as autoridades. Ela descreve o modo de atuação do grupo, aponta o local onde é mantida e identifica parte dos envolvidos. As informações sustentam pedidos de prisão e direcionam buscas em endereços usados por traficantes para se esconder.

O caso, divulgado em 11 de fevereiro de 2026, chega às redes sociais e a veículos de imprensa poucas horas após a operação policial. Em comunidades vizinhas, o relato circula por mensagens de celular e provoca indignação e medo. Famílias relatam que passam a restringir a circulação de adolescentes e crianças, mesmo em curtas distâncias dentro do próprio bairro.

Violência sexual e poder paralelo na Baixada

A agressão expõe a combinação de dois fenômenos que se cruzam há anos na Baixada Fluminense: a violência sexual e o domínio territorial do tráfico. Dados recentes da segurança pública apontam que delegacias especializadas da região registram, ano após ano, dezenas de casos de estupro envolvendo crianças e adolescentes, muitas vezes ligados a contextos de crime organizado ou ausência total do Estado.

Especialistas em segurança lembram que, quando facções assumem o controle de um território, as vítimas de violência sexual ficam ainda mais desamparadas. “Quem comete o crime é, em muitos casos, quem dita as regras locais. A vítima teme denunciar, teme sair de casa e teme ser punida de novo”, afirma uma pesquisadora de políticas públicas ouvida pela reportagem.

O chamado “tribunal do tráfico” funciona como uma paródia de justiça, segundo investigadores. Não há qualquer critério formal. A suspeita de que a jovem seria ligada ao Comando Vermelho, facção que disputa pontos de venda de drogas com o Terceiro Comando Puro, basta para selar o destino dela. Nesse ambiente, uma confusão de identidade se converte em estupro coletivo.

O caso ganha repercussão nacional e volta a expor a fragilidade de políticas de proteção para adolescentes em áreas conflagradas. Programas de atendimento psicológico, abrigamento e mudança de endereço dependem de articulação entre Estado, município e União, que raramente acontece com rapidez. A demora agrava o trauma e aumenta o risco de novas violações.

Na ponta, quem sofre são moradores comuns, que não têm poder de escolha sobre quem controla o bairro. A adolescente atacada simboliza esse cotidiano de risco permanente, em que uma ida para visitar parentes se transforma, em questão de horas, em um episódio de violência extrema.

Pressão por respostas e o que pode mudar

A operação da Polícia Civil mira, num primeiro momento, a prisão dos sete envolvidos. Delegados afirmam que novas diligências podem identificar outros participantes do “tribunal” que decretou a falsa condenação da jovem. A apuração sobre a morte de um dos suspeitos também entra no radar, já que indica uma possível queima de arquivo dentro da própria facção.

Autoridades locais admitem, reservadamente, que o caso reforça a necessidade de ampliar a presença do Estado na Baixada Fluminense, com policiamento contínuo, serviços públicos mínimos e proteção específica para mulheres e adolescentes. Organizações da sociedade civil cobram que a investigação avance até a cadeia de comando da facção, e não se limite aos executores diretos.

O desafio é transformar a comoção em política permanente. Sem mudança estrutural, a lógica do “tribunal do tráfico” tende a se repetir em outros becos e vielas. A adolescente, hoje sob acompanhamento médico e psicológico, ainda enfrenta um longo percurso de reconstrução de rotina e identidade.

O inquérito segue em andamento, com expectativa de novas oitivas e possíveis denúncias do Ministério Público nas próximas semanas. A questão que permanece é se o Estado conseguirá, desta vez, romper o ciclo em que o erro de criminosos vale mais do que a vida de uma moradora comum.

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