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Equador protesta após tentativa de invasão de agente do ICE a consulado

Um agente do ICE tenta entrar à força no consulado do Equador em Minneapolis nesta terça-feira (27), é barrado por funcionários e desencadeia uma crise diplomática. O governo equatoriano reage com nota formal de protesto aos Estados Unidos e acusa violação de proteção internacional a missões consulares.

Tensão em meio à ofensiva contra imigrantes

O episódio ocorre no auge de uma série de operações do governo Donald Trump contra imigrantes na região de Minneapolis. Em menos de um mês, ações federais já resultam na morte de dois cidadãos americanos, segundo autoridades locais, e alimentam protestos diários na cidade.

O Ministério das Relações Exteriores do Equador afirma que o agente tenta atravessar a porta do consulado na manhã de terça-feira, sem autorização. Funcionários bloqueiam a passagem e acionam, em seguida, os protocolos internos de emergência para proteger o prédio e os cidadãos equatorianos que aguardam atendimento no local.

Em comunicado oficial, o governo equatoriano relata que “os funcionários impediram a entrada” do agente e mantêm o consulado em alerta. A sede consular, situada em uma zona comercial de Minneapolis, recebe imigrantes em busca de documentos e assistência consular em meio ao clima de perseguição migratória.

Após o incidente, a ministra das Relações Exteriores, Gabriela Sommerfeld, envia uma nota de protesto à Embaixada dos Estados Unidos em Quito. Na mensagem, o Equador exige garantias de que “atos dessa natureza não se repitam em nenhuma das repartições consulares do Equador nos EUA”. Até o início da noite, nem o ICE nem a Casa Branca comentam publicamente o caso.

O direito internacional é claro nesse ponto. A Convenção de Viena sobre Relações Consulares, em vigor desde 1967, determina que agentes do país-sede não podem entrar em consulados ou embaixadas sem o consentimento expresso do chefe da missão. A tentativa de acesso forçado, ainda que sem disparos nem prisões, é tratada por diplomatas como violação grave da imunidade consular.

Diplomacia sob pressão e cicatrizes recentes

A crise atinge dois governos que, no papel, mantêm alinhamento estreito. O presidente equatoriano Daniel Noboa é visto em Washington como aliado de primeira linha na América do Sul. Em 2025, meses após o retorno de Trump à Casa Branca, Noboa viaja aos EUA e se torna um dos primeiros líderes da região a ser recebido no Salão Oval.

A cooperação se concentra sobretudo na agenda de segurança. Quito busca ampliar o apoio americano no combate ao narcotráfico e a grupos armados que ampliam sua presença no Equador desde 2023. O gesto de protesto desta semana, porém, expõe os limites dessa aproximação quando a proteção de cidadãos no exterior entra em jogo.

O histórico recente do próprio governo Noboa torna o episódio ainda mais sensível. Em abril de 2024, forças policiais equatorianas invadem a embaixada do México em Quito para prender o ex-vice-presidente Jorge Glas, acusado de corrupção. A operação, classificada por especialistas como ruptura frontal do direito internacional, leva o México a romper relações diplomáticas. Desde então, os dois países não mantêm contato direto, e a Suíça atua como intermediária.

Diplomatas ouvidos reservadamente apontam a ironia. Um governo acusado de desrespeitar uma embaixada estrangeira agora invoca, com veemência, a mesma Convenção de Viena para proteger a própria rede consular nos Estados Unidos. A diferença, argumentam, é que a tentativa do agente do ICE é contida antes que haja invasão de fato, enquanto a operação equatoriana em Quito resulta na prisão de um asilado dentro de recinto diplomático mexicano.

A tensão com Washington se soma à pressão doméstica sobre o governo Trump. Em Minneapolis, o prefeito Jacob Frey anuncia, também nesta semana, a retirada gradual de agentes federais do ICE da cidade. A medida vem após semanas de manifestações contra a repressão a imigrantes e denúncias de abusos em batidas migratórias em bairros de maioria latina e africana.

Frey relata ter conversado por telefone com o presidente e diz ter cobrado o fim das operações atuais. “Apreciei a conversa”, afirma o democrata em publicação no Instagram. Segundo ele, Trump admite que “a situação atual não pode continuar”. O presidente descreve o diálogo como “muito bom”, enquanto Tom Homan, czar da fronteira da Casa Branca, agenda reunião com o prefeito para discutir novos limites às ações federais na cidade.

Mortes, medo e recuo parcial do ICE

O confronto no consulado ocorre poucos dias depois da morte do enfermeiro Alex Pretti, 37, em uma abordagem do ICE. Nascido em Illinois, ele é cidadão americano e não tem pendências migratórias conhecidas. Segundo a polícia de Minneapolis, Pretti é encontrado no sábado (24) com múltiplos ferimentos de arma de fogo e morre no hospital horas depois.

O Departamento de Segurança Interna afirma que o enfermeiro se aproxima dos agentes “com uma pistola semiautomática de 9 mm”, o que teria provocado “uma luta armada”. A versão oficial não acalma os protestos. Entidades de defesa de imigrantes cobram investigação independente, alegam uso desproporcional da força e relacionam a morte às táticas agressivas adotadas pelo governo federal desde o início de janeiro.

Para organizações locais, a tentativa de entrada forçada no consulado equatoriano simboliza a expansão dessa lógica para dentro de espaços até então considerados intocáveis. Representações diplomáticas costumam ser refúgio para estrangeiros em situação de risco, inclusive em operações migratórias. Um avanço de agentes armados sobre essas áreas, ainda que frustrado, aumenta o clima de medo entre imigrantes e pressiona consulados a reforçar esquemas de segurança.

O anúncio de Jacob Frey sobre a retirada gradual de agentes do ICE de Minneapolis tenta conter essa escalada. O prefeito enfatiza que a cidade continuará a cooperar com autoridades estaduais e federais “em investigações criminais reais”, mas recusa participação em “prisões inconstitucionais de nossos vizinhos” ou na aplicação direta da lei migratória federal. “Criminosos violentos devem ser responsabilizados pelos crimes que cometem, e não com base em sua origem”, afirma.

Na prática, o recuo limita o acesso do ICE a informações e recursos locais, como o uso de delegacias municipais para detenções de rotina. Especialistas alertam, porém, que a decisão não impede novas operações unilaterais de agentes federais, como a que leva à morte de Pretti nem a que atinge o consulado do Equador. O poder de definir prioridades nacionais de imigração continua concentrado em Washington.

Crise aberta e incerteza diplomática

No plano internacional, a nota de protesto enviada por Gabriela Sommerfeld abre uma nova frente de tensão entre Quito e Washington. O Equador cobra explicações formais, pede responsabilização do agente envolvido e reforça o pedido de respeito às instalações consulares. Até agora, não há registro de pedido de desculpas público ou de anúncio de apuração interna por parte dos EUA.

Diplomatas avaliam que o episódio pode testar o equilíbrio da relação entre Trump e Noboa, construída em torno da agenda de segurança e combate ao narcotráfico. Um endurecimento do tom equatoriano, com convocação do embaixador em Washington ou medidas de retaliação simbólica, não está descartado se o governo americano minimizar o ocorrido ou insistir na legalidade da ação do ICE.

Nas ruas de Minneapolis, a crise consular se mistura ao cotidiano de medo em comunidades imigrantes. Famílias ajustam rotinas, evitam escolas, postos de saúde e até igrejas com receio de novas batidas. Consulados latino-americanos intensificam orientações sobre direitos básicos, carregam linhas telefônicas de emergência e tentam equilibrar o dever de proteger seus cidadãos com a necessidade de manter canais abertos com autoridades americanas.

O desfecho imediato depende da resposta de Washington, ainda ausente. Uma investigação transparente sobre a conduta do agente, aliada a garantias explícitas de respeito às normas internacionais, pode conter a crise. O silêncio prolongado, em um cenário de mortes recentes e recuo parcial do ICE em Minneapolis, tende a transformar um episódio de porta barrada em símbolo de algo maior: até onde o governo dos Estados Unidos está disposto a ir em nome da política migratória?

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