Itália decreta emergência após tempestade devastar sul do país
O governo da Itália declara estado de emergência entre 24 e 26 de janeiro de 2026, após uma tempestade severa atingir Sicília, Sardenha e Calábria, com danos bilionários e nenhum registro de mortes. As autoridades correm para reconstruir cidades, proteger a próxima temporada turística e reforçar a preparação contra eventos climáticos extremos.
Mar invade cidades e revela vulnerabilidade da costa
Durante dois dias, chuva intensa, ventos muito fortes e ondas de até 9 metros transformam o sul da Itália em um laboratório dramático de crise climática. Ruas litorâneas desaparecem sob a água, defesas costeiras falham e centenas de famílias deixam suas casas às pressas.
Na Sicília, principal foco da destruição, a estimativa inicial de 740 milhões de euros em prejuízos já não se sustenta. Nesta segunda-feira (26), o governador Renato Schifani admite que o valor pode dobrar. Instalações de tratamento de água, estradas e estruturas à beira-mar somem em trechos inteiros de cidades dependentes do turismo.
Próximo a Taormina, um dos cartões-postais da ilha, o mar avança sobre áreas urbanas e invade ruas antes protegidas por barreiras de concreto. “O mar se deslocou cerca de 100 metros para o interior”, relata Beniamino Garau, prefeito de Capoterra, no sul da Sardenha, descrevendo um cenário que se repete em diferentes pontos do litoral.
Em Catânia, na costa leste da Sicília, parte da calçada da orla desmorona sob a força das ondas e da erosão do solo encharcado. No interior da ilha, um desmoronamento de terra, ligado ao solo saturado pela chuva, ameaça a cidade de Niscemi e força a retirada de cerca de mil moradores, segundo a proteção civil.
Na Calábria, região historicamente mais pobre da Itália, a tempestade atinge o campo com violência. A administração regional fala em “grandes danos aos negócios agrícolas” e alerta para “sérias repercussões para a economia rural”, em uma área que já enfrenta dificuldade para atrair investimentos e conter o êxodo de jovens.
Emergência, conta bilionária e risco à temporada turística
Com os prejuízos totais superando 1 bilhão de euros (cerca de US$ 1,19 bilhão), Roma tenta equilibrar resposta rápida e pressão orçamentária. O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni libera de imediato 100 milhões de euros, montante destinado às necessidades mais urgentes nas áreas atingidas, segundo o ministro da Proteção Civil, Nello Musumeci.
“Nos próximos dias, o governo adotará uma nova medida interministerial para permitir a restauração e a reconstrução da infraestrutura danificada”, afirma Musumeci, em comunicado. Governos regionais pressionam por mais recursos e reclamam que a conta de reconstrução crescerá à medida que equipes de engenheiros detalham os estragos.
A Sicília ocupa o centro das preocupações financeiras e políticas. Sozinha, responde por pelo menos 740 milhões de euros em danos já mapeados, valor que o governo local considera subestimado. Portos turísticos, estradas costeiras e equipamentos públicos de saneamento precisam de reconstrução quase completa em alguns trechos.
O impacto vai além das cifras. A próxima temporada de verão, período de pico do turismo no Mediterrâneo, entra em risco em cidades como Taormina e outras localidades da costa siciliana. Hotéis, bares e restaurantes calculam quanto será possível recuperar até julho. O setor, que representa parcela relevante da economia regional, teme cancelamentos em massa se imagens de ruas alagadas e calçadas destruídas permanecerem sem solução visível.
No campo, especialmente na Calábria, a tempestade arranca plantações, destrói estufas e danifica estradas rurais, travando o escoamento da produção. Agricultores relatam perda de safras inteiras e questionam se haverá linhas de crédito especiais para evitar falências em cadeia. Cada dia sem acesso logístico agrava o prejuízo nas comunidades mais isoladas.
As cenas de mar avançando sobre cidades e encostas cedendo em áreas antes consideradas seguras alimentam um debate antigo na Itália. Eventos climáticos extremos se repetem com frequência maior nos últimos anos, ampliando o risco de enchentes e deslizamentos em zonas urbanas e rurais. A crise atual reforça a sensação de que planos de adaptação saem mais devagar do que as tempestades chegam.
Alertas que salvam vidas e o desafio do próximo desastre
A ausência de mortes em um episódio de tamanha intensidade se torna um ponto central na narrativa das autoridades. Moradores e gestores locais atribuem o desfecho aos alertas antecipados da proteção civil, enviados nos dias que antecedem a tempestade. “Os avisos convenceram as pessoas a ficarem em casa”, relatam habitantes de diferentes cidades, em depoimentos recolhidos pelas administrações regionais.
O sistema de proteção civil massifica comunicados por aplicativos, rádio e TV, esvazia praias e áreas de risco, e coordena a retirada preventiva em locais como Niscemi. O episódio funciona como vitrine de um modelo de resposta que vem sendo ajustado após enchentes fatais em outras regiões italianas nos últimos anos.
A eficiência do alerta, porém, expõe uma contradição. A Itália consegue proteger vidas com mais eficácia, mas ainda reage com lentidão na prevenção estrutural. Obras de reforço costeiro, drenagem urbana e contenção de encostas avançam em ritmo desigual entre as regiões. Prefeitos e governadores cobram mais recursos estáveis, em vez de pacotes emergenciais pontuais.
Especialistas em clima lembram que o Mediterrâneo se aquece acima da média global, o que tende a intensificar tempestades e episódios de chuva concentrada. Nas últimas décadas, inundações devastam cidades do norte ao sul do país, matam dezenas de pessoas e expõem fragilidades em áreas que, historicamente, não enfrentavam esse tipo de ameaça.
O estado de emergência decretado agora cria uma janela de oportunidade política. O governo Meloni promete medidas rápidas de reconstrução e fala em modernizar a infraestrutura para resistir melhor ao próximo evento extremo. A disputa, a partir daqui, será transformar promessa em obra concreta, antes que uma nova tempestade volte a testar os limites do sistema.
Enquanto equipes contabilizam prejuízos e removem entulhos em Sicília, Sardenha e Calábria, a pergunta que organiza o debate em Roma é simples e incômoda: quanto tempo a Itália ainda pode gastar reagindo caso a caso, em vez de se preparar de forma permanente para um clima que já mudou?
