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Acesso a dados de Vorcaro em sala-cofre frustra CPMI do INSS

Parlamentares e assessores da CPMI do INSS deixam a sala-cofre do Senado, nesta sexta-feira (13/3), com sensação de frustração. O acesso aos cerca de 400 GB de dados dos celulares do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, esbarra em senhas, arquivos criptografados e ferramentas consideradas precárias para pesquisa.

Dados sigilosos em ambiente blindado e pouco funcional

O material chega ao Congresso nas primeiras horas da manhã, depois da quebra do sigilo telemático de Vorcaro, preso desde 6 de março de 2026 após operação da Polícia Federal. Para evitar vazamentos, a CPMI determina que todo o conteúdo fique guardado em uma sala-cofre no Senado, com acesso restrito a parlamentares e técnicos credenciados.

Ao longo do dia, deputados, senadores e assessores se revezam no espaço, autorizado a funcionar até as 21h. Alguns passam poucas horas diante das telas. Outros, como um assessor que permanece cerca de seis horas no ambiente, tentam mergulhar nos dados em busca de ligações diretas entre o dono do Banco Master e autoridades de alto escalão.

O clima, ao fim do expediente, é de desapontamento. “Foi uma perda de tempo”, resume o assessor que acompanha a comissão desde o início. Ele relata dificuldade para abrir uma parte relevante dos arquivos, protegidos por senha, e diz que o que se consegue ver até agora repete conteúdos já acessados em outras fases da CPMI.

Entre os quatro parlamentares que passam pela sala-cofre, o deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES) deixa o local com avaliação semelhante. “Frustração”, define, ao descrever as primeiras horas de análise do material. Um técnico da oposição no Senado, que relata ter ficado duas horas na sala, afirma ter a “impressão de que ainda falta muito arquivo”. Segundo ele, a comissão trabalha com a expectativa de que parte dos dados ainda não esteja disponível para consulta.

O senador Izalci Lucas (PL-DF) mira as ferramentas oferecidas pelo Senado. Ele relata que os sistemas disponíveis não permitem buscas refinadas por palavras, datas ou nomes, o que obriga a leitura quase manual de documentos extensos. “Não dá para pesquisar nada da forma como foi disponibilizada”, afirma. Izalci diz ter encontrado ainda documentos criptografados e sinaliza que vai pedir ao presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), recursos técnicos adicionais para viabilizar uma varredura efetiva.

Achados iniciais expõem rede de contatos de alto escalão

A frustração com a forma de acesso convive com a percepção de que o conteúdo guardado na sala-cofre pode redesenhar o mapa político do caso. Mesmo limitadas, as primeiras horas de consulta revelam fotos de Vorcaro em festas com autoridades, além de uma lista extensa de contatos armazenada nos aparelhos do banqueiro.

Na agenda, parlamentares identificam nomes de ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes, e do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Também aparecem referências ao filho do governador, o advogado Caio Carvalho Barros, e ao lobista Leonardo Valverde, conhecido em anotações internas como “Leo Ibaneis” e cogitado, em 2025, como possível suplente de Ibaneis em eventual candidatura ao Senado.

Evair Vieira de Melo relata ainda ter localizado trocas de documentos e mensagens, datadas de outubro de 2025, entre Vorcaro e integrantes do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central. Segundo o deputado, os registros citam o gerente-técnico Alexandre Martins Bastos e o coordenador Fernando Cesar Maia Mondaini, em conversas ligadas à situação do Banco Master.

As mensagens ajudam a recompor o bastidor de uma operação bilionária que naufraga meses antes da prisão do banqueiro. Em 2025, Vorcaro tenta vender o Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), então comandado por Paulo Henrique Costa. As conversas entre os dois, encontradas nos arquivos, tratam da negociação e do desenho da transação. Em setembro de 2025, o Banco Central barra a operação. Poucos meses depois, decide liquidar o Master. No mesmo dia, a PF prende Vorcaro em ação ligada à chamada Operação Compliance Zero, que também mira o BRB.

Parlamentares encontram, nesse conjunto, uma carta que teria sido enviada por Vorcaro a Paulo Henrique Costa. Um dos consultores define o texto como um “desabafo” do banqueiro, que relata pressões, frustrações e acusa supostas interferências políticas no caminho da venda. O teor integral da carta, porém, ainda não vem a público, já que todo o material permanece sob sigilo imposto pela CPMI.

Técnicos da comissão afirmam ter identificado sinais de tentativa de intimidação a autoridades em meio às comunicações de Vorcaro, em linha com relatos recentes da Polícia Federal. A PF aponta, em investigações paralelas, que o dono do Master e aliados atuam para pressionar agentes públicos em processos de interesse do banco.

Pressão por acesso total e impacto nas próximas semanas

As dificuldades técnicas impõem um freio à CPMI em um momento considerado decisivo. A comissão busca, nos mais de 400 GB de dados, evidências de eventuais irregularidades na relação entre o Banco Master, órgãos de controle e autoridades do Executivo e do Judiciário. A expectativa de parlamentares é que o acesso integral ao conteúdo só se torne realidade na próxima segunda-feira (16/3), quando todos os arquivos devem estar liberados e, em tese, acessíveis para pesquisa.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirma aguardar essa nova leva de dados para uma análise mais consistente. A deputada Bia Kicis (PL-DF), última a deixar a sala-cofre na noite desta sexta, diz que não consegue avançar. “Eu esperava poder pesquisar alguma coisa, mas não há como fazer esse tipo de busca. Consegui acessar apenas conteúdos que já haviam sido vazados”, relata. Para a base governista e a oposição, a limitação atual retarda a produção de relatórios, a convocação de novos depoimentos e a definição de eventuais pedidos de indiciamento.

A pressão interna por melhorias na estrutura tecnológica da CPMI tende a crescer nos próximos dias. Integrantes do colegiado defendem a contratação de softwares de varredura avançada, capazes de cruzar mensagens, documentos e agendas em questão de minutos. A avaliação é que, sem esse apoio, a comissão corre o risco de não conseguir examinar todo o material até o fim do prazo de funcionamento, o que pode forçar a ampliação do calendário ou o esvaziamento político da apuração.

Do lado de fora do Congresso, autoridades citadas nos arquivos acompanham em silêncio. Ministros do STF, o governador Ibaneis Rocha, dirigentes do Banco Central e ex-executivos do BRB se tornam alvos potenciais de novos questionamentos públicos, a depender do que vier à tona. Eventuais diálogos que indiquem favorecimento, pressão ou conflito de interesse podem desencadear investigações paralelas em órgãos de controle, ações judiciais e pedidos de afastamento.

O futuro imediato da CPMI do INSS depende, em grande parte, do que está trancado hoje na sala-cofre. Se a liberação total dos dados se confirmar em 16 de março e as ferramentas forem aprimoradas, a comissão ganha fôlego para uma segunda etapa, mais cirúrgica, baseada em cruzamento de informações e reconstrução de fluxos financeiros e políticos. Se a promessa não se cumprir, o Congresso corre o risco de assistir a uma disputa de versões em que o volume de dados é grande, mas a capacidade de enxergar o que de fato importa segue limitada por barreiras técnicas que a própria estrutura legislativa ajuda a criar.

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