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Laudo da PF classifica Bolsonaro com obesidade clínica sob novas regras

O laudo médico pericial da Polícia Federal classifica o ex-presidente Jair Bolsonaro com “obesidade clínica” em 6 de fevereiro de 2026, à luz de novas diretrizes do Conselho Federal de Medicina. O documento aponta doenças associadas ao excesso de gordura, como hipertensão, apneia do sono grave e refluxo, e recomenda mudança drástica de estilo de vida.

Novo diagnóstico, mesma figura pública

O parecer da PF não fala apenas do peso de Bolsonaro. O texto adota o conceito atualizado de obesidade, que deixa de se basear exclusivamente no Índice de Massa Corporal e passa a considerar o impacto do acúmulo de gordura em órgãos e sistemas. A avaliação conclui que o ex-presidente convive com pelo menos sete problemas crônicos de saúde, entre eles hipertensão arterial sistêmica, apneia obstrutiva do sono em grau grave e doença do refluxo gastroesofágico.

O laudo registra que, apesar do quadro complexo, não há indicação de transferência hospitalar imediata. Os peritos, porém, alertam para o risco de eventos agudos, como um infarto, caso as recomendações de tratamento não sejam seguidas com rigor. O texto fala em necessidade de “intensificar cuidados” e de promover uma “mudança drástica” na rotina alimentar e física do ex-presidente, hoje marcada por dieta rica em ultraprocessados e baixa ingestão de frutas e vegetais.

A expressão “obesidade clínica” espelha uma virada recente na medicina brasileira. Em 2025, o Conselho Federal de Medicina atualizou suas diretrizes e passou a definir a obesidade principalmente pela presença de doenças associadas ao excesso de gordura corporal. “O entendimento de obesidade como apenas um corpo muito grande ou peso elevado foi modificado”, explica Luiz Fernando Córdova, diretor societário da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Para o especialista, mais importante do que o número na balança é saber “onde a gordura está localizada e como ela interfere no organismo”.

Da “barriguinha” à cirurgia: o que muda na prática

O caso Bolsonaro expõe ao público esse deslocamento de foco. A clássica conta do IMC, que divide o peso pela altura ao quadrado, continua sendo calculada, mas perde o papel de juiz absoluto. Pacientes com IMC em torno de 30, por exemplo, antes eram vistos muitas vezes como apenas “acima do peso”. Pela nova lógica, passam a ser avaliados a partir do conjunto de alterações que o excesso de gordura provoca, como pressão alta, distúrbios respiratórios noturnos, alterações do fígado, diabetes tipo 2 e problemas articulares.

No laudo, a atenção se volta à gordura visceral, acumulada na região abdominal, em torno de órgãos como fígado, intestino e pâncreas. Córdova lembra que esse tipo de gordura, associada à chamada “barriguinha de cerveja”, está ligada às alterações metabólicas mais perigosas. No caso do ex-presidente, cirurgias abdominais anteriores podem agravar o refluxo e o desconforto digestivo, ao provocar aderências no trânsito intestinal. O conjunto de fatores compõe a chamada obesidade clínica, ainda que o peso isolado não pareça extremo aos olhos do público.

A mudança de definição tem efeito direto na porta de entrada dos consultórios e hospitais. Até recentemente, a indicação de cirurgia bariátrica costumava exigir IMC a partir de 35, associado a doenças graves. Com as novas regras, pacientes com IMC acima de 30 e comorbidades importantes, como hipertensão severa ou diabetes descontrolado, já podem ser candidatos ao procedimento. “Não estamos operando o paciente por conta do peso, e sim por conta da doença associada”, afirma Córdova. Na prática, isso antecipa anos de tratamento para pessoas que, antes, precisavam engordar ainda mais para ter acesso à cirurgia.

O relatório sobre Bolsonaro, por sua vez, foca no tratamento clínico. A recomendação passa por reeducação alimentar completa, com redução drástica de ultraprocessados, acompanhamento nutricional regular, inclusão de exercícios físicos orientados e suporte psicológico. A saúde mental entra como eixo central: quadros de ansiedade e estresse, comuns em figuras públicas sob pressão, favorecem compulsões e episódios de comer em excesso, que alimentam o ciclo da obesidade.

Impacto na saúde pública e na política

A publicação de um laudo oficial sobre um ex-presidente, associando o termo “obesidade clínica” a um conjunto de doenças controláveis, extrapola a esfera individual. Ao explicitar fatores como apneia grave, um distúrbio que interrompe repetidas vezes a respiração durante o sono, o documento chama atenção para riscos que atingem milhões de brasileiros. Estimativas do Ministério da Saúde apontam que mais de 20% da população adulta vive hoje com obesidade, e boa parte desse grupo convive com pressão alta, colesterol elevado e dificuldades respiratórias.

No sistema público, a mudança de critérios tende a pressionar a fila de tratamentos especializados, da endocrinologia à cirurgia bariátrica. Se mais pessoas com IMC entre 30 e 34,9 passam a se enquadrar como obesas clínicas por causa de doenças associadas, a demanda por consultas, exames e procedimentos aumenta. Em contrapartida, especialistas veem chance de reduzir gastos futuros com internações de emergência, infartos, derrames e complicações do diabetes, ao atacar a raiz do problema mais cedo.

Na arena política, o laudo reabre o debate sobre a transparência em torno da saúde de figuras públicas. Bolsonaro acumula internações e procedimentos desde 2018, após a facada sofrida em Juiz de Fora, e mantém a rotina de exames e consultas sob holofotes. A classificação de obesidade clínica, ancorada em regras técnicas nacionais, limita leituras meramente ideológicas sobre seu estado de saúde e obriga interlocutores a lidar com dados objetivos.

O novo conceito também toca em um ponto sensível do debate público: o estigma em torno da obesidade. Ao tratar a condição como doença crônica multifatorial, ligada a genética, ambiente, alimentação, sono e emoções, a medicina se afasta da narrativa moralista que enxerga o paciente apenas como alguém “sem força de vontade”. Para especialistas, essa mudança de linguagem pode ajudar programas de saúde pública, campanhas de prevenção e políticas de regulação da indústria de alimentos ultraprocessados.

Próximos passos e perguntas em aberto

O laudo da PF traça um plano de tratamento, mas não detalha prazos ou metas numéricas para o ex-presidente, como percentual de perda de peso ou redução de circunferência abdominal. A aplicação prática das recomendações depende da adesão de Bolsonaro a um esquema de longo prazo, que inclui consultas periódicas, exames de controle e ajustes de medicação para pressão e sono. Especialistas lembram que mudanças consistentes costumam ser avaliadas em janelas de 6 a 12 meses, e que recaídas fazem parte do processo.

Na saúde pública, conselhos regionais e hospitais já começam a adaptar protocolos internos às diretrizes do CFM. A tendência é que, ao longo de 2026, planos de saúde, redes privadas e o próprio SUS revisem fluxos de encaminhamento para obesidade clínica, com mais ênfase em equipes multidisciplinares. O caso Bolsonaro, pela visibilidade que carrega, funciona como vitrine dessa transição. A principal questão, agora, é saber se a nova forma de enxergar a obesidade vai se traduzir em acesso real a tratamento integral ou se ficará restrita ao papel dos laudos e das resoluções.

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