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Ex-primeira-dama da Coreia do Sul é condenada à prisão por suborno

A ex-primeira-dama sul-coreana Kim Keon Hee é condenada por suborno nesta quarta-feira (28), em Seul, em desdobramento direto da queda do ex-presidente Yoon Suk Yeol. A decisão mantém sob pressão o casal que dominou a política recente do país e aprofunda a disputa em torno dos limites entre influência privada e poder de Estado.

Sentença expõe desgaste do antigo núcleo do poder

O veredicto sai no Tribunal do Distrito Central de Seul, quase um ano após a destituição de Yoon em 2025. Kim responde ali por aceitar presentes de alto valor enquanto ocupava o posto informal, mas politicamente sensível, de primeira-dama. Os magistrados confirmam a acusação de suborno e rejeitam a tese da defesa de que os itens seriam simples cortesias sem expectativa de retorno.

Kim ouve a leitura da sentença em silêncio, vestindo terno escuro e máscara, escoltada por guardas na sala principal do tribunal. Do lado de fora, apoiadores do ex-casal desafiam o frio intenso e reagem com aplausos quando se tornam públicas as absolvições em duas frentes sensíveis: manipulação de preços de ações e violação da lei de financiamento político. A promotoria, no entanto, avisa que vai recorrer dessas partes da decisão.

Os promotores pedem inicialmente 15 anos de prisão e multas de 2,9 bilhões de won por todo o conjunto de acusações. O colegiado de três juízes decide por uma condenação mais restrita, focada no suborno, e impõe uma multa de 12,8 milhões de won, cerca de R$ 46,5 mil, além da confiscação de um colar de diamantes recebido pela ex-primeira-dama. Kim está presa desde agosto, alvo de uma equipe especial de investigação.

Na sentença, o juiz presidente ressalta o peso simbólico da função desempenhada por Kim. “O cargo de primeira-dama não confere nenhum poder formal que permita intervenção em assuntos de Estado, mas ela é uma figura simbólica que representa o país”, afirma. Em seguida, reforça a crítica à conduta da acusada: “Uma pessoa que ocupou tal posição pode não ser sempre um modelo a ser seguido, mas não deve ser um mau exemplo para o público”.

Rede de favores, Igreja da Unificação e crise de confiança

A condenação de Kim cristaliza anos de suspeitas sobre sua atuação na sombra do governo Yoon. Antes mesmo da eleição de 2022, ela enfrenta questionamentos sobre o currículo acadêmico e denúncias persistentes de envolvimento em esquemas de manipulação de ações. A suposta proximidade com um intermediário político e com uma figura descrita como xamã alimenta a percepção de que conselheiros informais influenciam decisões do então presidente.

No centro do caso de suborno está a relação de Kim com a Igreja da Unificação. Investigadores apontam uma série de presentes de alto valor que chegam à ex-primeira-dama em meio à consolidação do poder do casal presidencial. A igreja nega qualquer intenção de compra de influência. Em nota, a liderança afirma que as doações são “atos de respeito, sem expectativa de nada em troca”. Sua líder, Han Hak-ja, que também enfrenta julgamento, rejeita ter ordenado qualquer tentativa de subornar Kim.

A trama se desenrola enquanto Yoon encara sua própria sequência de processos. Destituído em abril de 2025, o ex-presidente responde a oito ações penais, entre elas a acusação de insurreição pela tentativa fracassada de impor a lei marcial em dezembro de 2024. Em um dos julgamentos, ele já recebe pena de cinco anos de prisão por obstruir tentativas de prisão durante a crise institucional. A defesa recorre e insiste que a decretação da lei marcial está dentro de suas prerrogativas presidenciais.

Em outro processo, promotores chegam ao ponto de pedir a pena de morte, acusando Yoon de arquitetar uma insurreição. O tribunal marca para 19 de fevereiro a decisão nesse caso, que pode redefinir o lugar do ex-presidente na história recente do país. A sucessão de julgamentos transforma o antigo casal presidencial em símbolo de um período de instabilidade política, marcado por confrontos com a oposição e sucessivas denúncias de abuso de poder.

Pressão sobre o sistema político e próximos capítulos

A condenação de Kim funciona como termômetro da disposição da Justiça sul-coreana em enfrentar suspeitas de corrupção no topo do poder. O contraste entre a pena por suborno e as absolvições em outras frentes de investigação abre espaço para leituras opostas. Para críticos do ex-governo, o veredicto confirma que a influência informal da primeira-dama ultrapassa limites éticos. Para apoiadores, as absolvições alimentam o discurso de perseguição seletiva e judicialização da política.

No curto prazo, o impacto é direto sobre o debate público. O caso reforça a ideia de que esposas e familiares de líderes precisam de regras mais claras de transparência, mesmo sem cargo formal. A própria fala do juiz, ao destacar o risco de “mau exemplo”, ecoa em um país que já derruba presidentes por escândalos de corrupção e tráfico de influência. A comparação com crises anteriores, como a que levou à queda de Park Geun-hye, volta às análises políticas, ainda que o enredo atual tenha contornos distintos.

A defesa de Kim avisa que ainda estuda recorrer da condenação por suborno. Se apresentar o recurso, deve abrir uma nova etapa de disputa jurídica em instâncias superiores, enquanto a promotoria leva adiante o plano de reverter as absolvições sobre ações e financiamento político. A possibilidade de decisões divergentes em cortes de apelação mantém o cenário em suspensão e prolonga a exposição de Kim e de Yoon.

Os processos também influenciam a agenda da atual administração em Seul, que tenta se distanciar do legado do antigo governo sem alimentar a percepção de caça política. A maneira como o sistema judicial lida com as acusações contra o ex-casal pode definir o grau de confiança das próximas eleições e o apetite por reformas institucionais. Resta saber se a prisão de uma ex-primeira-dama, somada ao risco de uma pena extrema para um ex-presidente, será vista como afirmação de responsabilização ou como mais um capítulo de divisão profunda na sociedade sul-coreana.

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