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Trump diz esperar não usar armada enviada ao Irã, mas reforça pressão

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta terça-feira (27) que espera não precisar usar a “grande armada” naval enviada em direção ao Irã. A declaração tenta equilibrar ameaça militar e sinal de abertura diplomática em meio à escalada de tensão no Oriente Médio.

Pressão no Golfo e recado a Teerã

Trump concede a entrevista quatro meses depois de assumir um novo mandato e em um dos momentos mais delicados da relação entre Washington e Teerã desde a crise nuclear de 2015. O envio da frota, anunciado nos últimos dias, ocorre enquanto o Irã adota um tom mais bélico e promete reagir a qualquer ataque americano ou israelense.

Na conversa com uma rádio americana, o presidente descreve o deslocamento de navios e aviões de guerra como um instrumento de pressão calculada, não como prelúdio inevitável de um confronto direto. “Espero que não precisemos usá-la”, diz, ao se referir à armada, sem detalhar números de navios ou efetivos, mas deixando claro que a operação já está em andamento.

Trump tenta falar ao mesmo tempo com o público doméstico, com aliados no Oriente Médio e com a cúpula iraniana. O recado central é de que a Casa Branca mantém a mão no gatilho, mas prefere a mesa de negociação. Na véspera, segunda-feira (26), ele já havia afirmado acreditar que Teerã “quer um acordo” e que os Estados Unidos seguem “com a via diplomática aberta”.

Do outro lado, autoridades iranianas respondem em tom de desafio e garantem que o país está pronto para reagir. A troca de declarações expõe o risco de um erro de cálculo em uma região que abriga alguns dos estreitos marítimos mais sensíveis do planeta, por onde passam, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Israel no centro da equação e ecos regionais

Ao comentar o impasse com o Irã, Trump faz uma afirmação que sintetiza sua visão sobre o equilíbrio de forças no Oriente Médio. “Israel não existiria sem minhas ações”, diz, em referência à política de máxima pressão contra Teerã e aos ataques recentes contra alvos ligados à Guarda Revolucionária iraniana.

A frase coloca explicitamente a segurança israelense no centro da estratégia americana. Desde o início de seu primeiro mandato, em 2017, Trump se apresenta como o principal fiador de Israel na cena internacional. Agora, em 2026, reforça esse papel ao atrelar o destino do país à ofensiva diplomática e militar contra o regime iraniano.

Analistas veem na movimentação naval uma tentativa de dissuasão clássica. Ao tornar visível a presença de uma frota capaz de lançar mísseis de cruzeiro e apoiar operações aéreas, o governo americano busca convencer Teerã de que qualquer ataque a Israel, a bases americanas na região ou a rotas de petróleo terá resposta rápida. Ao mesmo tempo, o discurso de que o Irã ainda pode optar por um acordo cria espaço para manobra política interna em ambos os países.

Trump também tenta projetar uma imagem de articulador regional ao citar o avanço da criação de um Conselho da Paz para Gaza. O organismo, segundo ele, pode ter poder de decisão não só sobre a Faixa, mas sobre outros territórios em disputa. A proposta ainda carece de detalhes públicos, mas sinaliza a intenção de envolver mais atores árabes em um arranjo de segurança que ultrapasse o cessar-fogo e alcance uma espécie de tutela política sobre áreas sob conflito.

Em paralelo, o presidente menciona brevemente outro dossiê sensível: a negociação em curso sobre a Groenlândia. Trump resume o processo com a frase de que o acordo “está indo bem”, sem revelar prazos nem condições. A referência aparentemente lateral mostra como a Casa Branca tenta conduzir, ao mesmo tempo, frentes distintas de disputa geopolítica, dos mares do Ártico ao Golfo Pérsico.

Risco de escalada e o que está em jogo

A armada enviada em direção ao Irã não é apenas um símbolo. Ela representa a capacidade de os EUA abrirem, em poucos dias, uma frente de conflito que poderia envolver mísseis de longo alcance, ataques cibernéticos e bloqueio de estreitos estratégicos. Um confronto desse porte teria impacto direto sobre o preço do petróleo, sobre cadeias de transporte marítimo e sobre a segurança de aliados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o próprio Israel.

Nos mercados, qualquer sinal de que a frota se aproxima de zonas de exclusão ou de que o Irã testa mísseis pode elevar o barril de petróleo em questão de horas. Em crises anteriores no Golfo, analistas registram saltos de dois dígitos nas cotações em poucos dias, com impacto imediato sobre inflação e custos de energia em economias já pressionadas por desaceleração e conflitos regionais.

Para a política americana, o cálculo de Trump é igualmente delicado. Uma parte do eleitorado republicano exige postura de força diante do Irã, visto há décadas como inimigo estratégico. Outra parcela, mais cansada de guerras longas após as intervenções no Iraque e no Afeganistão, rejeita a ideia de novos engajamentos militares. Ao afirmar que “espera não usar” a armada, o presidente tenta falar com os dois públicos.

No Irã, a liderança também precisa equilibrar discurso e sobrevivência política. O país enfrenta sanções econômicas severas desde 2018, quando Trump se retira do acordo nuclear assinado por Barack Obama em 2015. A receita do petróleo cai, a inflação supera dois dígitos e protestos esporádicos expõem o desgaste interno. Ao sustentar que está pronto para reagir, o regime tenta não parecer fraco diante de Washington e de seus próprios aliados regionais.

O Conselho da Paz para Gaza, mencionado por Trump, pode se tornar mais um palco dessas disputas. Se ganhar formato concreto, o organismo tende a envolver Israel, Autoridade Palestina, países árabes e possivelmente potências externas. O desenho final definirá quem terá poder de veto em decisões sobre cessar-fogo, reconstrução e administração civil, temas que mexem com a vida de mais de 2 milhões de pessoas na Faixa.

Próximos movimentos e incertezas

Os próximos dias devem mostrar se o discurso de abertura ao diálogo terá eco em Teerã. Diplomatas ouvidos reservadamente veem três caminhos possíveis de curto prazo: algum gesto simbólico de aproximação, como a retomada de contatos indiretos por meio de mediadores europeus; uma manutenção tensa do status atual, com exercícios militares de lado a lado; ou um incidente localizado que force as partes a recuarem na prática, mas endurecerem no discurso.

Trump, por enquanto, aposta na fórmula que sempre o acompanhou nas crises externas: fala dura diante das câmeras, espaço preservado para um acordo que possa chamar de vitória. O desfecho dessa equação dependerá não só das decisões na Casa Branca e em Teerã, mas também do cálculo de Israel e de atores regionais que veem na crise uma oportunidade de ampliar influência. Enquanto a armada avança rumo ao Golfo, a pergunta permanece em aberto: até que ponto a ameaça será suficiente para evitar que mais uma guerra comece no Oriente Médio?

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