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Ataque a cão Caramelo em SC reacende pressão por leis de proteção animal

Caramelo, cão adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, sobrevive em 27 de janeiro de 2026 a um ataque violento, com tentativa de afogamento. O alvo principal seria outro cachorro, Orelha, mas o episódio termina por transformar o vira-lata em símbolo da luta contra a crueldade animal no Estado.

Cão de autoridade vira símbolo em caso de violência

O ataque acontece em uma área urbana de Santa Catarina e envolve um grupo de adolescentes, apontados como responsáveis pelas agressões. A tentativa de afogar Caramelo choca moradores, mobiliza vizinhos e chega em poucas horas às redes sociais, onde vídeos e relatos se espalham com velocidade. Em menos de 24 horas, perfis de proteção animal acumulam milhares de comentários cobrando punição exemplar.

Caramelo é resgatado com vida e passa por atendimento veterinário de emergência. Exames iniciais indicam sinais de violência física e estresse intenso, mas sem sequelas permanentes. Orelha, alvo original dos agressores segundo os primeiros relatos, também é localizado e avaliado por profissionais. A Polícia Civil trata o caso como crime de maus-tratos a animais, previsto na Lei Federal 9.605, de 1998, que desde 2020 prevê pena de até 5 anos de reclusão quando a vítima é um cão ou gato.

O fato de o animal estar sob a guarda do delegado-geral da PCSC muda o peso político da investigação. Internamente, a determinação é de apurar em prazo curto, com identificação de todos os envolvidos e reconstrução minuto a minuto da sequência de agressões. Um investigador ouvido pela reportagem resume o clima: “Quando um caso desses acontece com o cão de uma autoridade, fica impossível fingir que é um problema menor”.

Repercussão pressiona Estado por respostas rápidas

A notícia do ataque a Caramelo extrapola o círculo policial em poucas horas. Em grupos de WhatsApp e no X, antigo Twitter, a expressão “justiça por Caramelo” passa a circular associada a mensagens de repúdio à violência contra animais. Em Santa Catarina, onde dados de ONGs indicam alta de até 30% nas denúncias de maus-tratos nos últimos três anos, o caso reforça a percepção de que a repressão ainda não acompanha a realidade das ruas.

Entidades de proteção animal lembram que a legislação endurece a pena desde 2020, mas afirmam que a aplicação segue irregular. “A lei existe, o que falta é investigação rápida, laudo bem feito e denúncia consistente”, afirma uma ativista que atua há mais de 10 anos em resgates no Estado. Para ela, o episódio com Caramelo expõe um contraste incômodo: “Quando o cão pertence a uma autoridade, a resposta é imediata. E os milhares de animais anônimos, quem protege?”

O envolvimento de adolescentes na agressão adiciona outra camada de tensão. Conselhos tutelares e o Ministério Público são acionados para acompanhar o caso, que deve tramitar na esfera da infância e juventude. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que episódios de crueldade contra animais na adolescência podem ser sinal de risco para comportamentos violentos futuros. “A ciência mostra, há pelo menos duas décadas, que maus-tratos reiterados a animais podem anteceder outras formas de violência”, destaca um pesquisador da área de criminologia.

Em paralelo, parlamentares estaduais começam a usar o caso como exemplo em discursos por mudanças na legislação local. Entre as propostas em discussão estão a criação de um cadastro estadual de condenados por maus-tratos, o aumento de multas administrativas e a exigência de cursos de reeducação obrigatórios para agressores, com carga mínima de 40 horas. Nenhuma dessas medidas, por enquanto, tem data definida para votação.

Do resgate às possíveis mudanças na lei

A sobrevivência de Caramelo dá ao caso uma narrativa de resistência, mas não reduz a gravidade do ataque. Veterinários consultados explicam que tentativas de afogamento podem causar danos pulmonares graves em poucos minutos, além de traumas psicológicos duradouros. Em 2025, levantamento de uma rede de clínicas em três capitais do Sul mostra aumento de 18% no atendimento de animais vítimas de violência intencional.

Na prática, o episódio já provoca movimentos concretos. Delegacias de polícia em ao menos três cidades catarinenses recebem orientação para registrar com mais detalhamento ocorrências de maus-tratos, incluindo fotos, laudos e testemunhos formais. Órgãos municipais de bem-estar animal buscam reforços orçamentários para ampliar equipes de fiscalização, ainda que enfrentem limitações financeiras num cenário de arrecadação apertada.

Organizações da sociedade civil enxergam uma rara janela de oportunidades. Campanhas educativas em escolas, que muitas vezes esbarram em falta de apoio, ganham novo fôlego com a comoção em torno de Caramelo. Professores relatam aumento das perguntas de crianças e adolescentes sobre responsabilidade com animais domésticos. “Quando eles veem um caso tão falado, entendem que não é brincadeira”, diz uma educadora da rede pública.

O próprio delegado-geral, tutor de Caramelo, passa a ser cobrado publicamente a transformar o episódio em agenda permanente. Internamente, a expectativa é de que a Polícia Civil anuncie até o fim do primeiro semestre de 2026 pelo menos um protocolo unificado para casos de maus-tratos, com prazos máximos para diligências iniciais. A discussão inclui ainda a criação de núcleos especializados em crimes ambientais e contra animais, modelo já testado em outros Estados.

Enquanto a investigação avança, com a oitiva de adolescentes, familiares e testemunhas, a principal incógnita permanece: o que leva um grupo tão jovem a praticar um ato de violência extrema contra animais? A resposta pode definir não apenas o desfecho do caso de Caramelo e Orelha, mas também o rumo de uma política pública mais ampla, que enxergue na proteção dos animais um passo essencial para uma sociedade menos violenta.

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