Nasa se prepara para enviar quatro astronautas em volta da Lua em 2026
A Nasa se prepara para lançar, a partir de 6 de fevereiro de 2026, a missão Artemis II, primeiro voo tripulado do novo programa lunar, com quatro astronautas em uma volta de dez dias ao redor da Lua. O objetivo é testar, em condições reais, a cápsula Orion e o foguete SLS, base tecnológica das próximas viagens que devem levar humanos de volta à superfície lunar.
Nova era das viagens tripuladas à Lua
O foguete Space Launch System, o mais potente já construído pela agência americana, decola do Complexo 39B, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. No topo, a nave Orion leva Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen em uma trajetória que deixará a órbita terrestre baixa e os colocará em rota para contornar o lado oculto da Lua, sem pouso na superfície.
O calendário de lançamento prevê uma janela que se abre em 6 de fevereiro e pode se estender por vários dias, dependendo de condições técnicas e climáticas. Cada tentativa exige alinhamento minucioso entre mecânica orbital, sistemas da cápsula e infraestrutura em solo, em uma coreografia que envolve milhares de engenheiros e controladores de voo.
A missão marca o retorno de humanos à vizinhança lunar depois de mais de meio século. A Apollo 17, última missão tripulada à Lua, ocorre em 1972. Desde então, a presença humana fica restrita à órbita baixa da Terra, principalmente na Estação Espacial Internacional. Artemis II rompe esse limite e testa, em um único voo, o conjunto de tecnologias que a Nasa pretende usar de forma repetida nas próximas décadas.
O plano de voo inclui um teste de aproximação e mira ainda próximo à Terra, antes da queima que enviará a Orion em direção à Lua. Essa demonstração permite checar, com margem de segurança maior, os sistemas de navegação e propulsão da cápsula, além da resposta do foguete em um cenário que simula manobras mais complexas de futuras missões.
A tripulação que simboliza diversidade e cooperação
Reid Wiseman assume o comando da missão após mais de uma década na equipe de astronautas da Nasa. Engenheiro de computação, veterano da Estação Espacial Internacional e ex-chefe do Escritório de Astronautas entre 2020 e 2022, ele coordena a tripulação em um ambiente que combina rotina militar, pesquisa científica e exposição pública intensa.
Ao seu lado, Victor Glover pilota a Orion. Nascido em Pomona, na Califórnia, ele acumula mais de 3.500 horas de voo em mais de 40 aeronaves, entre elas caças F/A-18 Hornet e Super Hornet. Glover já integra a missão SpaceX Crew-1 e a Expedição 64 na Estação Espacial Internacional. Agora, se torna o astronauta negro a viajar mais longe da Terra, em um gesto simbólico de inclusão em um programa historicamente marcado por equipes homogêneas.
Christina Koch é a única mulher da tripulação e leva para Artemis II um currículo que redesenha o protagonismo feminino no espaço. Engenheira eletricista e física, ela mantém o recorde de voo espacial único mais longo realizado por uma mulher, com 328 dias consecutivos. Participa ainda das primeiras caminhadas espaciais formadas apenas por mulheres. Sua presença reforça o compromisso público da Nasa de pousar, em missões seguintes, a primeira mulher na superfície lunar.
Jeremy Hansen, representante da Agência Espacial Canadense, completa o grupo como especialista de missão. Ele será o primeiro canadense em uma missão tripulada lunar, resultado de mais de uma década de cooperação técnica entre Estados Unidos e Canadá. Formado em Ciências Espaciais, com mestrado em Física focado em rastreamento de satélites, Hansen já lidera, em 2017, uma turma de treinamento de astronautas da Nasa, algo inédito para um canadense.
A composição do time traduz a estratégia política e científica do programa Artemis. Ao repartir lugares na cápsula com parceiros internacionais e ao escalar uma mulher com recorde de permanência no espaço e um piloto negro em posição de destaque, a Nasa envia um recado sobre como pretende construir sua presença na Lua: multilateral, diversa e de longo prazo.
Por que Artemis II importa além da Nasa
Artemis II funciona como um exame final antes de a agência autorizar pousos tripulados na Lua, previstos para a Artemis III e missões posteriores. Os cerca de dez dias de voo permitem avaliar, em tempo real, o desempenho do SLS, a resistência térmica e mecânica da Orion e a resposta dos sistemas de suporte à vida em um ambiente mais hostil que a órbita baixa. Cada parâmetro medido alimenta ajustes em hardware, software e protocolos de emergência.
O impacto ultrapassa o universo dos entusiastas do espaço. O desenvolvimento do SLS e da Orion movimenta bilhões de dólares em contratos com empresas de tecnologia, aeroespacial e materiais avançados. Sensores, sistemas de comunicação e algoritmos de navegação, projetados para funcionar a centenas de milhares de quilômetros da Terra, frequentemente migram para aplicações comerciais, da aviação ao setor de telecomunicações.
O programa também serve de vitrine para políticas públicas de ciência e tecnologia. Ao demonstrar capacidade de enviar, com segurança, humanos para além da órbita terrestre baixa, a Nasa tenta convencer governos e parlamentos a manter investimentos de longo prazo em exploração espacial. Países parceiros, como Canadá e membros da União Europeia, usam esses resultados para justificar suas próprias fatias orçamentárias.
Na dimensão simbólica, a missão reacende o imaginário coletivo em torno da exploração humana do espaço. As imagens da Orion passando atrás da Lua, com a Terra ao fundo, tendem a ocupar o lugar das fotografias históricas da era Apollo, agora em resolução muito maior e em tempo quase real. Essa exposição pode inspirar estudantes a seguir carreiras em ciência, engenharia e matemática, áreas que ainda sofrem com falta de diversidade e de renovação de quadros.
Próximos passos rumo à Lua e além
O sucesso de Artemis II é condição para que a Nasa mantenha o cronograma de pousar astronautas na Lua já nas próximas missões. A agência pretende estabelecer presença sustentável no satélite, com módulos de habitação em solo e uma pequena estação em órbita lunar, a Gateway. Esse conjunto deve servir, na década de 2030, como plataforma de testes para futuras viagens tripuladas a Marte.
Até a abertura da janela de lançamento, engenheiros seguem realizando testes de integração do SLS e da Orion, além de simulações de emergência com a tripulação. O roteiro inclui cenários de abortagem logo após a decolagem, falhas de propulsão e problemas de comunicação em pleno voo. Cada ensaio reduz margens de incerteza, mas não elimina a pergunta que acompanha toda grande empreitada espacial: até onde a humanidade está disposta a ir para transformar a Lua em etapa e não mais em destino final.
