Acordo Mercosul-UE zera imposto para 5 mil produtos brasileiros
O governo brasileiro anuncia, em 18 de janeiro de 2026, um acordo comercial que zera tarifas de cerca de 5 mil produtos exportados para a União Europeia. A medida, firmada no âmbito do Mercosul, passa a valer neste ano e mira um salto de competitividade para a indústria nacional.
Acordo destrava acesso ao maior mercado do mundo
O entendimento entre Mercosul e União Europeia encerra anos de negociações intermitentes e reposiciona o Brasil em uma das rotas mais disputadas do comércio global. A decisão elimina tarifas de importação que, em alguns casos, chegavam a 20% ou mais sobre produtos brasileiros que desembarcam em portos europeus.
Na prática, o acordo abre espaço para que empresas nacionais disputem clientes na Europa em condições mais próximas às de concorrentes asiáticos, norte-americanos e de outros parceiros preferenciais do bloco europeu. Em vez de falar em “tarifa externa comum” ou siglas técnicas, o impacto se traduz em um dado simples: milhares de itens deixam de pagar imposto na entrada em 27 países europeus.
O pacote cobre aproximadamente 5 mil linhas tarifárias, que vão de bens industriais a produtos do agronegócio de maior valor agregado. O desenho final, segundo negociadores, prioriza segmentos em que o Brasil já tem presença consolidada e setores vistos como estratégicos para a reindustrialização, como máquinas, químicos, alimentos processados e bens de consumo.
Nos bastidores, diplomatas relatam que a pressão de exportadores brasileiros cresceu após a desaceleração do comércio global nos últimos anos. A avaliação dominante em Brasília é que, sem acesso preferencial a grandes mercados, o país fica preso a ciclos de alta e baixa de commodities básicas, com pouco avanço tecnológico e menos emprego qualificado.
Competitividade, empregos e disputas internas
A aposta oficial é que a eliminação das tarifas acelera as exportações e reforça a balança comercial já em 2026. Técnicos do governo projetam impacto gradual, com aumento consistente das vendas externas ao longo de cinco a dez anos, à medida que contratos são renegociados e cadeias produtivas se ajustam às novas condições.
Setores industriais veem no acordo uma janela rara. A redução a zero de tributos na fronteira ajuda a compensar parte do chamado “custo Brasil”, que inclui logística cara, burocracia e crédito mais limitado. Em mercados em que uma diferença de 5% no preço decide um contrato multimilionário, o fim da tarifa pode ser o fator que define o fornecedor.
Empresas do agronegócio que exportam alimentos processados, bebidas e produtos com maior valor agregado também esperam ganhos. O acordo tende a incentivar a transformação local de matérias-primas que hoje saem do país quase sem processamento. Cada etapa adicional da cadeia produtiva feita no Brasil significa mais emprego formal, mais arrecadação e mais demanda por serviços como transporte, tecnologia e embalagem.
Economistas ponderam, porém, que a conquista traz desafios internos. Para competir com rivais europeus em igualdade tributária, companhias brasileiras precisam reduzir custos, investir em inovação e cumprir padrões mais rígidos de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Sem esses ajustes, o risco é que o acesso preferencial exista no papel, mas não se traduza em vendas adicionais.
O acordo também mexe com a agenda de políticas públicas. Governos estaduais e federal terão de lidar com pressões de setores que se sentem ameaçados por maior abertura e de grupos que exigem investimento em infraestrutura para aproveitar o novo cenário. Portos saturados, rodovias em más condições e burocracia aduaneira lenta podem corroer parte do ganho obtido com a tarifa zero.
Próximos passos e novas frentes de negociação
A entrada em vigor do acordo, ainda em 2026, marca apenas a primeira etapa de uma mudança mais ampla na inserção externa do Brasil. O governo vê o acerto com a União Europeia como vitrine para futuras tratativas com outros blocos, em especial na Ásia, hoje o polo mais dinâmico do comércio mundial.
Empresários e especialistas destacam que os próximos meses serão decisivos. Empresas terão de mapear quais dos cerca de 5 mil produtos contemplados oferecem maior potencial imediato, rever estratégias de preço e ampliar presença em feiras e canais de distribuição europeus. Sem essa ofensiva comercial, o ganho de competitividade pode ser capturado por concorrentes já estabelecidos.
No plano diplomático, o entendimento reforça o Mercosul como plataforma de negociação, depois de anos de críticas à lentidão do bloco. A integração com a União Europeia coloca pressão por maior coordenação de políticas entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, para evitar assimetrias que prejudiquem empresas da região.
O governo também terá de responder a uma questão central: como transformar a oportunidade em desenvolvimento sustentável, e não apenas em aumento pontual de exportações? A resposta passa por usar o impulso externo para modernizar a indústria, qualificar trabalhadores e diversificar a pauta exportadora, hoje ainda concentrada em poucos produtos.
Enquanto os primeiros contêineres embarcados sob o novo regime tarifário seguem rumo à Europa, o país testa, na prática, se consegue converter acesso privilegiado em salto de competitividade. O resultado dessa equação vai ajudar a definir que lugar o Brasil ocupará no comércio global na próxima década.
