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PF mira fundo de previdência do Amapá e aperta cerco a Alcolumbre

A Polícia Federal investiga, nesta sexta-feira (6.fev.2026), um rombo de R$ 400 milhões em investimentos do fundo de previdência do Amapá no Banco Master. A operação atinge o diretor-presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, aliado de longa data de Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado.

Operação expõe elo entre fundo do Amapá e cúpula do Congresso

O avanço das investigações mexe com o centro do poder em Brasília. A PF apura se a aplicação bilionária de recursos da Amprev em títulos do Banco Master seguiu critérios técnicos ou atendeu a interesses políticos e empresariais. No alvo está Jocildo Lemos, indicado por Alcolumbre para comandar o fundo dos servidores e responsável por autorizar os aportes que acabaram em forte prejuízo.

Os investigadores veem indícios de que o dinheiro público alimentou um esquema mais amplo, que envolve o Banco Master, empresas ligadas ao mercado financeiro e congressistas de diferentes partidos. O fundo de previdência aplicou R$ 400 milhões em um produto de investimento administrado pelo Master, que direcionava quase toda a carteira para ações da Ambipar, companhia hoje associada às irregularidades sob escrutínio.

O caso ganha outra dimensão porque Lemos não é apenas gestor. Ele atua como operador político de confiança de Alcolumbre, a quem serviu como tesoureiro de campanha nas eleições de 2022. Essa dupla função, técnica e política, alimenta a suspeita de uso da previdência do funcionalismo do Amapá como braço financeiro de um arranjo que ultrapassa as fronteiras do estado.

No Senado, aliados e adversários do governo Lula demonstram incômodo. Deputados e senadores avaliavam, nas últimas semanas, que a temperatura do escândalo começava a cair, sob pressão silenciosa para limitar danos e adiar qualquer investigação mais profunda. A deflagração da operação em plena volta do recesso legislativo produz efeito oposto e recoloca o caso no centro da agenda política.

Rombo na previdência do Amapá e risco institucional

O prejuízo atinge diretamente a Amprev, responsável pela aposentadoria de milhares de servidores estaduais. R$ 400 milhões saem de reservas que deveriam garantir pagamentos futuros e entram em um investimento concentrado, de alto risco, com baixa diversificação e forte dependência do desempenho de uma única empresa listada em bolsa. A aposta dá errado e abre um buraco de grandes proporções nas contas do fundo.

Especialistas em previdência pública ouvidos reservadamente em Brasília apontam o caso como exemplo de captura política de fundos estatais. A governança formal até prevê conselhos e regras de enquadramento, mas decisões-chave se concentram em dirigentes alinhados a padrinhos no Congresso. “Quando o critério deixa de ser proteção de longo prazo e passa a ser conveniência política, o risco explode”, resume um técnico que acompanha o setor há mais de duas décadas.

O Banco Master, administrado pelo grupo de Daniel Vocaro, aparece como peça central. A instituição estrutura o fundo de investimento que recebe o dinheiro da Amprev e aplica quase toda a carteira em ações da Ambipar. A concentração foge da lógica básica de proteção de previdência, que recomenda distribuir riscos entre vários ativos, emissores e setores. O resultado é um efeito dominó: a queda de valor de uma única empresa se transforma em perda maciça para milhares de servidores.

No Palácio do Planalto, a avaliação é que o dano político imediato recai mais sobre o Congresso do que sobre o governo Lula. O presidente determina que a PF e órgãos de controle avancem “até as últimas consequências” e vê espaço para apresentar o Planalto como defensor da transparência, desde que a investigação não atinja em cheio aliados estratégicos na disputa municipal e na sucessão do comando do Senado.

A tensão se espalha também por outros fundos públicos, que observam com apreensão a movimentação dos investigadores. Entidades de previdência municipais e estaduais, que somam dezenas de bilhões de reais em patrimônio, revêm carteiras e contratos com instituições financeiras. O temor é que novas operações revelem padrões parecidos de concentração de risco e ingerência política.

Master, bets, CPIs e a disputa pelo rumo das investigações

Os próximos passos da PF apontam para as conexões do Banco Master com casas de apostas esportivas, as chamadas bets, e suas ligações com parlamentares. A combinação de dinheiro de fundos públicos, bancos médios e empresas de apostas cria um terreno fértil para suspeitas de lavagem de dinheiro, financiamento ilegal de campanhas e compra de apoio político em votações sensíveis. Delegados e procuradores falam, em privado, em um “ecossistema de influência” alimentado por recursos de origem pública.

No Congresso, a reação é imediata. Líderes negociam um grande acordo para limitar danos cruzados. A leitura de bastidor é que um entendimento em construção mira dois objetivos: frear o avanço da CPI do INSS e evitar que ganhe força uma CPI dedicada ao Banco Master e aos fundos de previdência. O cálculo é pragmático. Uma investigação ampla poderia expor não apenas opositores, mas também aliados do governo, ampliando o desgaste em ano eleitoral.

O senador Ciro Nogueira (PP), um dos principais nomes da oposição, procura canais de diálogo com o Planalto. Ministros pressionam a direção da PF, defendendo cautela nas operações e criticando vazamentos. Senadores governistas lembram o caso de Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central que deixa o Congresso algemado após CPI nos anos 1990, como aviso de que investigações descontroladas podem escapar ao comando político.

A cena em Brasília é de desconfiança generalizada. Dirigentes partidários temem que novas fases da operação atinjam doadores, operadores financeiros e fundos regionais usados para irrigar campanhas de 2022 e preparar o terreno para 2026. Bancos médios observam o noticiário atentos a qualquer menção a seus nomes, enquanto grandes instituições financeiras evitam se posicionar publicamente, mas reforçam controles internos para se distanciar de negócios de risco com entes públicos.

A disputa agora é sobre quem assume o protagonismo da resposta institucional. O governo tenta se firmar como fiador da apuração, sem romper com o bloco político que sustenta sua base no Senado. O Congresso busca preservar sua imagem e, ao mesmo tempo, conter CPIs de potencial explosivo. O desfecho da investigação sobre a Amprev e o Banco Master indicará se o país assiste ao início de uma nova rodada de exposições em série ou a mais um acordão capaz de encerrar a crise em silêncio.

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