Ciencia e Tecnologia

Google paga US$ 68 mi por gravações indevidas do Assistente

O Google concorda em pagar US$ 68 milhões para encerrar um processo em que é acusado de gravar conversas privadas sem autorização por meio do Google Assistente. O acordo é firmado em 23 de janeiro de 2026, em um tribunal da Califórnia, e ainda depende da aprovação da Justiça dos Estados Unidos. Usuários afetados desde 18 de maio de 2016 podem receber parte da quantia.

Acusações de espionagem e publicidade direcionada

O processo sustenta que o assistente de voz da empresa, presente em celulares e tablets com Android, grava conversas quando é ativado por engano. Em vez de responder a um comando claro como “Ok, Google” ou “Hey, Google”, o software entra em ação ao ouvir palavras parecidas, em situações corriqueiras do dia a dia, sem que o usuário perceba.

De acordo com a ação, esses áudios são armazenados e usados para alimentar o sistema de publicidade do Google, que exibe anúncios personalizados com base em interesses e hábitos. As gravações, segundo os autores do processo, acabam compartilhadas com anunciantes sem consentimento explícito, o que configura violação de privacidade e coleta irregular de dados sensíveis.

Assistente em modo de espera vira risco constante

O Google Assistente nasce como rival direto da Siri, da Apple, e se espalha por milhões de aparelhos a partir de 2016. O recurso permanece em modo de espera, sempre pronto para ouvir o comando de voz que destrava suas funções, como responder perguntas, organizar compromissos, fazer chamadas e controlar lâmpadas ou TVs conectadas. Na prática, porém, o que seria conveniência se transforma em vigilância permanente, apontam os autores da ação.

Os advogados descrevem uma rotina em que o telefone ligado sobre a mesa da sala se torna um microfone adicional em casa. Conversas sobre saúde, finanças ou relações pessoais podem ser captadas por um comando mal interpretado e, em segundos, convertidas em dados comerciais. A ação acusa o Google de transformar esse tipo de conteúdo íntimo em insumo para publicidade segmentada, sem aviso claro ou opção real de recusa.

Nos documentos apresentados à Justiça, a companhia nega qualquer irregularidade. Alega que segue políticas de privacidade públicas e que o usuário tem ferramentas para gerenciar o histórico de voz. Mesmo assim, aceita o acordo milionário. A empresa afirma que a decisão busca “evitar riscos e custos de uma disputa prolongada”, fórmula comum em litígios que envolvem gigantes de tecnologia e consumidores.

Indenização atinge usuários desde 2016

O pagamento de US$ 68 milhões, cerca de R$ 359 milhões pela cotação atual, depende agora da homologação da juíza federal Beth Labson Freeman, responsável pelo caso na Califórnia. O plano apresentado prevê compensação para pessoas que compram dispositivos do Google ou relatam problemas com falsos acionamentos do assistente desde 18 de maio de 2016. O valor individual ainda não é divulgado e deve variar conforme o número de pedidos e critérios definidos pela corte.

O caso ecoa um movimento mais amplo de pressão sobre as big techs. Em 2025, a Apple paga US$ 95 milhões, o equivalente a R$ 501 milhões à época, para encerrar um processo semelhante envolvendo a Siri, sua assistente de voz. Em ambos os casos, usuários afirmam que seus aparelhos funcionam como escutas involuntárias, transformando a promessa de conveniência em um risco constante de exposição.

O Google hoje aposta na IA Gemini como sucessora do Assistente, mas o software antigo segue embarcado em uma base enorme de dispositivos. A transição tecnológica não elimina o passivo jurídico acumulado desde meados da década passada, marcado por reclamações de gravações não autorizadas e dificuldade de entender, em linguagem simples, o que exatamente é coletado e como isso é usado.

Privacidade na era da escuta permanente

O processo reacende o debate sobre o alcance da escuta digital na rotina doméstica. A fronteira entre comando de voz e vigilância ambiental se torna cada vez mais tênue em casas cheias de celulares, caixas de som inteligentes e televisores conectados. Quando uma assistente virtual erra o momento de “acordar”, o que deveria ser um clique conveniente se aproxima de um grampo sem mandado.

Para especialistas em direito digital, casos como o do Google Assistente apontam para um cenário em que multas e acordos milionários se tornam parte do custo de operação das gigantes de tecnologia. A questão central passa a ser se essas sanções são suficientes para mudar a arquitetura dos produtos, tornando a proteção à privacidade uma exigência técnica, e não apenas uma promessa de marketing em letras miúdas.

Usuários também enfrentam um dilema prático. Desligar o microfone do celular ou da caixa de som reduz o risco de gravação indesejada, mas esvazia o principal benefício dos assistentes de voz, que é responder imediatamente a um chamado. A negociação entre conforto e segurança, antes restrita a especialistas, entra de vez no cotidiano de quem depende do celular para trabalhar, estudar e se relacionar.

Regulação e próximos embates jurídicos

A decisão de aceitar o acordo não encerra o debate sobre o uso de dados coletados por voz. Ao contrário, alimenta iniciativas regulatórias em diferentes países, que observam o que ocorre nos tribunais norte-americanos para moldar leis de proteção de dados mais duras. O histórico recente indica uma tendência de fiscalização mais rigorosa e punições financeiras crescentes para empresas que falham em proteger a privacidade dos consumidores.

Nos próximos meses, a juíza Beth Labson Freeman deve avaliar os termos do acordo e o plano de compensação aos usuários. A forma como esse dinheiro será distribuído, bem como eventuais mudanças técnicas exigidas do Google, tende a servir de referência para outras ações coletivas. Enquanto a Justiça decide, o episódio deixa uma pergunta incômoda para quem vive cercado de telas e alto-falantes conectados: até onde estamos dispostos a ser ouvidos em troca de alguns segundos de conveniência?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *