Ciencia e Tecnologia

Novo dinossauro minúsculo descoberto na Espanha revoluciona evolução

Um dinossauro bípede do tamanho de um coelho, descrito nesta sexta-feira (6) na revista Papers in Palaeontology, obriga cientistas a rever a história evolutiva dos herbívoros. Batizada Foskeia pelendonum, a nova espécie vive há cerca de 120 milhões de anos e é identificada por uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Paul-Emile Dieudonné, da Universidade Nacional de Río Negro, na Argentina.

Um “minidinossauro” que pesa na balança da evolução

O fóssil surge em Vegagete, na província de Burgos, no norte da Espanha, onde ossos de pelo menos cinco indivíduos aparecem preservados na mesma região geológica. O animal mede menos de meio metro de comprimento, anda sobre duas patas e se alimenta de plantas, mas o que mais chama a atenção dos pesquisadores não é o tamanho reduzido. O crânio mostra um nível de especialização que, até agora, parecia restrito a linhagens muito mais tardias e robustas.

Dieudonné e seus colegas descrevem um conjunto de inovações anatômicas inesperadas para um dinossauro tão pequeno, especialmente na estrutura da cabeça e das mandíbulas. As suturas entre os ossos cranianos, a forma dos dentes e a arquitetura da arcada revelam um animal adaptado a um tipo de mastigação complexo, eficiente para processar vegetação resistente. “Foskeia não é apenas um minidinossauro fofo”, resume o paleontólogo no artigo. “É um experimento evolutivo que não esperávamos encontrar nesse momento da história dos ornithopoda.”

Peça-chave de um quebra-cabeça de 70 milhões de anos

Os ornithopoda formam um grupo amplo de dinossauros bípedes herbívoros, que inclui espécies famosas como Iguanodon e os hadrossauros, conhecidos como “dinossauros de bico de pato”. Na Europa, uma das linhagens mais emblemáticas é a dos Rhabdodontidae, herbívoros de médio porte que dominam o registro fóssil do fim do Cretáceo, há cerca de 80 milhões de anos. Entre esses animais e formas mais primitivas, porém, existe uma sombra temporal de aproximadamente 70 milhões de anos.

É justamente nesse intervalo que Foskeia se encaixa. Com idade estimada em 120 milhões de anos, a espécie aparece como candidata a antepassado próximo, ou ao menos como parente muito próximo, da origem dos Rhabdodontidae na Europa. A combinação de corpo diminuto e crânio altamente derivado revela que a trajetória evolutiva do grupo é menos linear do que os modelos tradicionais sugerem. Em vez de um avanço gradual rumo a animais maiores e cada vez mais especializados, o cenário passa a incluir experimentos paralelos, com pequenas espécies testando soluções anatômicas sofisticadas.

O sítio de Vegagete reforça essa impressão. A presença de restos de vários indivíduos indica que a espécie não é um caso isolado, uma aberração evolutiva rara. Trata-se de um componente estável do ecossistema daquele pedaço da Espanha durante o início do Cretáceo. Em pleno interior do antigo supercontinente formado por Europa e outras massas de terra, pequenos bípedes herbívoros disputam espaço com predadores médios, crocodilomorfos e ancestrais de aves modernas, compondo uma paisagem muito mais diversa do que sugerem os grandes esqueletos de museu.

O que muda na forma de contar a história dos dinossauros

A principal consequência da descoberta é teórica, mas não fica restrita a debates acadêmicos. Livros, exposições e documentários sobre dinossauros ainda privilegiam animais gigantescos, com o peso de caminhões e comprimentos de ônibus articulados. Foskeia força uma correção de escala. Dinossauros bípedes herbívoros de menos de 50 centímetros de comprimento, com crânios cheios de inovações, passam a ocupar papel central na narrativa sobre a evolução do grupo.

Segundo os autores, a nova espécie mostra que a complexidade evolutiva não depende do tamanho do corpo. “Pequenos ornithopoda podem guardar as chaves para entender a origem de linhagens inteiras de herbívoros”, afirma a equipe no estudo. A revisão atinge também a forma como os paleontólogos interpretam o registro fóssil europeu. Lacunas que pareciam naturais, frutos de extinções ou migrações, podem ser em parte artefatos de amostragem: animais muito pequenos são mais difíceis de encontrar, escavar e identificar, sobretudo em sítios explorados desde o século 19 com foco em grandes ossos.

Museus e centros de pesquisa tendem a reagir rápido. Modelos em tamanho real, reconstruções digitais e material educativo sobre ornithopoda deverão incorporar Foskeia e parentes semelhantes. No ensino básico, a espécie oferece um exemplo concreto de como novas descobertas podem reescrever capítulos inteiros de livros didáticos em questão de anos, sem que isso signifique uma ciência instável, mas sim uma ciência em funcionamento.

Próximas escavações e novas perguntas abertas

O trabalho agora migra do laboratório de anatomia comparada de volta ao campo. A província de Burgos volta ao radar de expedições europeias e latino-americanas interessadas em encontrar fósseis tão ou mais delicados do que os já descritos. Novos levantamentos estratigráficos em Vegagete, programados para as próximas temporadas secas, miram camadas de rochas da mesma idade, em busca de outros indivíduos, ovos, ninhos ou até pegadas que revelem o comportamento de Foskeia.

Os próximos anos também devem trazer reavaliações de coleções antigas, em Burgos e em outros museus europeus, onde pequenas vértebras, fragmentos de mandíbula e dentes isolados podem ter sido catalogados de forma genérica. Agora, cada peça ganha potencial de pertencer a Foskeia ou a formas aparentadas. A nova espécie não encerra o debate sobre a origem dos Rhabdodontidae; inaugura uma fase em que pequenos dinossauros bípedes deixam de ser coadjuvantes e se tornam protagonistas na reconstrução da Era dos Dinossauros. A pergunta que fica é quantas outras histórias ainda repousam, milímetro a milímetro, nas rochas que cercam Burgos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *