Nikolas diz que feridos por raio em ato em Brasília “já estão bem”
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) volta a comentar, nesta terça-feira (27/1), o incidente com raio que deixa dezenas de feridos em manifestação em Brasília. Em nova publicação, ele afirma que os casos mais graves “já estão bem” e critica adversários políticos e a imprensa.
Manifestação sob temporal e disputa de narrativas
A descarga elétrica atinge o público no domingo (25/1), no momento de maior concentração de apoiadores, nas imediações do Memorial JK e da Praça do Cruzeiro, no Eixo Monumental. A mobilização marca o fim da caminhada de seis dias e cerca de 240 quilômetros do deputado entre Paracatu (MG) e a capital federal, convocada em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e em defesa de anistia para condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.
O ato reúne lideranças do bolsonarismo, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e concentra milhares de pessoas sob sol forte no início da tarde. O cenário muda quando nuvens carregadas avançam sobre a Esplanada e um temporal desaba sobre o grupo, já posicionado para ouvir os discursos finais. Durante a chuva intensa, um raio atinge a região próxima ao público, provoca pânico e deixa dezenas de pessoas caídas no gramado. Em poucos minutos, o som de orações se mistura a gritos por socorro e pedidos por ambulâncias.
O Corpo de Bombeiros do Distrito Federal informa que ao menos 89 pessoas recebem atendimento, 47 delas encaminhadas a unidades de saúde, com quadros que incluem queimaduras, taquicardia, torções e hipotermia. Oito vítimas chegam a ser classificadas em estado grave no dia do ocorrido. Na segunda-feira (26/1), quatro permanecem internadas. Em entrevista no Hospital de Base, Nikolas procura afastar acusações de imprudência e define o episódio como “incidente natural, não irresponsabilidade”.
Relatos de quem está no gramado ajudam a dimensionar o choque vivido pelos participantes. O auxiliar de manutenção Cleodemiro Toletino Porto, de 45 anos, diz sentir um impacto forte no corpo antes de perceber o que acontece. Ele vê pessoas ao chão, algumas desacordadas, enquanto voluntários improvisam atendimentos até a chegada das equipes de resgate. O casal Sabrina e Renato Gadea, que sai de Guarulhos (SP) para acompanhar a manifestação, também descreve um cenário de confusão. “Eu acordei sentado no chão. Foi muito forte”, conta Renato, que recebe alta do Hospital de Base ainda no domingo.
Críticas à imprensa, fé política e debate sobre segurança
A reaparição pública de Nikolas nesta terça-feira acontece nas redes sociais, em um momento de disputa aberta pela narrativa do episódio. Em publicação no X, o deputado afirma: “Mesmo com toda a torcida contra da esquerda e parte da mídia, os últimos atingidos graves pelo raio já estão bem”. Ele cita nominalmente duas vítimas e encerra com um recado político: “Seguimos firmes”. O tom reforça o discurso de perseguição adotado por aliados desde o início da caminhada, que tratam o ato como resposta à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento dos ataques de 8 de janeiro.
O incidente, porém, reacende o debate sobre segurança em grandes eventos políticos ao ar livre, especialmente sob risco de tempestades típicas do verão em Brasília. Especialistas em gestão de desastres costumam recomendar protocolos claros de dispersão em caso de alerta de raios, com interrupção de atividades e orientação para que o público busque abrigos seguros. A tragédia evitada por pouco nas imediações do Memorial JK expõe a fragilidade dessas regras em atos marcados por forte carga emocional e religiosa, nos quais muitos participantes permanecem no local apesar da chuva intensa.
Entre os apoiadores, prevalece a leitura de que a caminhada e o ato final “valem a pena”, mesmo diante do susto. A cuiabana Natalia Queiroz, de 29 anos, atingida pelo raio enquanto está ao lado de uma amiga que precisa ser reanimada, afirma que voltaria a participar. “Tudo vale a pena. Eu não me arrependo nem um pouco de ter vindo de Mato Grosso para apoiar o Nikolas”, diz. O relato sintetiza o grau de mobilização do grupo, que liga fé, política e sensação de injustiça em torno das condenações relacionadas ao 8 de janeiro.
As críticas à cobertura da imprensa também ganham força nas horas seguintes ao incidente. Publicações em perfis alinhados ao bolsonarismo acusam veículos de “explorar a tragédia” e “minimizar o apoio” à caminhada. Adversários políticos, por outro lado, cobram responsabilidade na convocação de grandes atos em período de forte instabilidade climática, especialmente após uma sequência de temporais severos no Distrito Federal neste início de ano. A mesma cena, filmada de ângulos diferentes, alimenta leituras opostas nas redes sociais e reforça a polarização que marca a trajetória recente de Nikolas.
Polarização acirrada e próximos passos da mobilização
A caminhada entre Paracatu e Brasília, concluída em seis dias, funciona como teste político para 2026 e projeta Nikolas como um dos principais nomes da ala jovem do bolsonarismo. O roteiro combina orações coletivas, falas contra o STF e defesa de anistia para condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. O episódio do raio, em vez de arrefecer o movimento, vira símbolo de resistência para o grupo, que passa a tratar a tempestade como provação espiritual e tentativa de desmobilização por forças adversárias.
No campo institucional, o incidente pressiona autoridades locais a revisar protocolos de segurança em manifestações de grande porte. O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil do DF devem ser cobrados, nas próximas semanas, a detalhar estratégias para alertar organizadores e público sobre riscos climáticos, inclusive com possibilidade de suspensão de atos quando o nível de perigo aumenta. Parlamentares da oposição avaliam apresentar requerimentos de informação sobre a estrutura disponibilizada no domingo e sobre eventual falha de coordenação entre organizadores e poder público.
O entorno de Nikolas indica que novas mobilizações estão no radar, com foco na defesa de Bolsonaro e na revisão de penas impostas a participantes dos atos de 8 de janeiro. A aposta é transformar a caminhada e o episódio em Brasília em capital político, capaz de fortalecer a base militante e ampliar a presença do deputado em palanques pelo país. O desfecho clínico das vítimas, que ainda acompanham exames e recuperação, tende a influenciar o tom desse discurso.
A permanência de quatro internados e o trauma relatado por quem sente o choque no corpo deixam perguntas sem resposta imediata. A principal delas mira a linha tênue entre mobilização política e exposição a riscos previsíveis em eventos de massa. Enquanto Nikolas garante que “segue firme” e comemora a melhora dos feridos mais graves, autoridades e organizadores terão de explicar, nos próximos atos, como pretendem conciliar fé, política e segurança sob um mesmo céu carregado.
