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Acordo UE–Índia reposiciona Mercosul na fila dos tratados

A União Europeia anuncia, em janeiro de 2026, um amplo acordo comercial com a Índia e envia um recado direto ao Mercosul: a prioridade mudou. O tratado europeu‑indiano reorganiza a fila dos parceiros estratégicos de Bruxelas, acende alerta em Brasília, Buenos Aires e Montevidéu e abre uma nova disputa por acesso preferencial ao maior mercado consumidor do mundo.

Europa muda o eixo da sua agenda comercial

O acerto com Nova Délhi nasce após quase duas décadas de idas e vindas entre europeus e indianos, mas ganha velocidade nos últimos três anos, em meio à disputa tecnológica com a China e à guerra na Ucrânia. Na prática, a UE aproxima um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores de uma economia que ultrapassa 1,4 bilhão de habitantes e figura entre as cinco maiores do planeta. Em Bruxelas, diplomatas falam em um “salto de escala” nas relações com a Ásia.

Enquanto europeu e indianos destravam tarifas, regras para serviços digitais e compras governamentais, o acordo com o Mercosul permanece travado por exigências ambientais adicionais, resistência de setores agrícolas europeus e divergências internas no bloco sul-americano. O contraste é lido em capitais da região como um sinal de hierarquia: a Índia, com crescimento anual perto de 7%, entra na frente; o Mercosul, que reúne cerca de 270 milhões de habitantes, segue em compasso de espera.

Negociadores que acompanharam as conversas descrevem o acordo UE–Índia como um “pivô estratégico” após o fracasso de tentativas de ampliar o tratado com os Estados Unidos e a demora para consolidar parcerias na América Latina. Em números preliminares, técnicos europeus projetam que o comércio bilateral com a Índia, hoje em torno de € 120 bilhões por ano, possa dobrar em dez anos, alcançando algo próximo de € 240 bilhões, com cortes graduais de tarifas em setores industriais, farmacêuticos e de tecnologia da informação.

No mesmo período, o intercâmbio entre UE e Mercosul gira em torno de € 80 bilhões anuais, concentrado em commodities agrícolas, minerais e alguns segmentos industriais. O temor em governos sul-americanos é que, com o novo tratado, parte dos investimentos e da atenção política de Bruxelas migre de forma duradoura para o eixo euro‑indiano, reduzindo o apetite europeu por concessões adicionais na mesa com o Mercosul.

Impacto direto nas negociações com o Mercosul

O acordo europeu‑indiano atinge o Mercosul em um momento de cansaço negociador. Depois de o texto político com a UE ter sido anunciado em 2019, o pacto patina em adendos ambientais, disputas sobre compras governamentais e metas de desmatamento. A inclusão da Índia na lista de parceiros prioritários coloca pressão extra sobre os quatro países do bloco sul-americano, que veem a janela de oportunidade se estreitar.

Em Brasília, diplomatas admitem, em reservado, que a mensagem europeia é cristalina. “A UE sinaliza que tem alternativas e que a fila anda”, avalia um negociador brasileiro que acompanha o tema há mais de dez anos. Segundo ele, a leitura em chancelerias da região é de que o Mercosul precisa decidir, nos próximos 12 a 18 meses, se aceita as condições adicionais propostas por Bruxelas ou se arrisca a ver o acordo perder relevância diante de novos pactos firmados pela UE com a Índia e outros parceiros asiáticos.

Na prática, setores exportadores sul-americanos temem perder terreno. O agronegócio do Mercosul, responsável por cerca de 40% das exportações do bloco para a UE, avalia que uma Índia com melhor acesso ao mercado europeu de têxteis, químicos e serviços pode capturar espaço político antes ocupado pelo lobby agrícola latino-americano. Ao mesmo tempo, industriais brasileiros e argentinos veem com preocupação a possibilidade de empresas europeias priorizarem plantas e parcerias na Índia, onde o custo de mão de obra é mais baixo e o mercado doméstico oferece escala maior.

Especialistas em comércio exterior lembram que a Índia já se projeta como uma alternativa parcial à manufatura chinesa, sobretudo em eletrônicos, software e farmacêuticos. Um acordo que reduza tarifas em até 90% de determinadas listas de produtos, ao longo de um período de transição de 10 a 15 anos, tende a tornar o país ainda mais atraente para multinacionais europeias. “O Mercosul corre o risco de ficar preso a um papel de fornecedor de matérias‑primas, enquanto a Índia oferece integração em cadeias de valor de maior tecnologia”, resume um economista ouvido pela reportagem.

O efeito político é imediato. Ao ver a Índia avançar, governos do Mercosul enfrentam pressão de empresários por respostas concretas: acelerar reformas internas, reduzir barreiras intrabloco ou mesmo flexibilizar a regra de negociar apenas em conjunto com os quatro países. No Congresso brasileiro, parlamentares já falam em prazos. Se o acordo UE–Mercosul não sair do papel até 2027, avaliam, cresce o argumento de que o Brasil deve buscar arranjos paralelos, mesmo que isso esvazie o bloco.

O que vem a seguir para o Mercosul

A assinatura política entre UE e Índia ainda depende de tradução em milhares de páginas de anexos técnicos, cronogramas de redução tarifária e cláusulas de salvaguarda. O processo deve consumir ao menos 24 meses, o que empurra a entrada em vigor plena para 2028 ou 2029. Para o Mercosul, esse intervalo funciona como prazo decisivo: ou o bloco entrega um acordo robusto com a Europa até lá, ou encara um cenário em que chegará atrasado a uma mesa já ocupada por asiáticos com mais peso econômico.

Chancelarias sul-americanas trabalham com dois cenários. No primeiro, o avanço do pacto UE–Índia leva Bruxelas a buscar, ainda em 2026, um gesto político com o Mercosul, retomando rodadas técnicas e revisando pontos mais sensíveis, como compras públicas e cláusulas ambientais, para evitar a imagem de abandono da América do Sul. No segundo, considerado mais provável por analistas independentes, a Europa aproveita o novo acordo para endurecer a posição, exigindo metas climáticas mais ambiciosas e maior abertura de mercado como condição para fechar o texto.

Governos da região tentam transformar a ameaça em oportunidade. Ao aproximar-se de Índia e de outros emergentes asiáticos, o Mercosul busca mostrar à UE que também tem alternativas. A estratégia, porém, esbarra em limitações internas: conflitos tarifários entre Brasil e Argentina, dificuldade de harmonizar regras e resistência a abrir economias ainda protegidas por barreiras que somam, em alguns setores, tarifas acima de 30%.

O acordo UE–Índia expõe, com clareza numérica e política, a nova geografia das prioridades europeias. O Mercosul entra em 2026 diante de uma escolha incômoda: acelerar reformas e aceitar concessões para não perder o bonde ou acomodar‑se em um papel secundário na economia global. A resposta, que passa por decisões nos próximos poucos anos, definirá se o bloco sul-americano seguirá como ator relevante nas grandes mesas de negociação ou se ficará assistindo, de fora, à redistribuição do poder comercial no século 21.

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