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Disputa por Groenlândia expõe nova corrida geopolítica no Ártico

Estados Unidos, Rússia, China e Otan ampliam em fevereiro de 2026 a disputa pelo controle estratégico da Groenlândia, peça-chave no tabuleiro do Ártico. A ilha de 56 mil habitantes concentra interesses militares e minerais que reconfiguram alianças e tensões globais.

Uma ilha gelada no centro do mapa de poder

A Groenlândia permanece coberta por gelo em mais de 80% de seu território, com camadas que chegam a 3 quilômetros de espessura. A temperatura mais baixa já registrada no Hemisfério Norte, de -69,6 ºC, foi medida ali em 1991. Esse cenário extremo contrasta com o calor político que hoje envolve a ilha, formalmente parte do Reino da Dinamarca, mas cobiçada como nunca pelas grandes potências.

O gatilho recente vem de Washington. O presidente Donald Trump insiste que “não há volta atrás” em sua ambição de assumir o controle da Groenlândia e trata o tema como questão de segurança nacional. Em Davos, na semana passada, ele promete que “não usará força” para adquirir o território, mas volta a descrevê-lo como “vital” para o escudo antimísseis, o chamado Domo de Ouro, que deseja ver operacional até o fim do mandato.

Nos bastidores, o vice-presidente JD Vance admite que os aliados europeus foram mais longe nas negociações do que admitem em público. “Definitivamente, conseguimos muito mais do que inicialmente”, diz, sem detalhar. A discussão envolve a cessão da soberania de pequenas áreas da Groenlândia pela Dinamarca, onde os EUA poderiam erguer novas bases militares sob o guarda-chuva da Otan.

A proposta reacende o debate interno sobre independência, tema presente desde o plebiscito de 1979, que deu autonomia ao território. Hoje, entre 70% e 85% dos groenlandeses dizem preferir romper com Copenhague, mas a perspectiva de uma presença militar ainda maior dos EUA adiciona uma camada de incerteza às discussões.

Minérios críticos e um novo tabuleiro militar

No centro da disputa está um subsolo em grande parte desconhecido. Estudos indicam que a Groenlândia abriga depósitos de 38 matérias-primas consideradas críticas por União Europeia e Estados Unidos. A ilha pode concentrar até um quarto das reservas globais de terras-raras, essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas, mísseis e smartphones.

As estimativas incluem níquel, lítio, cobre e grafite, pilares de cadeias industriais avaliadas em centenas de bilhões de dólares por ano. Os EUA dependem quase 100% de importações de alguns desses insumos, como grafite e zinco. A China domina a produção e o refino de terras-raras e se converteu no principal fornecedor mundial, o que cria vulnerabilidades estratégicas em caso de conflito ou sanções.

Trump nega ter interesse direto nos minerais groenlandeses e afirma mirar apenas a segurança. Pesquisadores contestam. “Essa questão toda se resume aos minerais críticos, e para os Estados Unidos, a Groenlândia é uma forma de reduzir a dependência da China”, avalia Gabriella Gricius, do Instituto Ártico. A corrida por concessões de mineração na ilha já envolve empresas ocidentais e asiáticas, que disputam direitos de exploração para as próximas décadas.

O valor geopolítico da Groenlândia, porém, não está apenas no que se esconde sob o gelo. A posição da ilha, entre América do Norte, Europa e Rússia, transforma o território em plataforma de vigilância e interceptação de mísseis. Desde os anos 1950, um acordo com a Dinamarca autoriza Washington a manter instalações militares na região. Uma base já funciona como posto avançado de observação do espaço aéreo e marítimo no extremo Norte.

Do ponto de vista militar, o Ártico volta a se aproximar da lógica da Guerra Fria. A Rússia hoje controla 53% do litoral do Oceano Ártico e mantém entre 30 e 40 instalações militares na região. A principal delas é a Frota do Norte, baseada em Severomorsk, força naval que abriga parte substancial das ogivas nucleares russas embarcadas em submarinos. Em 2020, Moscou inaugura a base Trevo Ártico, na Terra de Alexandra, apontada como o posto militar mais ao norte do planeta, com capacidade para 150 militares e sistemas de defesa aérea.

Esses movimentos alimentam a reação da Otan. Após a invasão da Ucrânia em 2022, Finlândia e Suécia ingressam na aliança, que passa a contar com sete países com território no Círculo Polar Ártico, incluindo a própria Groenlândia, via Dinamarca. O mapa se reorganiza em dois blocos nítidos: de um lado, a Rússia; de outro, a Otan, que reforça patrulhas, radares e exercícios conjuntos em águas geladas.

Rotas em descongelamento e tensão em ascensão

O aquecimento global funciona como acelerador dessa disputa. O derretimento do gelo marinho abre novas rotas para navios e pode encurtar em milhares de quilômetros o trajeto entre portos europeus e asiáticos. A Lacuna de GIUK, corredor entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, volta ao centro das preocupações militares ocidentais como porta de entrada de submarinos do Ártico para o Atlântico Norte.

Durante a Segunda Guerra Mundial, esse estreito motivou a construção de uma base americana na Groenlândia para caçar submarinos nazistas. Na Guerra Fria, a Otan espalhou sensores submarinos pela região para vigiar a frota soviética. Hoje, o mesmo corredor passa a ser visto como rota potencial para navios russos e, no futuro, chineses. “Grande parte do Ártico está começando a se abrir para uso marítimo, tanto civil quanto, potencialmente, militar”, alerta Marc Lanteigne, da Universidade Ártica da Noruega. “A preocupação é que esta área precise de muito mais monitoramento.”

Até agora, Dinamarca e Groenlândia afirmam que não há qualquer presença militar russa ou chinesa na ilha, contrariando declarações de Trump. A costa groenlandesa é patrulhada por navios dinamarqueses e aliados, e especialistas consideram improvável uma aproximação discreta de embarcações de guerra russas. O problema, apontam analistas, é o efeito das ameaças americanas sobre a percepção em Moscou e Pequim.

Autoridades russas já sinalizam que estão dispostas a confrontar forças ocidentais no Ártico, se julgarem necessário. “A Rússia não permitirá que ninguém a prive de seu futuro. Provamos isso em Donbas e provaremos no Ártico, se necessário”, escreve o senador Andrei Khapochkin, em novembro, em artigo no jornal governamental Rossiyskaya Gazeta. O recado ecoa a lógica de que nenhum lado pretende ceder espaço em uma região que concentra recursos energéticos, rotas comerciais e capacidade militar de longo alcance.

Para a China, o Ártico é apresentado como “Rota da Seda Polar”, expressão cunhada em documentos oficiais de Pequim. O país participa de projetos de gás natural em território russo e acompanha de perto a discussão sobre minérios groenlandeses, embora não tenha presença militar conhecida na ilha. Em exercícios navais conjuntos com a Rússia no extremo Norte, a mensagem que envia é de que também quer voz nas regras do jogo polar.

Uma disputa que redefine alianças e cadeias globais

A escalada no Ártico transborda para a economia. Governos e empresas reavaliam cadeias de suprimento de minerais, hoje concentradas em poucos produtores, com forte peso chinês. Companhias de tecnologia, montadoras e fabricantes de equipamentos militares monitoram de perto decisões em Nuuk, Copenhague, Washington, Moscou e Pequim. Cada nova concessão de mineração ou acordo de base militar pode redefinir contratos bilionários e a segurança de fornecimento pelos próximos 20 ou 30 anos.

Na Groenlândia, o avanço da militarização convive com promessas de empregos e investimentos em infraestrutura, mas também com o temor de que a ilha se torne apenas palco das disputas de outros. A população local, majoritariamente inuíte, cobra voz nas decisões sobre mineração, meio ambiente e segurança. A independência, defendida por até 85% dos habitantes em pesquisas recentes, depende justamente da capacidade de transformar os recursos naturais em autonomia econômica, sem ficar presa a uma nova forma de tutela externa.

Em fevereiro de 2026, nenhuma das peças está definida. Os EUA pressionam por um acordo que amplie sua presença militar. A Otan acelera a coordenação defensiva e tenta responder à revitalização da Frota do Norte russa. Moscou reforça bases e testa limites com declarações de confronto. Pequim observa, investe em projetos energéticos e prepara terreno para disputar influência quando o gelo der um pouco mais.

O futuro do Ártico se desenha em camadas tão espessas quanto o gelo groenlandês. A diferença é que, ao contrário das geleiras, as ambições militares e econômicas não parecem derreter tão cedo. A pergunta que permanece é se o mundo conseguirá explorar esse novo fronte sem empurrar a região de volta à lógica de confronto aberto que marcou a segunda metade do século 20.

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