Ciencia e Tecnologia

Cometa interestelar 3I/ATLAS revela moléculas orgânicas raras

Uma equipe liderada por Carey Lisse detecta, entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, moléculas orgânicas raras e um surto tardio de brilho no cometa interestelar 3I/ATLAS. O objeto atravessa o sistema solar a 221 mil km/h e exibe uma atmosfera dominada por dióxido de carbono, algo nunca visto em cometas.

Um visitante de fora do Sistema Solar

O 3I/ATLAS cruza o plano do sistema solar desde 2025 e, por algumas semanas, se torna um dos alvos mais disputados de grandes observatórios. O cometa é o terceiro objeto confirmado vindo de fora do sistema solar, depois de ’Oumuamua e do 2I/Borisov, e surge como o mais estranho do grupo. Logo após a detecção inicial, em 1º de julho de 2025, pelo telescópio Atlas, no Chile, astrônomos percebem que sua trajetória não fecha em torno do Sol. A órbita é hiperbólica, assinatura de um visitante interestelar de passagem única.

As primeiras medições colocam o cometa a cerca de 670 milhões de quilômetros do Sol, dentro da órbita de Júpiter, na direção da constelação de Sagitário, próxima ao centro da Via Láctea. Modelos de dinâmica orbital indicam que o 3I/ATLAS vaga pelo espaço interestelar há milhões de anos, depois de ser ejetado de outro sistema planetário. Uma simulação computacional, desenvolvida pela própria equipe de descoberta, sugere idade superior a 7 bilhões de anos, mais antiga que o próprio Sistema Solar, que tem cerca de 4,6 bilhões de anos.

Esse passado remoto ajuda a explicar o interesse incomum da comunidade científica. No jargão dos astrônomos, o cometa funciona como uma cápsula do tempo. Seu núcleo gelado preserva a química da região onde nasceu, em outro sistema estelar, antes mesmo de a Terra existir. Cada molécula identificada em sua atmosfera gasosa, a chamada coma, é uma pista sobre como planetas e materiais orgânicos podem se formar em outros cantos da galáxia.

Erupção tardia e química inesperada

O comportamento do 3I/ATLAS surpreende mesmo pesquisadores acostumados a acompanhar cometas. Quando o objeto passa pelo ponto mais próximo do Sol, no fim de 2025, não ocorre o pico de atividade esperado. O brilho aumenta, mas sem nada muito fora do padrão. Dois meses depois, porém, o quadro muda. “O cometa 3I/ATLAS entrou em erupção no espaço em dezembro de 2025, após sua passagem próxima pelo Sol, o que causou um aumento significativo em seu brilho. Até mesmo o gelo de água estava sublimando rapidamente em gás no espaço interplanetário”, afirma Carey Lisse, do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, em Maryland.

O atraso não é um capricho. Cometas são misturas frágeis de rocha e gelo, muitas vezes descritos como bolas de neve sujas. O aquecimento solar atinge primeiro as camadas superficiais. O calor leva tempo para atravessar o material poroso até alcançar os reservatórios mais profundos. Em alguns casos, como parece ocorrer agora, o gelo enterrado só começa a sublimar meses depois da passagem pelo ponto de maior aproximação. O resultado é uma espécie de explosão interna, que expulsa gás e poeira e faz o brilho disparar.

No caso do 3I/ATLAS, a equipe de Lisse calcula que cerca de um terço do núcleo é composto de gelo de água. À medida que a crosta se rompe, o cometa libera grandes quantidades de material rico em carbono, aprisionado há bilhões de anos. Observações combinadas de telescópios em solo e do Telescópio Espacial James Webb, o JWST, revelam uma lista impressionante de moléculas: metanol, metano, compostos à base de cianeto e outros blocos de construção da química orgânica.

Essas moléculas são familiares na Terra, onde participam de processos biológicos e industriais. Também podem surgir em ambientes sem qualquer relação com vida, em reações simples entre gelo, radiação e poeira. A relevância, para os cientistas, está na confirmação de que esse tipo de química não é exclusividade do nosso sistema planetário. Se cometas vindos de fora carregam os mesmos ingredientes básicos, a chance de materiais orgânicos se espalharem pela galáxia ganha novo peso.

Outro dado intriga os pesquisadores. A coma do 3I/ATLAS é dominada por dióxido de carbono, o CO₂, em concentração jamais vista em cometas observados até hoje. A maioria dos corpos gelados conhecidos na vizinhança solar expulsa principalmente água, seguida de monóxido de carbono e outros gases. No visitante interestelar, o padrão se inverte. O CO₂ se torna protagonista, o que sugere condições muito diferentes no berçário onde o cometa se formou.

Origem da vida e novos modelos para cometas

A presença de moléculas orgânicas em 3I/ATLAS reacende um debate antigo na astrobiologia: até que ponto cometas podem semear planetas com ingredientes essenciais à vida. Durante décadas, estudos propõem que objetos gelados tenham trazido parte da água e dos compostos de carbono que hoje sustentam a biosfera terrestre. A nova observação mostra que algo semelhante pode ocorrer em outros sistemas estelares, multiplicando o número de cenários potenciais para a química pré-biótica.

Na prática, o resultado alimenta não apenas teorias sobre a origem da vida, mas também modelos de formação planetária. A composição incomum, rica em dióxido de carbono, obriga astrônomos a rever simulações de discos de gás e poeira em torno de estrelas jovens. Se é possível formar cometas tão antigos e tão carregados de CO₂, a distribuição de gelo e gás em sistemas em nascimento talvez seja mais diversa do que sugerem os modelos atuais.

O comportamento dinâmico do 3I/ATLAS acrescenta outra peça ao quebra-cabeça. A velocidade de 221 mil quilômetros por hora, ou 61 quilômetros por segundo, impede que o visitante seja capturado pela gravidade solar. O objeto cruza o sistema e segue em frente, sem chance de retorno. Ao acompanhar sua trajetória acelerada, os astrônomos refinam hipóteses sobre como objetos interestelares são lançados para fora de seus sistemas de origem, muitas vezes após encontros gravitacionais violentos com planetas gigantes.

O estudo faz eco também em áreas menos óbvias, como a política científica e o interesse público por missões espaciais. A combinação de observações de telescópios em solo com o olhar do JWST reforça a ideia de que grandes instrumentos internacionais, caros e complexos, podem produzir ciência difícil de se obter de outra forma. Ao mesmo tempo, histórias de visitantes interestelares costumam capturar a imaginação do público, o que ajuda a justificar investimentos prolongados em infraestrutura astronômica.

O que os astrônomos buscam agora

O 3I/ATLAS já começa a se afastar, e o tempo de estudo se encurta. A cada semana, o cometa perde brilho e se distancia dos grandes telescópios. A equipe de Lisse corre para extrair o máximo de dados antes que o visitante fique fraco demais para novas medições detalhadas. A prioridade é acompanhar como a atividade diminui, que moléculas persistem por mais tempo e quanto material rico em carbono o núcleo ainda libera.

Os espectros coletados pelo JWST e por observatórios em solo devem alimentar modelos por anos. Pesquisadores esperam comparar o 3I/ATLAS com o 2I/Borisov e com cometas típicos do Sistema Solar, em busca de padrões e exceções. A meta é construir um mapa mais realista da diversidade de cometas na galáxia, capaz de indicar onde ingredientes orgânicos são mais abundantes e como eles viajam entre estrelas. Cada novo visitante interestelar vai entrar nessa estatística.

Para o público, o 3I/ATLAS talvez desapareça rapidamente das manchetes. Nos painéis dos astrônomos, porém, o cometa continua por perto, congelado em gráficos e simulações que tentam reconstruir sua origem. A pergunta que persiste é simples e ambiciosa: quantos mundos, além do nosso, recebem visitas semelhantes, carregando moléculas que, um dia, podem se tornar vida?

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