Professor de capoeira Chaolin é assassinado a tiros em Nilópolis
O professor de capoeira Marcos André Viana de Souza, conhecido como Chaolin, é assassinado a tiros na noite desta terça-feira (28) em Nilópolis, na Baixada Fluminense. Ele é atacado logo após sair da academia onde dava aulas. O suspeito do crime é preso horas depois, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
Assassinato expõe clima de medo e interrompe rotina da comunidade
A morte de Chaolin quebra a rotina de quem vive e treina na região central de Nilópolis. O professor, de 40 anos, sai do trabalho como faz quase todos os dias, atravessa a rua depois da aula e não chega em casa. Disparos interrompem o trajeto de poucos metros entre a academia e o portão da rua seguinte. Moradores chamam o socorro, mas ele não resiste aos ferimentos.
O crime ocorre em uma área cercada de pequenos comércios, escolas e igrejas, onde crianças e adolescentes circulam até tarde. Alunos contam que a última turma de Chaolin termina por volta das 20h. Minutos depois, vídeos gravados por celulares registram a movimentação de viaturas e curiosos atrás das fitas de isolamento. A notícia corre rápido pelas redes sociais, em grupos de capoeira e páginas de bairro.
Marcos André é conhecido na região pela atuação em projetos sociais e por levar rodas de capoeira para praças e escolas públicas. Em fotos que circulam nesta quarta-feira (29), ele aparece cercado de crianças, muitas de uniforme escolar, batendo palmas e repetindo os golpes básicos do berimbau e da ginga. “Ele tirava muita gente da rua com a capoeira”, diz um morador, amigo da família, que prefere não se identificar. “Muita criança aqui só tinha isso de atividade depois da escola”, afirma.
O velório de Chaolin reúne dezenas de alunos, ex-alunos, pais e educadores. Alguns vestem a calça branca tradicional da capoeira. Outros levam instrumentos, como atabaques e pandeiros, em sinal de homenagem. Nas redes, praticantes de diferentes grupos marcam uma roda simbólica para o próximo fim de semana, em memória do professor. A data exata ainda depende da liberação do corpo pelo Instituto Médico-Legal.
Prisão do suspeito não responde a perguntas sobre a motivação
Horas depois do crime, policiais localizam o suspeito em Campos dos Goytacazes, a cerca de 280 quilômetros de Nilópolis. A informação sobre a prisão é confirmada por fontes ligadas à investigação. A identidade do detido não é divulgada oficialmente até o início da noite, e a motivação do assassinato permanece em sigilo. Investigadores afirmam que trabalham com mais de uma linha de apuração, mas evitam antecipar hipóteses.
A captura em outra cidade indica tentativa de fuga e mobiliza equipes de mais de um batalhão. O trajeto entre Nilópolis e Campos, por estrada, leva em média quatro horas. A prisão é tratada como passo importante para esclarecer o caso, mas não dissipa a sensação de insegurança. “A gente respira um pouco aliviado sabendo que ele foi preso, mas a pergunta continua: por quê?”, diz uma ex-aluna de 27 anos, que treinou com Chaolin na adolescência.
O assassinato reacende o debate sobre a proteção de educadores, artistas e líderes comunitários em áreas urbanas marcadas por violência. A capoeira, reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil desde 2008, ocupa hoje escolas, clubes e projetos sociais em diferentes cidades do país. Professores como Chaolin atuam como mediadores de conflitos e referência para adolescentes em vulnerabilidade. A morte de um mestre nesse contexto é sentida como ataque a uma rede de proteção informal que se constrói em torno da cultura.
Integrantes do movimento cultural na Baixada Fluminense organizam notas públicas, rodas abertas e debates sobre segurança. Em grupos de mensagens, circulam relatos de professores que evitam sair sozinhos à noite depois das aulas ou que passaram a encerrar atividades mais cedo. Alguns mencionam mudanças de endereço de projetos por medo de atravessar áreas disputadas por grupos armados. A morte de Chaolin entra nessa conta e passa a ser citada como exemplo extremo do risco.
Capoeira em luto cobra respostas e políticas de proteção
A comoção em torno do assassinato de Marcos André se espalha por outros estados. Grupos de capoeira de São Paulo, Bahia e Distrito Federal publicam notas de pesar e cobram esclarecimento. Em uma das mensagens, um coletivo lembra que, nos últimos cinco anos, pelo menos três professores ligados a projetos em periferias da Região Metropolitana do Rio são mortos em circunstâncias violentas. O número não consta de estatísticas oficiais, mas circula entre mestres como sinal de alerta.
Especialistas em segurança pública apontam que educadores e artistas que atuam em bairros vulneráveis acabam expostos a conflitos locais, ainda que não participem deles. A falta de iluminação, a ausência de policiamento regular e a presença de grupos armados aumentam o risco. A morte de Chaolin, em frente ao local de trabalho, reforça essa percepção. “Quando um professor é assassinado na porta da academia, o recado que fica para a comunidade é de medo”, avalia um pesquisador ouvida pela reportagem.
Pais relatam que alguns alunos menores de idade faltam às aulas no dia seguinte ao crime. Outros pedem para treinar apenas em horários de manhã ou início da tarde, quando o movimento nas ruas é maior. Coordenadores de projetos da região discutem medidas simples, como reforço de iluminação, câmeras de segurança e integração com escolas e conselhos tutelares. A maioria das iniciativas, porém, depende de investimento público que não chega com a mesma velocidade da violência.
Investigação tenta esclarecer motivação e resposta do poder público
Delegados responsáveis pelo inquérito trabalham para reconstruir os últimos passos de Chaolin antes de sair da academia. Imagens de câmeras da rua e depoimentos de testemunhas devem orientar os próximos dias da apuração. A expectativa é que o suspeito preso em Campos seja transferido para a Baixada Fluminense ainda nesta semana, para prestar depoimento formal. Até agora, não há confirmação se o professor já havia registrado ameaças ou desentendimentos recentes.
Organizações culturais e lideranças de bairro planejam cobrar das autoridades um plano específico de proteção para educadores e artistas que atuam com crianças e jovens em áreas vulneráveis. A pauta inclui segurança no entorno de academias, centros culturais e quadras esportivas. A morte de Chaolin transforma essas reivindicações em urgência. Para alunos e amigos, o desfecho da investigação e a adoção de medidas concretas serão a forma mais contundente de homenagem. Até lá, a pergunta sobre por que um professor de capoeira é morto a poucos metros do trabalho continua sem resposta.
