Lucas Ramon se apresenta no São Paulo e aposta em desafio “único”
Lucas Ramon é apresentado nesta sexta-feira (6) como novo lateral-direito do São Paulo, no CT da Barra Funda, após antecipar a saída do Mirassol. O jogador abdica de valores a receber no interior para chegar seis meses antes e diz enxergar no clube uma oportunidade “única” para a carreira.
Desafio antecipado e escolha pelo São Paulo
A sala de imprensa do CT da Barra Funda recebe um jogador que já se imaginava no clube, mas apenas em abril. Lucas Ramon assina um pré-contrato com o São Paulo em dezembro de 2025, com início previsto para o segundo trimestre de 2026. Nas semanas seguintes, porém, ele e seu estafe pressionam por um acordo para a liberação imediata do Mirassol.
O acerto exige renúncia. O lateral abre mão de um montante a receber do clube do interior paulista para “destravar” a negociação. O São Paulo, por sua vez, concorda em pagar apenas as luvas, sem desembolsar valor de transferência. O contrato vai até 2027, com cláusula de extensão por metas até 2028, e a camisa 19 passa a ter dono no elenco tricolor.
Na primeira entrevista como jogador são-paulino, Lucas evita dar detalhes sobre concorrência de outros clubes, mas deixa clara a dimensão que atribui à mudança. “Eu prefiro não comentar outras sondagens, eu prefiro focar única e exclusivamente aqui”, afirma. “Escolhi o São Paulo porque o São Paulo pra mim ele é único, é único.”
O discurso é simples, mas direto. Ele fala de emoção, de família e de carreira como se tudo convergisse para o mesmo ponto. “Quando eu tive essa oportunidade de poder vestir uma camisa de um clube dessa grandeza, eu fiquei muito feliz. A minha mãe e meu pai também ficaram muito felizes e fazia sentido pra mim, pra minha carreira, porque eu lutei tanto pra criar uma oportunidade… É o São Paulo e me tocou muito o coração. Eu falei: ‘é lá que eu quero fazer história, participar de grandes conquistas’.”
Bastidores da negociação e impacto no elenco
O caminho até a apresentação não é simples. Lucas descreve um janeiro de incertezas, enquanto Mirassol e São Paulo negociam a liberação. “Confesso pra você que foi muito difícil, particularmente pra mim como atleta. Eu passei praticamente ali um mês muito difícil. Eu e meu empresário tentamos de todas as formas”, conta. “A gente teve que abrir mão de muitas coisas. Sou muito grato a ele também, porque a gente abriu mão de muita coisa e, graças a Deus, a gente conseguiu chegar antes, porque estava sendo um pouco prejudicado. Iria me atrapalhar muito.”
A antecipação muda o planejamento esportivo do São Paulo para 2026. O clube passa a ter três opções imediatas para a lateral direita: o jovem Maik, revelado em Cotia; o português Cédric, com rodagem de futebol europeu; e agora Lucas, que chega após bom destaque no Mirassol em 2025. A disputa por posição é um dos temas centrais da entrevista, e o novo reforço faz questão de adotar um tom de colaboração.
“Maik é um menino muito promissor, muito talentoso, é daqui da base, e tem também o Cédric, que jogou na Europa, tem muita qualidade”, enumera, antes de reforçar a própria postura. “Eu venho com muita humildade, com muita disposição. Eu sei que o que me trouxe aqui foi muito trabalho, então é trabalhar bastante, de uma forma muito saudável e sem egoísmo, não ligar pelo meu espaço. Sendo fiel, leal e transparente ao meu trabalho, é trabalhar, me preparar bem para quando surgir a oportunidade, estar pronto.”
O São Paulo tenta se reposicionar no cenário nacional após campanhas irregulares, oscilando entre títulos pontuais e temporadas de frustração. A diretoria aposta em reforços pontuais e em aumento da competitividade interna para voltar a disputar, ao mesmo tempo, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e torneios continentais em alto nível. Nesse contexto, um lateral de bom vigor físico e leitura defensiva é visto como peça-chave para um elenco que precisa resistir a mais de 60 jogos na temporada.
Lucas se define como um jogador completo na faixa lateral do campo, sem prometer mais do que o próprio histórico sustenta. “Eu me considero um lateral consistente, com uma boa leitura defensiva, com muita intensidade e apoio ofensivo. Busco sempre estar contribuindo e ajudando a minha equipe nos dois lados do campo”, afirma. Ele também se coloca à disposição para atuar em mais de um lado, caso o técnico entenda que é necessário. “Vai ter jogo que vai pedir mais ofensividade pelo lado direito ou pelo lado esquerdo. Vai ter jogo que vai pedir mais o lado defensivo. Se ele entender que é possível eu atuar pelo lado esquerdo, eu estou à disposição.”
Projeto esportivo, influência interna e próximos passos
A decisão de priorizar o São Paulo, mesmo com outras ofertas na mesa, reforça um movimento recente de jogadores que valorizam o projeto esportivo e a exposição em clubes tradicionais. Lucas fala de “glória” e de “desafio” com frequência, sempre associando essas ideias ao tamanho do clube. “Acho incrível o ano que eu vivi em 2025 e poder estar fazendo parte de um momento que a gente pode ascender aqui no São Paulo. Eu acho que aqui eu vou ser muito feliz e vou conquistar alguma coisa muito grande”, projeta.
Ele admite que o peso da camisa também funciona como filtro para as escolhas. “A gente sabe que o São Paulo é muito grande, então quanto maior o desafio, quanto maior o clube, maior é a glória. Eu sinto no coração que deveria vir e que aqui teria alguma coisa muito grande pra me conquistar. Trabalhando forte e me preparando bem, eu vou contribuir e a gente vai conquistar coisas grandes esse ano”, diz.
Nos bastidores, a chegada de Lucas também passa pela influência de um rosto conhecido no vestiário. O meia Danielzinho, com quem o lateral trabalha em dois clubes anteriores, atua como uma espécie de conselheiro durante as conversas. “A partir do momento que a gente soube da notícia, a gente conversou. Ele sempre me falou: ‘vem que é um clube muito bom, você vai ser muito bem recebido’. E não foi diferente”, relata. “O clube em si tem uma estrutura que me faz pensar única e exclusivamente em desempenhar.”
A sintonia entre os dois, construída em três times diferentes, é usada como promessa de entrosamento rápido e de ajuda mútua dentro de campo. “A gente tem uma identidade muito forte. A gente é muito leal ao trabalho. A gente sabe que precisa trabalhar muito e sendo leal ao trabalho do professor, que vai colher os frutos”, resume Lucas, sempre voltando ao verbo “trabalhar” como espécie de mantra.
A temporada de 2026 se apresenta como um divisor de águas para o São Paulo. O clube tenta transformar ambiente, discurso e elenco em resultados concretos, algo que não acontece com regularidade nas últimas décadas. A chegada de um lateral disposto a abrir mão de dinheiro para acelerar sua adaptação reforça a narrativa de comprometimento que a diretoria deseja projetar.
O próximo capítulo depende menos das palavras e mais do que acontecerá quando a bola rolar. A concorrência com Maik e Cédric deve ser intensa, e o calendário não permite margem para longos períodos de teste. Lucas já sabe que, no São Paulo, cada jogo funciona como exame público de caráter e rendimento. Resta descobrir se o lateral que chama o clube de “único” conseguirá, dentro de campo, construir uma história à altura da camisa que escolhe vestir.
