Marco Rubio admite possível uso da força dos EUA contra Venezuela
O senador republicano Marco Rubio afirma nesta quinta-feira (29) que os Estados Unidos não descartam o uso da força contra a Venezuela, caso a sucessora interina de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez, não coopere com Washington. A declaração, feita em pronunciamentos públicos, reacende o temor de uma escalada militar na América do Sul.
Pressão explícita sobre o governo interino de Caracas
Rubio, um dos parlamentares mais influentes da ala republicana em temas de política externa, escolhe palavras calculadas, mas diretas. Em mensagem pública, ele afirma que “todas as opções permanecem sobre a mesa” se o governo interino de Delcy Rodríguez se recusar a dialogar e a cumprir exigências dos Estados Unidos em relação à transição política em Caracas. A advertência, classificada por assessores como formal, mira um governo que ainda tenta se firmar após a saída de Maduro do poder.
O pronunciamento ocorre em 29 de janeiro de 2026, em meio à disputa pela redefinição da ordem política venezuelana. O recado público amplia a pressão num momento em que Washington discute novas sanções econômicas e condiciona qualquer alívio a gestos concretos de cooperação. O foco imediato é a forma como Delcy Rodríguez vai conduzir as próximas semanas, consideradas críticas para a estabilização do país.
Rubio constrói sua influência sobre o dossiê venezuelano ao longo de quase dez anos. Desde 2017, ele defende sanções duras contra figuras-chave do chavismo e pressiona por uma transição rápida. A mudança de interlocutor em Caracas, com Delcy assumindo interinamente, não altera o tom. Pelo contrário. “A legitimidade depende de ações, não de cargos”, costuma dizer em reuniões fechadas, segundo pessoas próximas às negociações.
O sinal de que a opção militar volta ao debate, mesmo sem prazo explícito, provoca reação imediata de diplomatas latino-americanos. Em conversas reservadas, embaixadores em Washington descrevem o alerta como um movimento arriscado, que pode empurrar a crise venezuelana para um ponto sem retorno. A avaliação é de que qualquer referência ao uso da força, ainda que condicional, mexe com a memória recente da região, marcada por intervenções e golpes apoiados de fora.
Risco de escalada regional e impacto econômico
A Venezuela vive uma crise prolongada, com inflação acumulada de três dígitos ao ano e retração econômica que supera 75% em pouco mais de uma década, segundo dados de organismos multilaterais. A fragilidade interna transforma o país em epicentro de instabilidade, com impacto direto sobre fronteiras terrestres e fluxos migratórios que afetam Brasil, Colômbia e Caribe. A possibilidade de ação militar estrangeira adiciona uma camada extra de incerteza a esse quadro.
Nos mercados, qualquer ruído vindo de Washington costuma se refletir rapidamente no preço do barril de petróleo. A Venezuela detém uma das maiores reservas provadas do mundo, e rumores de sanções adicionais ou de conflito armado tendem a pressionar cotações, ainda que em movimentos curtos. Investidores monitoram sinalizações da Casa Branca e do Departamento de Estado, que, por ora, evitam endossar a retórica mais dura, mas não a desautorizam publicamente.
Aliados dos Estados Unidos na região avaliam como reagir. Governos que apoiaram sanções econômicas contra o chavismo, sobretudo a partir de 2019, demonstram desconforto com qualquer discussão aberta sobre intervenção militar. Em público, chefes de Estado defendem solução negociada e eleição supervisionada por organismos internacionais. Em privado, assessores admitem que uma operação armada poderia redesenhar alianças e afastar parte significativa da opinião pública latino-americana de Washington.
O governo interino de Delcy Rodríguez enfrenta um tabuleiro complexo. Pressionado por sanções que já afetam duramente a exportação de petróleo e o acesso a crédito externo, o país precisa dar sinais de estabilidade para atrair investimentos mínimos em infraestrutura e serviços básicos. A ameaça velada de uso da força adiciona um elemento político explosivo: qualquer gesto de cooperação com os Estados Unidos pode ser visto internamente como capitulação, enquanto a confrontação aberta aumenta o risco de isolamento completo.
Organismos internacionais acompanham a escalada verbal com preocupação. Em reuniões recentes, diplomatas discutem caminhos para mediar a relação entre Washington e Caracas, tentando evitar que a lógica de pressão e resposta empurre os dois lados para um confronto de difícil reversão. A lembrança de crises anteriores, como as intervenções no Iraque em 2003 e na Líbia em 2011, aparece como advertência silenciosa sobre os custos de ações unilaterais.
Próximos passos e incertezas abertas
O cálculo político de Marco Rubio mira, ao mesmo tempo, o público doméstico e os interlocutores externos. Ao endurecer o discurso, o senador reforça sua imagem de defensor de uma linha dura contra regimes autoritários na América Latina, em sintonia com comunidades de imigrantes venezuelanos e cubanos concentradas na Flórida. A postura, porém, tem efeito direto sobre a margem de manobra da própria diplomacia americana, que passa a operar sob o olhar de uma promessa de força sempre presente.
Delcy Rodríguez, por sua vez, precisa decidir se responde à altura ou tenta baixar o tom. Um gesto de abertura ao diálogo com os Estados Unidos poderia destravar negociações sobre sanções em um horizonte de 6 a 12 meses, segundo fontes envolvidas nas conversas. Um movimento em sentido oposto, com discurso nacionalista e aproximação acelerada de aliados como Rússia, China ou Irã, tende a alongar a crise e a manter o país em estado de emergência permanente.
O cenário imediato aponta para semanas de teste. Washington avalia, dia a dia, sinais vindos de Caracas: nomeações para cargos-chave, calendário eleitoral, liberação ou não de presos políticos e abertura para missões internacionais de observação. Cada gesto pode ser interpretado como avanço ou retrocesso e, na prática, calibrar o volume da ameaça de força.
A advertência de Rubio não define, sozinha, o rumo da política externa dos Estados Unidos, mas funciona como termômetro da impaciência em parte do Congresso com a lentidão da transição venezuelana. A pergunta que permanece, em Washington e em Caracas, é até onde essa retórica vai antes de se transformar em ação concreta — diplomática, econômica ou militar.
