Ciencia e Tecnologia

Cometa interestelar 3I/ATLAS libera moléculas orgânicas e surpreende astrônomos

O cometa interestelar 3I/ATLAS libera metanol, cianeto e metano meses após passar pelo Sol, em um surto tardio de brilho registrado em fevereiro de 2026. A reação inesperada intriga astrônomos e oferece uma rara janela para a química que molda sistemas planetários.

Surto tardio de brilho revela interior do cometa

O 3I/ATLAS cruza o Sistema Solar a cerca de 221 mil quilômetros por hora e hoje viaja próximo à constelação de Sagitário, dentro da órbita de Júpiter. Em dezembro de 2025, dois meses depois de atingir o ponto mais próximo do Sol, o cometa entra em erupção, libera grandes quantidades de gás e poeira e aumenta de forma abrupta seu brilho aparente.

As dimensões exatas do núcleo seguem incertas, mas a explosão de atividade permite aos astrônomos olhar para camadas profundas do material gelado. A análise de fevereiro de 2026 mostra que, além de água, dióxido de carbono e monóxido de carbono, o 3I/ATLAS ejeta metanol, cianeto e metano, moléculas orgânicas que, na Terra, participam da base de processos biológicos.

Os dados reúnem observações de telescópios em solo, como o sistema Atlas no Chile e o conjunto Gemini, e medições de instrumentos espaciais, em uma campanha coordenada por equipes internacionais. O estudo é liderado por pesquisadores do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que acompanham o visitante interestelar desde a detecção inicial, em 1º de julho de 2025.

Carey Lisse, líder da pesquisa, resume o que vê na série de explosões de brilho. “O cometa 3I/ATLAS entrou em erupção no espaço em dezembro de 2025, após sua passagem próxima pelo Sol, o que causou um aumento significativo em seu brilho. Até mesmo o gelo de água estava sublimando rapidamente em gás no espaço interplanetário”, afirma.

Esse comportamento confirma um efeito conhecido, mas raramente documentado com tantos detalhes. Quando um cometa se aproxima do Sol, sua superfície aquece primeiro. O calor leva tempo para atravessar as camadas externas, o que faz com que o gelo enterrado a grandes profundidades só comece a sublimar meses depois do periélio, o ponto mais próximo da estrela. No caso do 3I/ATLAS, esse atraso cria um espetáculo químico em pleno espaço aberto.

Moleculas da vida em um viajante de outro sistema estelar

As medições indicam que o 3I/ATLAS libera material rico em carbono que permaneceu aprisionado em seu interior por bilhões de anos. Os astrônomos detectam metanol, cianeto e metano misturados aos gases mais simples. São substâncias comuns em nuvens interestelares e em cometas do próprio Sistema Solar, mas a combinação observada agora vem de um objeto que se formou em outro sistema estelar.

Na Terra, compostos como os encontrados no 3I/ATLAS participam de cadeias químicas ligadas à vida, mas também surgem em processos puramente físicos, sem qualquer intervenção biológica. A presença dessas moléculas em um cometa interestelar não indica vida, e sim um ambiente com ingredientes capazes de participar de reações complexas em planetas jovens. Para a comunidade científica, o achado reforça a ideia de que os blocos químicos necessários à biologia podem se espalhar pela galáxia em corpos gelados como esse.

O 3I/ATLAS é o terceiro objeto confirmado vindo de fora do Sistema Solar, depois do asteroide ‘Oumuamua e do cometa 2I/Borisov. Ele segue uma trajetória hiperbólica, que não fecha em torno do Sol e impede qualquer captura gravitacional duradoura. Modelos da Rede Internacional de Alerta de Asteroides, a IAWN, sugerem que o cometa se forma em outro sistema planetário e vaga pelo espaço por milhões de anos antes de cruzar a órbita de Júpiter e ser identificado próximo ao centro da Via Láctea, na direção de Sagitário.

Simulações desenvolvidas pelo grupo que acompanha o objeto indicam ainda que o 3I/ATLAS pode ter mais de 7 bilhões de anos, idade superior à do próprio Sistema Solar, estimado em 4,6 bilhões de anos. Se o cálculo se mantém nas revisões futuras, o cometa se torna um dos vestígios mais antigos de gelo primordial já estudados de perto. A coma dominada por dióxido de carbono, inédita em concentração entre cometas conhecidos, reforça a impressão de que se trata de um corpo formado em condições muito diferentes das que marcaram o nascimento dos planetas vizinhos à Terra.

As imagens do telescópio Gemini Norte mostram uma cabeleira compacta, uma nuvem densa de gás e poeira que envolve o núcleo gelado. A estrutura indica uma atividade intensa em uma região pequena, característica compatível com surtos localizados de sublimação em profundidade. Para os pesquisadores, o padrão de brilho confirma que o cometa está liberando material que permaneceu blindado da radiação estelar desde a infância do universo local.

O que a erupção do 3I/ATLAS pode mudar na exploração espacial

As descobertas sobre o 3I/ATLAS chegam em um momento em que agências espaciais debatem como será a próxima geração de missões a cometas e asteroides. A confirmação de moléculas orgânicas complexas e de um surto de brilho retardado em um objeto interestelar alimenta a ideia de enviar sondas mais rápidas e flexíveis, capazes de interceptar visitantes que surgem sem aviso prévio nas bordas do Sistema Solar.

Os dados também renovam o interesse em amostras de gelo primordial. Ao revelar que um cometa vindo de outro sistema estelar carrega componentes semelhantes aos encontrados em corpos locais, o 3I/ATLAS sugere que a formação de moléculas ricas em carbono é um processo comum em diferentes berços estelares. Missões que hoje estudam asteroides próximos à Terra ganham um novo argumento: entender os materiais que constroem planetas e, potencialmente, ambientes habitáveis em qualquer lugar da galáxia.

Para a astrofísica, o comportamento incomum do 3I/ATLAS funciona como um laboratório natural. O pico de brilho meses após o periélio ajuda a refinar modelos térmicos de cometas e a calibrar previsões sobre quando e como o gelo enterrado se torna gás. Esse ajuste pode influenciar o cálculo de riscos de fragmentação e a escolha de janelas ideais para sobrevoos de sondas em futuras campanhas.

Os resultados também interessam à astroquímica, área que estuda a formação de moléculas no espaço profundo. Ao medir metanol, cianeto e metano em um corpo tão antigo, os cientistas testam hipóteses sobre como a matéria-prima da vida se organiza em ambientes extremos. Se fenômenos parecidos ocorrerem em outros sistemas, cometas interestelares podem atuar como mensageiros químicos entre estrelas e planetas recém-formados.

Próximos passos e as perguntas que o cometa deixa em aberto

O 3I/ATLAS segue afastando-se do Sol e deve se tornar cada vez mais difícil de observar ao longo de 2026, à medida que sua atividade diminui e o brilho cai. A equipe de Carey Lisse e grupos parceiros correm para extrair o máximo de informação dos dados atuais, combinando espectros de diferentes telescópios e refinando modelos de idade e origem do objeto.

Os pesquisadores discutem propostas de missões capazes de interceptar futuros cometas interestelares com antecedência maior, algo que exigiria foguetes mais potentes e estratégias de lançamento mais ágeis. A experiência com o 3I/ATLAS alimenta essas conversas com números concretos, do ritmo de aquecimento ao atraso na sublimação profunda. Quando a cabeleira esmaecer e o visitante desaparecer na escuridão, permanecerá a pergunta que movimenta a comunidade científica: quantos outros mensageiros semelhantes cruzam silenciosamente a vizinhança solar carregando, no gelo antigo, pistas sobre a origem química da vida?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *