Ultimas

Ação do ICE em Minneapolis espalha medo e isola imigrantes

Desde dezembro de 2025, patrulhas do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) transformam a rotina de imigrantes em Minneapolis. O pastor mexicano Sergio Amezcua vê o medo sair do plano abstrato e bater à porta de sua igreja, de sua casa e de suas filhas.

Rotina sob cerco e medo coletivo

O telefonema chega numa tarde gelada de Minneapolis. Do outro lado da linha, alguém conta a Amezcua que um jovem acaba de pular da janela do terceiro andar para fugir de agentes uniformizados que percorrem o corredor do prédio atrás de imigrantes indocumentados. “Ele estava lavando roupa e, ao ouvir o barulho no corredor, quebrou a janela e pulou para escapar”, relata o pastor, de 46 anos, que lidera a igreja evangélica Dios Habla Hoy.

O rapaz caminha cerca de um quilômetro até ser abrigado por vizinhos. Está descalço, sem camisa, apenas de bermuda, em temperatura abaixo de zero. “Quando foi socorrido, estava batendo nas portas e chorando”, diz Amezcua. O jovem sobrevive e se recupera, mas o episódio condensa a atmosfera criada pela Operação Metro Surge, que mobiliza mais de 2 mil agentes federais na região metropolitana de Minneapolis desde o fim do ano passado.

O pastor afirma receber ligações diárias desde a primeira semana de dezembro, quando o ICE intensifica a presença nas ruas e nos conjuntos residenciais de Minnesota, Estado que faz fronteira com o Canadá. As histórias se repetem, com variações de desespero. Uma fiel se ajoelha diante de agentes com o bebê nos braços e implora para que o marido não seja levado. Um vídeo registra a cena e viraliza. Em outro caso, um homem se esconde por quatro horas em um canteiro de obras gelado para evitar a captura.

A ofensiva faz parte de uma campanha nacional do governo Donald Trump para localizar, deter e deportar imigrantes sem documentos. Em dezembro, o Departamento de Segurança Interna anuncia que mais de 2,5 milhões de indocumentados deixam os EUA até 2025, dos quais mais de 605 mil são deportados. Minnesota abriga menos de 1% dos cerca de 14 milhões de imigrantes indocumentados estimados no país, segundo o Migration Policy Institute, mas recebe o maior reforço de agentes do ICE já enviado ao Estado.

Comunidades somali e latina no foco da repressão

O alvo oficial são suspeitas de fraude em verbas públicas ligadas a creches atribuídas a membros da comunidade somali. Um influenciador pró-Trump publica vídeo em que mostra unidades supostamente fechadas, embora recebam recursos do Estado. Em resposta, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, promete uma investigação “de porta em porta” sobre as denúncias. Na prática, a operação passa a mirar quem vive à margem da regularização migratória, sobretudo latinos e somalis.

Em maio do ano passado, mexicanos formam a maior comunidade imigrante de Minnesota, com 59.137 residentes, seguidos por 42.503 somalis e 30.632 indianos, de acordo com a Assembleia Legislativa estadual. Em Minneapolis, a presença do ICE rapidamente extrapola a disputa política. Manifestantes vão às ruas depois que agentes federais matam a tiros dois cidadãos americanos em operações distintas: Renee Good, em 7 de janeiro, e Alex Pretti, em 24 de janeiro.

O choque aumenta quando um pedestre registra a imagem de um agente segurando pela mochila Liam Conejo Ramos, um menino de 5 anos, detido com o pai em frente de casa em 20 de janeiro. “Por que estão detendo uma criança de 5 anos? Não me digam que essa criança será classificada como criminosa violenta”, questiona Zena Stenvik, superintendente das Escolas Públicas de Columbia Heights. O Departamento de Segurança Interna reage em nota: “O ICE NÃO estava visando uma criança”. Dias depois, Liam e o pai deixam um centro de detenção no Texas e retornam a Minneapolis.

Enquanto cresce o debate público sobre a conduta dos agentes, o cotidiano das famílias muda em silêncio. “Os agentes estão caçando pessoas comuns quando elas saem de seus apartamentos para tirar o lixo. É terrível o que está acontecendo em Minnesota”, diz Amezcua. Segundo ele, cerca de 80% dos fiéis deixam de frequentar os cultos. “Estou falando de cidadãos, residentes legais, todo tipo de pessoa, porque eles prenderam cidadãos e as pessoas não querem que seus filhos passem pelo trauma dessa experiência.”

O medo atravessa a porta da casa do próprio pastor. “Quando uma encomenda da Amazon chega, os entregadores estão com o rosto coberto por causa do frio, e minhas filhas ficam com medo porque pensam que é o ICE.” Para ele, o dano psicológico se espalha. “O trauma é coletivo e afeta a todos, não apenas os migrantes, mas também as pessoas nascidas aqui.”

Rede de ajuda cresce na sombra da repressão

Pressionados por patrulhas nas ruas, muitos imigrantes evitam o caminho até o mercado, a escola ou o hospital. Famílias deixam de buscar atendimento médico, interrompem a presença de crianças nas aulas e se trancam em casa. Barreira de idioma, falta de informação jurídica e medo de deportação ampliam a sensação de isolamento, especialmente entre latinos e somalis. A repressão aprofunda vulnerabilidades já conhecidas e dificulta qualquer tentativa de integração social.

Nesse vácuo, a igreja Dios Habla Hoy se transforma em linha de frente humanitária. Amezcua, que chegou ao Estado há 24 anos vindo do México e hoje é cidadão americano, já havia coordenado a distribuição de alimentos durante os lockdowns da pandemia. Agora, monta uma operação ainda maior, desta vez para atender quem teme cruzar com viaturas do ICE no caminho para o supermercado.

Os pedidos chegam pelas redes sociais da igreja. Em mensagens privadas, o pastor orienta os interessados a se inscreverem para receber uma cesta básica em até sete dias. “Estamos apoiando mais de 100 mil pessoas em nossa comunidade, distribuindo entre 175 e 200 toneladas de alimentos por semana”, afirma. O volume é financiado por fiéis, bancos de alimentos e fundações. A logística depende de uma rede de 4 mil voluntários treinados pela igreja.

Ele evita detalhar rotas e horários. “Não posso dar mais detalhes, mas se eles virem que a imigração está os perseguindo, eles voltam e não entregam a comida.” Cada família recebe vegetais, frutas, macarrão, molhos, algum tipo de proteína, leite e queijo. A cesta inclui também itens básicos como tortillas, farinha, massa de milho, óleo, açúcar, sal, sabão, fraldas, fórmula infantil e papel higiênico.

O desafio agora é estrutural. “Há muita ajuda disponível e não temos onde guardar todos esses suprimentos”, diz o pastor, que tenta conseguir um caminhão e um armazém para organizar estoques. Ele insiste que não atua como oposição ao governo. “É um esforço coletivo. Estamos aqui para ajudar, não para confrontar o governo. Não perguntamos quem tem documentos. Quem pede ajuda, nós ajudamos.”

Futuro incerto para famílias e políticas migratórias

A continuidade da Operação Metro Surge mantém comunidades inteiras em compasso de espera. Quem não tem documentos calcula risco a cada deslocamento, enquanto famílias mistas, com filhos cidadãos americanos, vivem com medo de separações abruptas. Cresce a procura por advogados de imigração e organizações de direitos civis, ao mesmo tempo em que as próprias lideranças comunitárias tentam mapear detidos e desaparecidos.

No plano político, o endurecimento da fiscalização em um Estado que concentra menos de 1% dos imigrantes indocumentados do país alimenta a discussão sobre prioridades federais e acusações de perseguição seletiva. Parlamentares locais e grupos de defesa de direitos humanos pressionam por limites mais claros à atuação de agentes federais e por maior transparência nos dados de detenções e deportações. A reação, porém, esbarra em uma Casa Branca que usa números de expulsões como vitrine de campanha.

Em Minneapolis, a tensão se mede menos em discursos e mais em gestos cotidianos. Crianças que deixam de ir à escola, mães que hesitam em buscar o pré-natal, trabalhadores que abrem mão de um turno de limpeza por medo de uma abordagem na saída do prédio. O pastor que atende telefonemas de emergência madrugada adentro sabe que a crise não termina com o fim de uma operação federal. “O trauma fica”, resume. As próximas semanas devem mostrar se a rede de apoio construída às pressas será suficiente para evitar que o medo vire regra permanente para uma geração inteira de imigrantes em Minnesota.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *