Laudo da PF diz que Bolsonaro pode permanecer preso na Papudinha
Laudo médico da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal nesta sexta-feira (6/2) conclui que Jair Bolsonaro tem condições clínicas de permanecer preso na Papudinha. O documento afirma que as doenças crônicas do ex-presidente estão controladas e descarta, por ora, a necessidade de transferência para um hospital. A decisão final sobre o regime de custódia caberá ao ministro Alexandre de Moraes.
Doenças crônicas sob controle e rotina adaptada no presídio
O parecer técnico, assinado por uma junta médica da PF, analisa detalhadamente o estado de saúde de Bolsonaro, de 70 anos. Os peritos descrevem um quadro de múltiplas doenças crônicas, mas ressaltam que todas se mantêm estáveis e podem ser acompanhadas dentro do sistema prisional, desde que o presídio adote ajustes na rotina e na estrutura.
Segundo o laudo, o ex-presidente é portador de hipertensão arterial, apneia obstrutiva do sono, obesidade clínica, aterosclerose, doença do refluxo gastroesofágico, queratose actínica e aderências intra-abdominais decorrentes de cirurgias anteriores. Essas condições exigem monitoramento contínuo, uso de medicamentos em horários regulares e acesso periódico a exames laboratoriais e de imagem.
Os médicos afirmam que o quadro geral é «estável» e compatível com a permanência na Papudinha. O relatório enfatiza que não há, neste momento, sinal de agravamento súbito que justifique a remoção imediata para um hospital. Em vez disso, a junta recomenda um pacote de medidas paliativas e preventivas dentro da unidade prisional para reduzir riscos, sobretudo de novas quedas.
Entre as recomendações, o laudo sugere a instalação de barras de apoio em corredores e banheiros, campainha de emergência ou botão de pânico na cela e dispositivos de monitoramento em tempo real. A equipe também defende uma avaliação nutricional formal, com dieta fracionada ao longo do dia, além de incentivo à atividade física regular e sessões de fisioterapia voltadas à manutenção da mobilidade e ao equilíbrio.
Os peritos chamam atenção especial para o controle da pressão arterial e para a necessidade de hidratação adequada, fatores que podem interferir diretamente na ocorrência de tonturas e desmaios. O relatório reforça o uso contínuo do aparelho CPAP, equipamento que ajuda a manter as vias aéreas abertas durante o sono e é considerado essencial no tratamento da apneia. “Todas as medidas propostas podem ser implementadas no ambiente carcerário, sem prejuízo à segurança e ao tratamento médico do custodiado”, registra o texto técnico.
Defesa em xeque e impacto na disputa política
A avaliação da PF confronta de forma direta a narrativa apresentada pela defesa do ex-presidente nas últimas semanas. Advogados vinham alegando piora acentuada do quadro clínico e risco de depressão, argumento usado em pedidos de flexibilização do regime de custódia e de transferência para uma unidade hospitalar. O laudo descarta diagnóstico de depressão e não vê, até agora, indicação de internação.
Os médicos, porém, recomendam investigação neurológica complementar. A junta relata histórico recente de tonturas e episódios de queda, associados ao uso simultâneo de vários medicamentos. A preocupação é identificar se há algum fator neurológico adicional que aumente o risco de acidentes graves, como traumas cranianos, dentro da cela ou em deslocamentos internos.
O parecer chega ao STF em um momento em que o peso político de Bolsonaro segue evidente, mesmo com o ex-presidente inelegível e preso. A direita institucional ainda testa lideranças, mas nenhuma figura alcança o mesmo nível de mobilização eleitoral. A permanência dele na Papudinha, sem transferência para hospital, preserva a imagem de um líder submetido às regras comuns do sistema penal, mas também alimenta a narrativa de perseguição usada por apoiadores.
No plano jurídico, o laudo da PF funciona como uma espécie de linha de base para decisões futuras. Ao afirmar que o quadro é estável e manejável no presídio, os peritos reduzem o espaço para pedidos urgentes de mudança de regime com base exclusiva em razões médicas. Especialistas em direito penal ouvidos em outras ocasiões lembram que, em casos semelhantes, o STF costuma seguir o parecer técnico, sobretudo quando não há laudo contraditório consistente apresentado pela defesa.
A discussão extrapola a figura de Bolsonaro e alcança o debate mais amplo sobre o direito à saúde no sistema carcerário. O caso expõe as condições de atendimento médico em presídios e a capacidade real do Estado de adaptar estruturas para custodiados com doenças crônicas. Organizações de direitos humanos apontam há anos a distância entre a previsão legal de atendimento digno e a realidade de superlotação e precariedade.
Moraes decide próximo passo e sistema prisional entra em foco
O laudo agora passa à análise do ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos envolvendo Bolsonaro no STF. Caberá a ele avaliar se mantém o ex-presidente na Papudinha, se determina reforço imediato das medidas recomendadas pela PF ou se abre espaço para algum tipo de flexibilização de rotina, como deslocamentos pontuais para exames e consultas fora do presídio. A decisão pode sair nos próximos dias e tende a balizar novos pedidos da defesa.
Qualquer mudança no regime de custódia terá reflexos políticos imediatos. Uma eventual transferência para hospital alimentaria discursos de tratamento privilegiado. A manutenção na Papudinha, acompanhada de maior estrutura médica interna, reforçaria o argumento de que o ex-presidente responde aos processos nas mesmas condições de outros presos com doenças crônicas controladas. Em ambos os cenários, cresce a pressão sobre o sistema penitenciário para garantir, na prática, aquilo que o laudo considera viável no papel.
O caso também abre brecha para uma discussão mais ampla no Congresso e nos tribunais sobre protocolos mínimos de atendimento a detentos com múltiplas comorbidades. A forma como o STF tratará o ex-presidente tende a servir de referência, ainda que indireta, para casos futuros que envolvam figuras menos conhecidas e sem o mesmo capital político. A pergunta que permanece é se a adaptação prometida para Bolsonaro será exceção de alto perfil ou ponto de partida para uma política mais uniforme de saúde no cárcere.
