ZCAS traz chuva extrema e ventos de 100 km/h em 4 regiões do país
Uma faixa de instabilidade ligada à Zona de Convergência do Atlântico Sul provoca, entre sábado (7) e quarta-feira (11), chuva extrema em quatro regiões do país. Os acumulados podem passar de 300 mm no Sudeste, com ventos de até 100 km/h e risco alto de alagamentos, enchentes e deslizamentos.
Fenômeno se organiza e amplia área de alerta
A configuração da Zona de Convergência do Atlântico Sul, conhecida pela sigla ZCAS, muda a rotina de grande parte do Brasil ao longo de cinco dias. O sistema se estende do sul e leste da Amazônia até o sudoeste do Atlântico, formando um corredor contínuo de nuvens carregadas e chuva intensa.
Esse corredor é alimentado por um rio atmosférico, faixa de ar muito úmida que corre em altitude e atua como uma espécie de “rodovia” de vapor de água. Quando essa umidade encontra o calor e a circulação de ventos sobre o continente, as nuvens se organizam e a chuva deixa de ser passageira para ficar persistente, muitas vezes o dia inteiro sobre a mesma região.
Entre sábado (7) e quarta-feira (11), o cenário se repete em diferentes estados do Norte, Centro-Oeste e Sudeste, com reflexos também no interior do Nordeste. Modelos de previsão indicam núcleos de chuva diária acima de 100 mm, valor que, em muitos municípios, corresponde a quase todo o volume esperado para o mês de fevereiro.
As imagens de satélite projetadas para o período mostram a faixa de nebulosidade cruzando Amazonas, Pará, Goiás e Mato Grosso e avançando em direção ao Sudeste. “Trata-se de um episódio clássico de ZCAS, com grande aporte de umidade e potencial de volumes extremos”, afirma um meteorologista ouvido pela reportagem.
Sudeste concentra maiores volumes e riscos
Estados do Sudeste concentram a maior preocupação dos meteorologistas. Em áreas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, algumas rodadas de previsão indicam acumulados de até 300 mm entre sábado e quarta-feira. São chuvas fortes e recorrentes, muitas vezes acompanhadas de rajadas de vento próximas dos 100 km/h.
Em grandes cidades, o volume previsto aumenta o risco de enchentes rápidas, alagamentos em vias expressas e transbordamento de córregos canalizados. A combinação de solo encharcado, encostas ocupadas e construções irregulares cria um ambiente propício a deslizamentos, principalmente nas periferias urbanas e em morros já historicamente marcados por tragédias.
No Norte e no Centro-Oeste, a faixa de atuação da ZCAS atinge com mais força Amazonas, Pará, Goiás e Mato Grosso. Nesses estados, o acumulado previsto gira em torno de 200 mm ao longo dos cinco dias, o suficiente para provocar cheias em rios menores, danos em estradas de terra e interrupções de serviços em áreas rurais.
Rondônia, Tocantins, Maranhão, Piauí e o oeste da Bahia também entram no radar, mas com intensidade menor. A expectativa é de volumes próximos de 100 mm no período, ainda assim significativos para cidades com drenagem precária ou redes de esgoto antigas. Em comunidades ribeirinhas e zonas agrícolas, o excesso de água pode atrapalhar colheitas, atrasar o escoamento da produção e deteriorar estradas vicinais.
As rajadas de vento previstas, que podem chegar a 100 km/h em alguns episódios, trazem um componente adicional de risco. A queda de árvores, rompimento de cabos e danos a estruturas leves, como telhados, placas e letreiros, tende a provocar cortes de energia e bloqueios pontuais de vias. “Não é apenas a chuva em si, mas o pacote completo de instabilidade que preocupa”, resume o especialista consultado.
Defesa civil em alerta e próximos dias decisivos
Órgãos de defesa civil monitoram o avanço da ZCAS e reforçam a orientação para que moradores de áreas de risco busquem locais seguros diante de qualquer sinal de instabilidade no terreno. Históricos recentes de temporais intensos, como os verificados em verões anteriores em Minas e no litoral fluminense, colocam pressão adicional sobre prefeituras que ainda correm para mapear encostas frágeis e remover famílias.
Interrupções no transporte urbano e rodoviário entram no horizonte imediato, especialmente em regiões metropolitanas e rodovias que cruzam vales e serras. Alagamentos em corredores de ônibus, queda de barreiras em estradas estaduais e federais e bloqueios por queda de árvores tendem a se repetir ao longo dos dias de atuação do sistema. No campo, produtores rurais avaliam o impacto direto de até 300 mm de chuva sobre lavouras de grãos e pastagens, com risco de perda de produtividade e aumento de doenças fúngicas nas plantações.
O setor elétrico também se prepara para ocorrências simultâneas em diferentes estados, provocadas por rajadas de vento, descargas elétricas e galhos sobre a rede. Técnicos alertam que a combinação de solo encharcado e vento forte facilita a queda de postes e torres mais antigas.
As próximas 72 horas são decisivas para medir a força efetiva da ZCAS neste episódio. As projeções indicam que a faixa de maior instabilidade começa a perder intensidade depois de quarta-feira (11), mas ainda não há clareza sobre como o solo saturado vai responder nos dias seguintes. Entre o volume extremo previsto, a ocupação desordenada e a infraestrutura defasada, a pergunta que se impõe é se as cidades brasileiras estão prontas para mais um verão de chuvas no limite.
