Nasa marca para 2026 voo tripulado da Orion em órbita da Lua
A Nasa agenda para 6 de fevereiro de 2026 o lançamento da espaçonave Orion, que levará quatro astronautas em um voo de dez dias ao redor da Lua. A missão Artemis II marca a retomada dos voos tripulados ao entorno lunar e abre caminho para futuras viagens a Marte.
Correr contra o tempo para voltar à Lua
O foguete Space Launch System, o mais potente em operação no mundo, já ocupa a plataforma do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Com 98 metros de altura, ele sustenta no topo a cápsula Orion, projetada para resistir ao ambiente mais hostil que a Nasa oferece hoje: o retorno à Terra em velocidade lunar.
A agência espacial norte-americana trata a Artemis II como um divisor de águas. Depois de um voo não tripulado em 2022, esta será a primeira vez que o programa leva humanos novamente à órbita da Lua, mais de meio século após o fim das missões Apollo. A tripulação reúne três astronautas dos Estados Unidos e um do Canadá, num gesto calculado de cooperação internacional e de afirmação de liderança tecnológica.
O calendário é apertado. O lançamento de 6 de fevereiro depende do sucesso de um ensaio geral quatro dias antes, que repete a contagem regressiva até os segundos finais. Engenheiros e técnicos buscam qualquer falha de software, válvula fora de tolerância ou leitura estranha nos sensores antes de autorizar o voo. O objetivo é simples e duro: nenhum improviso com gente a bordo.
A viagem não inclui pouso na superfície lunar. A Orion deixará a órbita da Terra impulsionada pelo SLS, contornará a Lua em uma trajetória ampla e retornará em cerca de dez dias. Mesmo sem colocar botas no solo cinzento, o voo deve levar os astronautas ao ponto mais distante da Terra já alcançado por humanos, reforçando o simbolismo da missão.
Uma cápsula feita para sobreviver ao inferno térmico
Por trás da imagem limpa da cápsula branca, a Orion é um laboratório compacto de sobrevivência espacial. A estrutura principal reúne sete peças de liga de alumínio, soldadas para formar um vaso de pressão leve e hermético, projetado para impedir a passagem de ar, gás ou umidade mesmo depois de cruzar o vácuo por semanas.
A parte inferior abriga um escudo térmico de cinco metros de diâmetro, peça central da estratégia de proteção. Na volta para casa, a cápsula mergulha na atmosfera a mais de 39 mil km/h. O atrito aquece o ar ao redor a quase 2.760 °C, temperatura próxima à metade da registrada na superfície do Sol. Para sobreviver a esse choque, a Nasa recorre a um material chamado Avcoat, aplicado em blocos na superfície externa do escudo. Ele se queima de forma controlada, levando o calor embora como se fosse uma casca que se desfaz camada por camada.
As laterais cônicas do módulo da tripulação recebem outra linha de defesa. Ali, 1.300 placas de fibra de sílica formam uma espécie de casaco térmico, conhecido como backshell. Essas peças protegem a cápsula tanto do frio extremo do espaço, que derruba temperaturas muito abaixo de zero, quanto do calor repentino da reentrada.
Dentro da Orion, o cenário é compacto, mas planejado para missões de até 21 dias sem depender de outra nave. O interior concentra quatro assentos, alojamentos de descanso, piso em estrutura de alumínio e um painel que mistura tecnologia digital e redundância analógica. A tripulação comanda o veículo por meio de três telas, cerca de 60 interruptores físicos, dois controladores manuais de rotação, dois de translação e dois dispositivos de controle de cursor. A filosofia é clara: se um sistema falha, outro assume.
Logo abaixo da cápsula, o módulo de serviço europeu, fornecido pela Agência Espacial Europeia, funciona como um centro de suporte vital. Ele abriga os motores principais e auxiliares, gera energia elétrica, regula a temperatura interna e entrega ar e água para os astronautas. Esse módulo não volta para casa. Pouco antes da reentrada, se separa e se desintegra na atmosfera, enquanto apenas o módulo de tripulação segue o caminho até o oceano.
Na fase final, a sequência é cronometrada ao segundo. A cerca de 7 mil metros de altitude, a Orion libera o sistema de paraquedas. Conjuntos principais e auxiliares se abrem em etapas, desacelerando a cápsula até um pouso controlado no mar. É o último teste da integridade da estrutura e do escudo, que carrega as marcas do fogo que enfrentou minutos antes.
Programa Artemis mira Marte e disputa de poder no espaço
O programa Artemis custa bilhões de dólares e nasce com ambição declarada: restabelecer uma presença humana regular no entorno da Lua e usar esse ambiente como campo de provas para ir a Marte. A Orion atua como peça central dessa estratégia. Serve hoje para voos curtos ao redor da Lua, mas é desenhada para se integrar, no futuro, a estações em órbita lunar e a módulos capazes de partir em direção ao planeta vermelho.
A Nasa afirma que a cápsula “deve servir como etapa essencial” de futuras missões interplanetárias. Na prática, cada voo da Orion testa tecnologias que depois migram para outras frentes, de sistemas de suporte à vida a novos materiais resistentes a radiação e calor extremo. O resultado interessa não só à exploração científica, mas também a aplicações civis e militares, em satélites, veículos de reentrada e defesa.
A Artemis II também reforça alianças. A participação da ESA no módulo de serviço e a presença de um astronauta canadense na tripulação sinalizam a aposta em um consórcio ocidental para dividir custos e ganhos. Países que embarcam nesse esforço asseguram acesso preferencial a dados científicos, contratos industriais e cadeias de inovação em setores de alto valor agregado.
O impacto transborda o ambiente espacial. Programas dessa escala tradicionalmente irrigam universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia. Cada componente da Orion, do Avcoat às placas de fibra de sílica, passa por refinamentos que podem, mais tarde, aparecer em turbinas de avião, sensores industriais ou materiais de construção mais resistentes. A longo prazo, esse ciclo ajuda a formar engenheiros, físicos e técnicos especializados, alimentando ecossistemas de inovação.
Próximo passo antes de voltar a pisar na Lua
A Artemis II funciona como um ensaio geral com gente a bordo para etapas ainda mais arriscadas. Se o voo cumprir o plano, a Nasa pretende avançar para a Artemis III, missão que prevê o pouso de astronautas no polo sul lunar ainda nesta década, usando outro veículo para a descida à superfície. A Orion seguiria como cápsula de transporte entre a Terra e a órbita da Lua.
O roteiro até lá ainda depende de orçamentos anuais aprovados no Congresso dos EUA, da capacidade industrial de entregar peças no prazo e da solução de problemas que só aparecem em voo. Cada atraso alimenta a disputa política sobre o custo do programa. Cada sucesso, por outro lado, reforça a imagem dos Estados Unidos e de seus parceiros como potências tecnológicas em um espaço cada vez mais disputado por China, Rússia e empresas privadas.
Enquanto o SLS avança lentamente pela avenida de concreto do Kennedy em direção à plataforma, a missão Artemis II se transforma em vitrine global. O que acontece com a Orion nos dez dias de viagem ajudará a definir não apenas quando voltaremos a caminhar sobre a Lua, mas quão perto estamos de encarar, de fato, a travessia a Marte.
