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Crise com Mette-Marit e filho abala confiança na monarquia norueguesa

A monarquia norueguesa enfrenta em fevereiro de 2026 a crise mais delicada em décadas, com acusações de estupro contra Marius Borg Høiby e revelações de e-mails comprometedores da princesa herdeira Mette-Marit com Jeffrey Epstein. A combinação dos dois casos pressiona a sucessão ao trono e abre um raro confronto público entre governo e família real.

Família real sob pressão em Oslo

O ponto de ruptura se cristaliza em Oslo, dentro e fora do tribunal. Aos 29 anos, Marius Borg Høiby, filho mais velho de Mette-Marit, chora ao negar quatro acusações de estupro logo no primeiro dia de depoimento. O julgamento começa na terça-feira, 3 de fevereiro, e deve se estender por várias semanas, mantendo o caso em evidência diária.

Høiby não integra a linha de sucessão ao trono, por ter nascido antes do casamento da mãe com o príncipe herdeiro Haakon, em 2001. Ainda assim, o impacto recai sobre a instituição. Tentando erguer um cordão sanitário, Haakon divulga uma declaração rara antes da abertura do julgamento, reforçando que o enteado “não é integrante da Casa Real da Noruega e, portanto, é autônomo”. A frase busca proteger a Coroa, mas não impede que a crise se desloque rapidamente para o núcleo da monarquia.

Quando a opinião pública ainda processa as denúncias contra Høiby, novos documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos expõem uma troca extensa de e-mails entre Mette-Marit e Jeffrey Epstein, que se declarou culpado de aliciar uma menor para fins sexuais já em 2008. Mensagens de 2012 mostram a princesa tratando Epstein como “querido”, “de bom coração” e “muito charmoso”. Em uma delas, escreve: “Seria inapropriado uma mãe sugerir duas mulheres nuas carregando uma prancha de surfe como papel de parede para o meu filho de 15 anos?”.

As revelações atingem em cheio a imagem construída pela futura rainha ao longo de quase 25 anos. Em comunicado divulgado na sexta-feira, 6, a Casa Real afirma que Mette-Marit “repudia veementemente os abusos e atos criminosos de Epstein” e lamenta “não ter compreendido cedo o suficiente que tipo de pessoa ele era”. A própria princesa admite ter demonstrado “falta de bom senso” e pede desculpas “pela situação em que coloquei a Família Real, especialmente o Rei e a Rainha”.

Confiança em queda e debate sobre sucessão

A sucessão, antes um tema quase protocolar, entra no centro do debate. O rei Harald V, com 88 anos, é hoje o monarca mais velho da Europa e enfrenta problemas de saúde que já obrigam o príncipe Haakon a assumir funções como regente em algumas ocasiões. A expectativa de uma transição gradual agora se mistura à dúvida sobre o papel que Mette-Marit deve ocupar quando isso acontecer.

Correspondentes e analistas de realeza registram um movimento claro de perda de confiança. “A confiança na princesa herdeira caiu drasticamente”, avalia Tove Taalesen, do portal norueguês Nettavisen. Segundo ela, “a maioria ainda apoia a instituição, mas esse apoio está mais fraco e a incerteza está aumentando”. Kjetil Alstadheim, editor de política do jornal Aftenposten, reforça a decepção: “Eles questionam como será seu discernimento no futuro”.

A corrosão da imagem da princesa não acontece do nada. Desde 2001, quando se casa com Haakon na catedral de Oslo, diante de 800 convidados e audiência de milhões, Mette-Marit tenta transformar fragilidades em ativo. À época, sua franqueza sobre uma “vida selvagem” na juventude agrada especialmente aos mais jovens, que veem ali uma monarquia moderna, capaz de admitir erros. “Ela conseguiu construir confiança e ser respeitada”, lembra Alstadheim. Agora, as trocas de e-mails com Epstein parecem atravessar essa narrativa de autenticidade.

Organizações que historicamente orbitam a família real começam a se afastar. O maior centro de saúde sexual da Noruega, o Sexo e Sociedade, com sede em Oslo, anuncia nesta semana o rompimento da parceria com a princesa herdeira. A entidade afirma que “o importante sempre foi a consideração por nossos pacientes, por todas as vítimas de abuso e por todos aqueles que se levantam para prevenir o abuso sexual” e considera incompatível manter a colaboração. Três instituições culturais sob patrocínio de Mette-Marit — o Centro Hamsun, o Festival Førde e o Centro Cultural Nynorsk — enviam carta ao palácio cobrando uma “explicação adequada” sobre a relação com Epstein.

A crise também ultrapassa os portões do palácio e alcança o gabinete do primeiro-ministro. Jonas Gahr Støre rompe uma tradição de discrição e critica publicamente a princesa. “Ela diz que demonstrou falta de bom senso. Concordo”, declara aos jornalistas, na segunda-feira, 2. Especialistas em monarquia dizem não lembrar de outro momento, na história recente, em que um chefe de governo norueguês se pronuncia dessa forma sobre um membro da família real.

Efeito dominó político e risco para a instituição

As revelações nos documentos de Epstein ampliam o foco para além de Mette-Marit. O ex-primeiro-ministro Thorbjørn Jagland passa a ser investigado pela Økokrim, a unidade nacional de combate ao crime econômico da Noruega, “sob suspeita de corrupção agravada” relacionada a viagens, presentes e empréstimos ligados ao empresário. E-mails indicam conversas amistosas e planos de férias na ilha de Epstein. A defesa de Jagland afirma que ele colabora integralmente com as autoridades e se diz confiante no desfecho da apuração.

Os mesmos arquivos trazem ainda citações a outras figuras europeias, como a princesa Sofia da Suécia e o então príncipe herdeiro dinamarquês, hoje rei Frederik X, sem que haja até aqui indícios de crime. As cortes sueca e dinamarquesa tentam se distanciar, negando participação em eventos listados nas trocas de mensagens. A presença desses nomes, porém, reforça a percepção de que a teia de relações de Epstein atinge o coração da aristocracia europeia.

Na Noruega, o impacto mais imediato recai sobre a legitimidade simbólica da monarquia. Pesquisas de opinião ainda não são divulgadas, mas comentaristas apontam um desgaste acelerado. Ole-Jørgen Schulsrud-Hansen, analista da emissora TV2, afirma que é preciso “esperar a poeira baixar” para medir o dano, mas admite que se trata do maior desafio de imagem para a Casa Real em décadas. A discussão já não é apenas moral; passa a ser institucional.

Diante da pressão, ganha espaço a hipótese de um afastamento parcial de Mette-Marit da agenda pública. Diagnosticada em 2018 com fibrose pulmonar, doença crônica e progressiva que pode exigir transplante de pulmão, a princesa tem na saúde um argumento objetivo para reduzir aparições. Taalesen avalia que uma saída possível, caso a crise se agrave, seria ela se retirar dos deveres oficiais, permitindo que Haakon atue sozinho como herdeiro em exercício permanente.

Julgamento longo e futuro em aberto

O calendário institucional da Noruega, nos próximos meses, passa a girar em torno de duas frentes: o julgamento de Marius Borg Høiby e o esforço da Casa Real para conter danos. Cada nova sessão no tribunal de Oslo reacende a associação entre o réu, sua mãe e a monarquia, mesmo que Høiby não tenha título e não esteja na linha de sucessão. A defesa do jovem nega de forma categórica as quatro acusações de estupro, enquanto a imprensa local detalha os depoimentos dia a dia.

Dentro do palácio, o dilema é como preservar a continuidade da instituição sem romper com a figura da futura rainha. Um afastamento definitivo de Mette-Marit significaria reescrever, na prática, o roteiro da sucessão. Uma manutenção integral de seu papel, sem ajustes, pode ampliar a erosão de confiança. No meio desse impasse, permanece em aberto a pergunta que ecoa das ruas de Oslo aos corredores do governo: quando chegar a hora de Harald V se retirar, que tipo de monarquia os noruegueses ainda estarão dispostos a aceitar?

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