PT e governo priorizam fim da escala 6×1 e caso Banco Master
O PT e o governo Lula definem, nesta quarta-feira (28/1), as primeiras prioridades do ano legislativo na Câmara dos Deputados. No centro da ofensiva estão o fim da escala 6×1, a investigação do caso Banco Master e uma agenda econômica voltada a salário mínimo, Imposto de Renda e medidas provisórias estratégicas.
Reorganização da Câmara em ano decisivo
A reunião de líderes na Câmara marca o início de um semestre em que a disputa política se cruza com o calendário eleitoral. O líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), e o líder do governo, José Guimarães (CE), saem do encontro com uma lista de prioridades que combina recados para a base de trabalhadores, sinalizações ao mercado e demonstração de força no combate ao crime organizado.
No topo da pauta petista está o fim da escala 6×1, regime que permite seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso. Lindbergh trata o tema como vitrine social para 2026 e tenta acelerar a tramitação. “Para nós, a votação do fim da escala 6×1 é algo central. Central para o PT, central para o governo”, afirma, ao defender que o projeto saia rapidamente da Comissão de Trabalho e chegue ao plenário em regime de urgência.
O cálculo político é direto. Em um ano em que prefeitos e vereadores voltam às urnas em outubro, o governo quer chegar ao meio do ano com entregas concretas na pauta trabalhista e na renda da população. A discussão sobre jornada de trabalho se soma ao discurso oficial de queda do desemprego, aumento da renda média e recuperação do poder de compra desde 2023, elementos que o Planalto pretende explorar em todas as frentes.
Lindbergh também empurra para o centro do debate a promessa de isenção maior do Imposto de Renda da pessoa física e o reajuste do salário mínimo acima da inflação, previstos para 2026. Para o líder petista, essa combinação cria contraste com a política econômica dos governos anteriores. “Esse debate favorece muito o presidente Lula”, resume, ao apontar que o governo tentará associar cada avanço econômico a decisões do Congresso.
Banco Master, crime financeiro e disputa de narrativa
O caso Banco Master entra na agenda como símbolo da prometida tolerância zero ao crime financeiro. O banco é liquidado pelo Banco Central no fim de 2025, após sucessivas operações da Polícia Federal. Lindbergh classifica o episódio como “a maior fraude bancária da história do país” e cobra protagonismo do Congresso na investigação política do esquema.
O apoio à CPI proposta pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) é explícito. O líder do PT reconhece os limites das comissões parlamentares de inquérito, mas insiste no papel de pressão e exposição pública. “O que estava acontecendo no Banco Master era inadmissível”, diz, ao afirmar que “vai aparecer muita coisa” quando o Parlamento passar a acompanhar de perto as apurações já tocadas por Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público.
Nos bastidores, deputados relatam que houve forte pressão política para evitar a liquidação do banco, acusado de operações fraudulentas de crédito, uso irregular de garantias e possível lavagem de dinheiro. Lindbergh sugere que o governo decide “ir por outro caminho” e sustentar a decisão técnica do Banco Central, em vez de buscar uma saída negociada que preservasse a instituição.
Ao dar visibilidade ao caso, o Planalto tenta inverter um roteiro comum em escândalos financeiros: em vez de ser acusado de leniência com o chamado “andar de cima do crime organizado”, o governo quer aparecer como responsável por expor e punir a fraude. Em ano eleitoral, a aposta é que a narrativa de combate ao crime não se restrinja às favelas e fronteiras, mas alcance o sistema financeiro, historicamente blindado do escrutínio público.
A lista de prioridades de Guimarães reforça essa estratégia de calibrar discurso social e responsabilidade fiscal. No curto prazo, o líder do governo concentra forças na organização interna da Câmara e nas medidas provisórias que garantem combustível político para o início de 2026. Ele descreve a reunião como um esforço para “organizar a pauta até o Carnaval” e evitar dispersão em temas que ainda dividem a base.
Impacto na economia, no Congresso e nas eleições
O primeiro passo é fechar, nos próximos dias, a composição das comissões permanentes, mantendo a divisão partidária de 2025 e alterando apenas os nomes indicados. O modelo, proposto pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e “acolhido por todos os líderes”, segundo Guimarães, deve reduzir disputas abertas por espaços de poder e liberar energia para as votações mais sensíveis.
Na sequência, o governo mira duas medidas provisórias com impacto direto no orçamento das famílias e do agronegócio. A MP do Gás do Povo e a MP de crédito extraordinário para o setor rural entram na fila antes do Carnaval, acompanhadas da manutenção do Vale Gás. Essas medidas, somadas à discussão sobre reajuste do salário mínimo e ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, formam o núcleo da agenda econômica que o Planalto tenta vender ao eleitorado de baixa renda.
O tabuleiro internacional também avança. Guimarães reafirma que o acordo Mercosul–União Europeia é “prioridade absoluta” e diz trabalhar para que o texto chegue ao Congresso ainda em fevereiro. A meta, ambiciosa, é votar o tratado antes do Carnaval, se houver tempo para cumprir os ritos internos. O governo avalia que a aprovação pode sinalizar previsibilidade aos parceiros estrangeiros, em um momento em que o país tenta atrair investimentos em infraestrutura, energia limpa e indústria.
A segurança pública entra em outra frente. A PEC da Segurança Pública tem calendário combinado: deve ser apreciada em comissão especial até 23 de fevereiro. O texto busca reorganizar competências entre União, estados e municípios e fixar princípios para atuação das polícias, da inteligência e do sistema prisional. O governo quer usar a proposta como resposta institucional ao avanço do crime organizado, ao lado das investigações financeiras e das operações policiais em curso.
Enquanto empilha prioridades, a base governista escolhe o que deixar para depois. Novas CPIs, disputas por relatorias estratégicas e projetos de maior potencial de desgaste ficam fora da pauta imediata. A avaliação é que, com um Congresso mais sensível às pressões locais por causa das eleições municipais, temas polêmicos tendem a inflamar o ambiente e travar a agenda econômica que o Planalto considera urgente.
Disputa de tempo e de narrativa no primeiro semestre
O planejamento até o Carnaval funciona como espécie de teste de coordenação política. Se o governo conseguir avançar nas medidas provisórias, instalar as comissões, iniciar o debate da PEC da Segurança Pública e destravar o acordo Mercosul–União Europeia, chegará ao recesso de fevereiro com um saldo a apresentar.
O fim da escala 6×1, se aprovado ainda no primeiro semestre, tende a se transformar em bandeira imediata para sindicatos e movimentos de trabalhadores, com potencial de pressionar setores empresariais e governadores. A resposta das empresas, especialmente em comércio e serviços, dirá quanto dessa agenda será sustentável sem novos embates sobre custo trabalhista e produtividade.
A CPI do Banco Master, se instalada, pode abrir um novo ciclo de exposição de relações entre grupos financeiros, agentes públicos e políticos de diferentes partidos. A dimensão real da fraude, os valores envolvidos e a responsabilização dos beneficiados ainda são incógnitas, mas o governo aposta que, ao endossar a investigação, diminui o risco de ser arrastado para o centro do escândalo.
O primeiro semestre de 2026 começa, assim, com o Congresso dividido entre acelerar entregas econômicas, enfrentar o crime organizado em suas várias camadas e administrar o calor das disputas locais. A velocidade com que a Câmara transformará essa lista de prioridades em leis e investigações concretas pode definir não só o humor do eleitorado, mas também o fôlego político do governo Lula até a véspera das urnas municipais.
